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A “Caçapa Cantada” da GM em SJC

02/06/2010

Eu ainda era menino quando aprendi o sentido da expressão CAÇAPA CANTADA, que na linguagem dos jogadores de sinuca significava que o jogador da vez iria “matar” determinada bola em determinada caçapa, não valendo os pontos se o resultado fosse outro, mesmo se a referida bola fosse morta. Pois bem, de lá para cá, pelo menos para a minha geração, caçapa cantada virou sinônimo de resultado óbvio, ou melhor, de fato previamente desejado ou ainda de caminho já sabido, porém dissimulado, quando alguém deseja obter um resultado através de uma ação e de um caminho que todo mundo sabe no que vai dar.
   Em São José dos Campos, cidade onde moro, “capital” de tudo e do resto, melhor cidade do Brasil e do mundo, cidade onde as coisas “se melhorar estragam”, como durante bom tempo andaram pregando seus “donos”, ganhadora de prêmios espetaculares, nacionais e internacionais, anunciados em anos eleitorais, etc, etc, tem ocorrido um sem números do fenômeno tipo caçapa cantada e dentre todos, os mais recorrentes, têm sido os envolvendo a General Motors e o Sindicato dos Metalúrgicos.
   A lógica tem sido mais ou menos – para não dizer 100% a mesma – assim:
1. A GM, que vive querendo reduzir direitos antigos dos trabalhadores, anuncia que pretende fazer gordo investimento na unidade de S. José, mas reclama que ”assim não dá”, precisa baixar os seus custos com a redução de alguns direitos e melhorar a sua produtividade e o veículo de divulgação do fato é o jornal que domina a cidade e a região, a quem cabe dar o pontapé inicial no processo de “acuar” os trabalhadores, noticiando que a “batata quente” está com o Sindicato, que sempre é tratado como se fosse dono da vontade dos trabalhadores, quando não dos próprios;
2. Acuados – a luta contra a redução de direitos e perdas de conquistas sempre foi uma das piores entre as que são travadas pelo movimento sindical contar os patrões, pois essas discussões semper dividem muito os trabalhadores - Sindicato e trabalhadores já entram na negociação em desvantagem, fato que ajuda a empresa e tende a prolongar o embate, passando a “imprensa” a ”chamar a atenção” da sociedade para os riscos que a cidade e ”os trabalhadores” estão correndo, por culpa da intransigência de quem? Não dos próprios trabalhadores, que são os que decidem, em última instância, nas assembléias, a posição a ser tomada; a intransigência é “do Sindicato”. Se a maioria dos trabalhadores – não os chefes e mensalistas, ou mesmo os peões escalados para tal, que aparecem no jornal nessas ocasiões, se apresentando como movimento em oposição ao “Sindicato” e defendendo os interesses da empresa - tem posições diferentes das que têm sido aprovadas nas assembléias, por causa das posições defendidas pela diretoria do Sindicato, cabe a essa maioria deixar de ser covarde e/ou desorganizada e se impor como maioria. A diretoria do Sindicato é “valentona” e tem cara feia? Melhor ainda, derrota ela na próxima eleição, e bola pra fora!
3. Conforme os debates vão esquentando e ”a imprensa” vai ”preparando” a sociedade, a mesma começa a demonstrar preocupação com os fatos na GM; quem se manifesta? Os mesmos que t~em mandado na opinião pública de São José com os vereadores da direita e as “lideranças” dos empresários, tendo quase sempre à frente o Senhor Felipe Cury, que passou não sei quantos – muitos - anos, sendo dirigente de organizações da classe patronal, ao mesmo tempo que ocupava cargo em comissão,nomeado livremente pelos prefeitos do PSDB (Emanuel e Eduardo Cury) na administração municipal da cidade. O Jornal Ovale de 2/6/2010, por exemplo, traz o mesmo Felipe Cury no papel de baluarte dos interesses da cidade no mais recente, e ainda em andamento, episódio da natureza aqui descrita;
4. A evolução dos acontecimentos – com as negociações tendendo sempre a ficarem complicadas, porque a empresa vai se vendo cada vez mais fortalecida e os trabalhadores acuados, com os sindicalistas, de perfil ideológico já tradicionalmente de vocação para a radicalização e o conflito, vendo-se cada vez mais legitimados e obrigados a não transigir – vai devagar colocando a cidade “no colo”, de quatro, perante a GM, começando a ser construída a lista de “benesses” que o município passará a lhe oferecer, com “toda a sociedade” gritando “fica, fica, fica, General Motors!”, porque sem você nós não somos ninguém! Não faz mal que na última, e na penúltima, e na antepenúltima vez que fatos idênticos a esse aconteceram a empresa não cumpriu o que prometeu, continuando a fazer o que sempre quis na cidade, porque essa é a lógica e a relaidade das grandes corporações capitalistas, no Brasil e no mundo;
5. dependendo do andamento da “peleja”, entram a Igreja, o Prefeito, etc, etc, e não sei quem mais, agora nã mais implorando, mas oferecendo concessões e mais concesssões para a GM ficar, que ela vai amealhando sem cerimônia, mas nem por isso deixando de abrir mão do seu objetivo final, que é a redução de direitos, que geralmente vem acompanhada de compromissos de produção, etc, etc, dos trabalhadores; porque, se concessõeszinhas de terrenos, redução de impostos, etc, etc, servissem para mudar os planos de investimentos das grandes empresas em algum lugar do mundo, a Alpargatas, a Kodak, a Rhodia, a Avibrás e a Flextronics, entre outras, que nunca tiverama as lutas sindicais e as greves como ponto forte, não teriam sumido do mapa de São José;
6. Por fim, quando a GM dá o cheque mate, dizendo: “vou pra São Caetano”, aí é a comoção. Hoje estamos nesse pé, em relação ao mais recente embate, leiam o porta voz da nossa “sociedade”, o jornal Ovale e confiram!
PS: O nome da GM pode perfeitamente ser sbstituído pelo da Embraer em muitas casos similares; somente que nesse caso o enredo é mais sofisticado, em função da história dessa última na cidade e do fato dela ser uma empresa que muitos acham que deve ser “sustentada” pelo Governo Federal, podendo praticar um “capitalismo sem risco”..
   São esses os meus pontos de vistas em relação a tal assunto; tá feita a provocação, alguém quer levar o debate adiante?
Um abraço a todos(as),
moacyr pinto

 

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Filed in: Literatura, Moacyr Pinto, Política e Sociedade

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