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DEIXE-ME ENTRAR (Let Me In)

DEIXE-ME ENTRAR (Let Me In)
De Matt Reeves, 115 min

Let Me In
Suspense / Drama
Direção: Matt Reeves
Roteiro: Matt Reeves, John Ajvide Lindqvist
Elenco: Kodi Smit-McPhee, Chloe Moretz, Richard Jenkins, Elias Koteas, Cara Buono

Desde feto que sou admirador do universo vampírico… fã incondicional das crônicas vampirescas de Anne Rice, do RPG Vampiro A Máscara, do Nosferatu de F.W. Murnau e do Bram Stoker’s Dracula de Coppola (que ouso dizer, é superior ao livro), das atuações históricas de Bella Lugosi e Christopher Lee… então como expressar meu desgosto ao ver  esse universo magnífico ser profanado e destruído por uma série de insípidos livros com a profundidade de um pires, que depois viraram filmes com a mesma “qualidade”? Me recuso até a dizer o nome… pode dar azar.

Mas nem tudo está perdido… ainda existem escritores que realmente sabem o que é um vampiro de verdade (nosso André Vianco é um bom exemplo local), e um deles é o sueco John Ajvide Lindqvist. Ele lançou em 2004 o livro Låt Den Rätte Komma In (Deixe Ela Entrar), que obteve grande sucesso e acabou adaptado para o Cinema quatro anos depois pelo também sueco Tomas Alfredson, com roteiro escrito pelo próprio Lindqvist. Resultado: uma produção belíssima, uma fábula de amor e terror de uma densidade ímpar, de uma inspiração puramente artística. Virou cult de forma instantânea.

 Claro que Hollywood não tardaria a lançar seus tentáculos sobre a película sueca, e faria sua versão, assim como ocorreu com os ótimos filmes de terror Ringu (japonês) e [REC] (espanhol). E cá estamos diante de “Let Me In”, “Deixe-me Entrar”… tentarei não ficar comparando muito os dois filmes, pois esta é uma tendência comum aos críticos: compararem original com remake com exagero, ao invés de analizar a versão nova de forma individual, como deveria ser. Bem, eu tentarei comparar as obras apenas o necessário… espero conseguir.

Esta é uma densa história do amor puro entre duas crianças: Owen e Abby (no original sueco, os nomes eram Oskar e Eli). Owen (vivido por Kodi Smit-McPhee, do ainda mais denso “A Estrada”) é um menino de 12 anos, solitário, sofre com a falta de atenção em casa, e mais ainda com os maus tratos dos valentões de sua escola, num clássico exemplo de bullying. Sem amigos, a única distração de Owen é observar os vizinhos, e é assim que ele fica conhecendo sua nova vizinha, uma menina que aparenta compartilhar a mesma idade e solidão que ele.
Abby (vivida por Chloë Grace Moretz, do divertido “Kick Ass”) é uma menina silenciosa, que – como ela contará a Owen mais adiante – tem “12 anos há muito tempo”. Só sai de seu apartamento à noite, e simplesmente parece ser imune ao frio. Abby mora com um senhor soturno, que aparentemente é seu pai (vivido por Richard Jenkins).

A solidão de ambos faz com que aconteça uma aproximação, que os afetará para sempre. No original, Alfredson trabalha mais com o sutil, ele sugere, nos faz trabalhar com as sensações. Já Reeves é explícito, bem ao gosto atual de Hollywood. Detalhes de mutilações ou mesmo alguns que podem passar despercebidos, com um simples olhar de terror em direção à câmera, fazem parte da experiência. A frieza perturbadora do original é trocada por um terror de maquiagem pesada mais ao gosto do cinema comercial, mas mesmo assim a linha narrativa traçada por Alfredson é respeitada por Reeves.
O diretor, que tem no currículo o esquecível “Cloverfield – Monstro”, entrega um bom trabalho… criativo, ele alterna estilos, como as tomadas externas inspiradas, os reflexos estratégicos, a câmera às vezes desfocada, e a Fotografia crua, em tons alaranjados, que casa perfeitamente com a narrativa. Reeves realmente mostra ter evoluído.

Já sobre as atuações, os protagonistas infantes não fazem feio. Kodi Smit-McPhee, que já havia mostrado um trabalho de gente grande em “A Estrada”, entrega uma atuação muito convincente, como o tímido e depressivo Owen. Sua solidão é retratada pelo cineasta de forma muito inteligente, ao não se mostrar o rosto da mãe e ao se reduzir o pai à uma simples voz ao telefone.
Chloë Moretz, que já havia chamado a atenção em “Kick-Ass: Quebrando Tudo”, mostra aqui que realmente é do ramo, mostrando uma maturidade na atuação que dificilmente se vê em crianças de sua idade. A naturalidade com que ela abraçou este papel impressiona. Atuação impecável.
Elias Koteas, que vive o policial que luta para desvendar os acontecimentos estranhos que infectam sua antes pacata cidade, entrega um bom trabalho, mas o destaque adulto da película é mesmo Richard Jenkins, o guardião da jovem vampira. Ele faz um homem misterioso, forçado a participar da existência sobrenatural e violenta de Abby, e o faz com extrema competência.

“Deixe-me Entrar” é violento, mas ao mesmo tempo sensível, poético. Tecnicamente é muito bem construído, com uma história profunda, absolutamente adulta, apesar de ser protagonizada por crianças. Não é uma obra-prima como o original, mas é um verdadeiro presente aos admiradores
da verdadeira mitologia vampírica.

 DALTO FIDENCIO
nils satis nisi optimum

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Filed in: Cinema, Dalto Fidencio

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