
A ORIGEM (Inception)
De Chistopher Nolan, 148 min
Ficção Científica / Suspense
O cineasta Christopher Nolan, a cada novo trabalho apresentado, vai cada vez mais galgando seu espaço entre os grandes de sua profissão… não está longe o dia em que será considerado um gênio da Sétima Arte, podem esperar.
Além de pérolas independentes como o genial “Amnésia” , o ótimo “Insônia” ou o surpreeendente “O Grande Truque”, ele mostrou que também domina blockbusters, quando aceitou a árdua missão de ressuscitar a franquia do Homem-Morcego, aparentamente sepultada para sempre pelos execráveis filmes de Joel Schumacher. Primeiro veio o ótimo “Batman Begins” e depois, a obra-prima “O Cavaleiro das Trevas”. E agora, ele nos apresenta seu filme definitivo (bem, pelo menos até seu próximo trabalho…), pois “A Origem” já nasce um clássico, uma obra-prima que vai ganhar ares de mito cinematográfico ao longo dos anos, como foi com Blade Runner. Melhor que “O Cavaleiro das Trevas”? Acho bobagem comparar duas obras-primas… elas não foram feitas para competir e sim para serem igualmente apreciadas.
Este era um projeto que Nolan sonhava (ops, sem trocadilhos!) filmar já fazia uma década, e que só conseguiu colocar em prática agora, depois da bilheteria bilionária que a sequência de Batman arrecadou. Com 160 milhões de dólares em suas mãos, foi possível finalmente fazer o sonho (trocadilho que não quer calar!) virar realidade.
Nolan prova a cada dia que é capaz de criar um blockbuster sem abdicar da arte de se fazer Cinema em seu âmago, é possível sim agradar a críticos e ao público em geral. É possível criar um filme cerebral sem que ele seja voltado a meia dúzia de intelectuais. Nolan seja louvado!
O roteiro é simplesmente soberbo, apesar de pisar em um terreno já explorado anteriormente em outros filmes. Sonhos. Manipulação de sonhos. Realidades que podem não ser tão reais assim.
Apertem os cintos e adentremos ao labiríntico quebra-cabeças de visual arrebatador que é “A Origem”.
A trama, toda escrita por Nolan, tem um conceito espetacular. Num futuro próximo, existirá uma tecnologia que permitirá que se invada os sonhos alheios, literalmente. Lá, uma pessoa treinada poderá roubar informações sigilosas, como se fosse um “hacker onírico”, do incauto sonhador.
Leonardo DiCaprio vive Dom Cobb (curiosamente, este é o mesmo nome de um dos personagens principais do primeiro filme de Christopher Nolan, “Following”, de 1998), o maior especialista nessa arte de invadir sonhos. DiCaprio entrega uma interpretação brilhante, provando que é um dos maiores atores da atualidade. Sua evolução desde “Titanic” é impressionante. O papel lembra o de “A Ilha do Medo”, mas a atuação é superior, visceral. Cobb é um personagem assombrado por seu passado obscuro, por um grave erro cometido, cujas consequências foram trágicas. Por causa desse acontecimento, ele não pode mais colocar os pés nos Estados Unidos, já que é um foragido da justiça ianque. Ele usa seus talentos de “extrator” no mercado negro, vendendo seus serviços para companhias que desejem arrancar segredos de concorrentes comerciais. Até que, depois de um serviço que na realidade era um teste, ele recebe uma proposta irrecusável, precedida por uma pergunta que dá pano a toda a trama: é possível, em vez de roubar uma idéia, inserí-la na mente de alguém durante um sonho, fazendo com que a vítima pense que idéia veio dela própria? Sim, é possível, e Cobb já fez isso uma vez. Daí temos o nome original do filme “Inception”, infelizmente rebatizado para a tal “Origem” em terras tupiniquins.
Seu contratante é o megaindustrial Saito (vivido por Ken Watanabe). A inception deverá ser feita na mente de Robert Fischer (vivido por Cillian Murphy), e consiste em que ele decida desmembrar o império recém-herdado de seu pai. Mas plantar uma idéia em alguém não é nada simples… é necessário uma ação tripla, um sonho dentro de um sonho dentro de um sonho! Para que isso seja possível, a pessoa precisa estar fortemente sedada, para que essas camadas oníricas não desmoronem. O tempo dentro dos sonhos não se passa como na vida real… meros cinco minutos reais equivalem a uma hora dentro de um sonho, e essas diferenças de tempo são multiplicadas quando em sonhos dentro de sonhos, sucessivamente. Dentro de um sonho, pode-se sentir dor, mas se morrer nele, a pessoa simplesmente acordará. Só que, se ela estiver sedada, só acordará quando o efeito da droga passar… e nesse período, sua mente estará presa numa espécie de limbo. Se o sono sedado durar horas, sua mente terá passado décadas presa num mundo inexistente, o que pode simplesmente “fritar” o cérebro de qualquer um.
Como não poderia realizar a empreitada sozinho, Cobb monta uma equipe para tentar cumprir a missão. Joseph Gordon-Levitt vive Arthur, braço-direito de Cobb, e dono de algumas das melhores cenas do longa, com destaque para a colossal cena do embate no corredor sem gravidade… absolutamente fantástica! O grupo precisa também de um “arquiteto”, responsável pelo designdo sonho, que será povoado pelo subconsciente do sonhador. O trabalho fica com Ariadne (vivida por Ellen Page), jovem arquiteta que antes de entrar em sua primeira missão, é treinada porCobb, em outra das passagens de se cair o queixo, presentes no longa. Eames (vivido por Tom Hardy) é o falsificador do grupo, capaz de assumir outras identidades nos sonhos. E para finalizar, temos Yusuf (personagem de Dileep Rao), o químico responsável pelos compostos que irão sedar a todos e possibilitar estabilidade para as várias camadas de sonhos. Juntamente com Saito, eles irão invadir o subconsciente de Fisher, para tentar a inserção da idéia. Surpreendente é a personagem vivida pela oscarizada Marion Cotillard, que interpreta Mal, a antagonista da história. Mesmo já morta, a antiga esposa de Cobb ainda assombra o seu subconsciente, sempre tentando sabotar suas missões oníricas.
Prepare-se para incríveis cenas de ação, inimagináveis cenas surreais, tudo temperado por um elenco de primeiríssima linha A Direção é soberba, Nolan se mostra cada vez mais um mestre na narração cinematográfica. Os Efeitos Visuais, dignos de Oscar. Os Efeitos Sonoros beiram o absurdo, de tão perfeitos, a Direção de Arte, com o perdão da redundância, é pura… arte! A Trilha Sonora, de Hans Zimmer, (que já havia trabalhado com Nolan nos dois filmes do Homem-Morcego) é primorosa, e a Fotografia, de Wally Pfeister, é sublime.
Prepare-se para ficar com a música “Je Ne Regrette Rien”, de Édith Piaf, na cabeça… ela toca toda vez que o tempo está se esgotando e os extratores precisam acordar.
Voltando a falar do elenco, ele não fica nada a dever à qualidade da produção. Além do ótimo DiCaprio, temos atuações marcantes de um excelente Joseph Gordon-Levitt, de uma singela e talentosa Ellen Page, de uma impactante Marion Cotillard. Mesmo Michael Caine, num papel infelizmente pouco desenvolvido, deixa sua marca. Cillian Murphy não brilha, mas também não compromete em nenhum momento.
Ken Watanabe está perfeito em seu papel e Tom Hardy faz o típico canalha com quem simpatizamos logo de cara. Em suma, o elenco todo brilha de uma forma homogênia, reforçando ainda mais a qualidade muito acima da média da película.
Como já ocorreu em “O Cavaleiro das Trevas”, Nolan novamente usa o mínimo necessário de cenas em CGI, detalhe que acaba dando um ar muito mais realista aos seus filmes, mesmo que tratem de um vigilante vestido de morcego, ou de um filme que se passa a maior parte dentro de “realidades… irreais”.
Tecnicamente, temos um longa perfeito, simples assim.
Algumas curiosidades devem ser citadas, como o fato de Nolan ter resistido à pressão da Warner para que o filme fosse em 3D, por achar que isso iria distrair a experiência de se contar a história.
Marion Cotillard e Ellen Page, há dois anos, disputaram o Oscar de Melhor Atriz, e Marion levou a estatueta para casa, por “Piaf – um hino ao amor”. O nome do personagem Yusuf não foi escolhido ao acaso… esse é o nome de um profeta no Corão (ou Alcorão, como queiram), que recebeu de Deus a capacidade de interpretar sonhos.
E não pense que temos aqui apenas uma história de ação e ficção científica… temos também uma angustiante história de amor.
Como se tudo o que falei já não fosse o bastante, o final de “A Origem” é genial, inspiradíssimo, e vai te fazer quebrar a cabeça pensando no filme por muito tempo… e provavelmente correr para vê-lo novamente, em busca de um detalhe que lhe dê uma resposta, ou simplesmente pelo prazer de rever a melhor produção do ano.
Sim, “A Origem é o melhor filme do ano. É arrasador, espetacular, intrigante, criativo. Um clássico instantâneo. Não é recomendado, é obrigatório!
A pião gira… ele irá parar? Non, Je Ne Regrette Rien…
Em cartaz no Cinesystem, no Vale Sul Shopping:
Sala 3: 15h00, 19h00, 22h10 (Legendado)
Horários válidos até 26/08/10
DALTO FIDENCIO
nils satis nisi optimum
http://twitter.com/DaltoFidencio







raph em 25/08/2010 às 18:35 disse: Realmente um filme sensacional, mas é preciso ir disposto a prestar atenção desde o início, senão vai sair mais perdido que cego sonhando em tiroteio
Abs
raph
Dalto em 26/08/2010 às 20:44 disse: Vero, Raph… esta é uma característica dos filmes de Nolan, que está cada vez mais presente.
Amanda em 27/08/2010 às 22:06 disse: Não sei o que gostei mais, se do filme ou da crítica,
Parabéns, poeta!
Dalto em 10/09/2010 às 19:27 disse: Este poeta agradece, Amanda!
Luis Tobal em 14/09/2010 às 17:30 disse: Meu amigo, como sempre perfeito em suas colocaçãoes. Só posso dizer que desde Advogado do diabo, ñ saía tão surpreendido de uma sala de cinema. Cinema de gente grande,Nolan p mim, já figura numa lista de craques, como Scorsese, Coppolla e EastWood,com uma vantagem, ele é jovem e teoricamente terá mais tempo p criar outras obras-primas. Nolan terá que comprar uma estante nova em sua casa, p colocar todos troféus.
Dalto em 15/09/2010 às 11:15 disse: Concordo, Tobal!
Juan C. Rodriguez em 22/09/2010 às 22:21 disse: Parabéns pela críticas de cinema Dalto, é difícil encontrar críticas coerentes com o conteúdo que nos é apresentado nas grande telas. Há de se ter uma mente aberta à realidade das gerações que vivemos durante os anos, e não somente ficarmos olhando para um ponto fixo da história cinematográfica como muitos dinossauros do ramo o fazem. Bem que uma certa crítica ”conceituada” poderia aprender algo ao ler sua coluna.
Non, Je Ne Regrette Rien…
Dalto em 23/09/2010 às 21:15 disse: Grato pelo comentário, Juan!