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EDGAR ALAN POE

Poesia
(10/01/2010)

19/1/1809, Boston, EUA

7/10/1849, Baltimore, EUA.

Há 200 anos, dia 19 de janeiro de 1809 nascia Edgar Allan Poe, na Rua Hollis, 33, em Boston. O pai Davi Poe e sua mãe Elizabeth Arnold Poe eram atores. Sua mãe era descrita como “Franzina com grandes olhos misteriosos e longos cabelos de um negro azeviche, mignon, membros frágeis e uma fisionomia altiva”.

Seu pai, um alcoólotra, morreu alguns meses depois do seu nascimento. Sua estrela de poeta brilhou nesse mundo, desde o dia em que nasceu, pois trouxe ao mundo seus escritos incomparáveis, mas as tragédias que o envolveram desde a tenra idade contribuíram para os horrores que descreveu de forma peculiar e genial, em seus livros. Edgar tinha ainda mais dois irmãos: William Henry e Rosálie.
Elizabeth Arnold Poe com a saúde debilitada e na mais absoluta miséria não resistiu e morreu em Richmond (E.U.A.) em dezembro de 1811 com apenas 24 anos de idade. Antes de morrer, a imprensa anunciou um recital em benefício da atriz, pois ela e os filhos se encontravam em estado lastimável, passando fome e as crianças nuas e sujas viviam da caridade. Para Edgar esse foi o primeiro passo para a sua intimidade com a morte e seus infortúnios não pararam por aí. O teatro onde sua mãe representava e onde as crianças ficavam sob o cuidado dos artistas, foi destruído por um incêndio, onde muitas pessoas perderam a vida. Depois disso, as crianças ficaram à mercê do cuidado de outras pessoas.
Ele foi entregue à família de John Allan, membro da firma Ellis e Allan, que comercializava tabaco. O casal era abastado e não tinha filhos e por isso cobriam Poe de mimos, fazendo todas as suas vontades. Sua existência sem alegria foi agraciada com a proteção dessa família.
Essa família por circunstâncias econômicas teve que ir para a Inglaterra e Edgar, por esses tempos teve contato com medievais castelos misteriosos, casas antigas, lugares estranhos, úmidos, o que aguçou a sua imaginação e o gosto pelo sobrenatural e macabro. Estudou em colégios clássicos e durante esse tempo teve algumas noções de Frances, latim, história e literatura. Mas depois de certo tempo seu pai adotivo retorna a Richmond e ele continua a estudar. Por essa época apaixonou-se pela mãe de um de seus colegas, uma mulher, que morreu tuberculosa e louca. Esse foi o começo de uma vida amorosa tumultuada, platônica e desordenada que desenrolou por toda a vida desse genial poeta. Em 1826 ele se matriculou na faculdade de Línguas Mortas e Vivas na Universidade fundada por Thomas Jefferson. Mas como em todos os outros lugares que freqüentou, afundou-se em dívidas e gastou todo o dinheiro que seu pai adotivo lhe dava, com jogos, álcool, mulheres, vícios. Ficava sem nada, nesse afã de impressionar e brilhar.
Com tudo isso, ele acabou abandonando a mansão dos Allan e foi em busca da sua independência e acaba por alistar-se no exército, mas não se adapta. Depois vai pra Baltimore e se instala na casa de sua tia Maria Clemm que sempre o protegerá em todos os seus infortúnios. Esse será um dos poucos períodos felizes da sua vida, porque reencontra seu irmão Henry e brinca com sua priminha Virgínia com quem acaba se casando, anos mais tarde. Um estranho casamento que permaneceu um bom tempo em segredo, pois Edgar tinha 27 anos e Virgínia 14 anos. Edgar casado e com uma família. Mas sua vida parecia despencar no álcool e nas drogas. Suas crises de depressão eram intensas e influenciavam sua vida, não permitindo nenhum trabalho fixo.
Em 1938 a família Poe vai pra New York e publica sua novela “As aventuras de Arthur Gordon Pyn”, mas não consegue nenhum emprego e é a tia quem os sustenta. Depois, mudou-se para Filadélfia e colabora com uma revista por pouco tempo. Então aí começa o seu período mais nefasto: sem trabalho, Virgínia doente e passando necessidade volta pra New York e no dia 19 de janeiro de 1845 publica o seu poema “O Corvo”. Então consolida seu nome no meio literário.
Em 30 de janeiro de 1847 ele perde Virgínia. Em sua memória Poe escreve o angustiante “Ulalume”. Depois da morte dela, ele ficou ainda mais perdido que antes e acaba entregando-se a exageros, cometendo muitos desatinos, envolvendo-se em paixões artificiais e impetuosas, tirando sua credibilidade junto às mulheres.
Sua vida atormentada acaba como devia acabar: no leito de um hospital. Nunca foram apuradas as causas precisas de sua morte e tudo leva a crer que tenha sido por embriaguez, apesar de existirem muitas teorias, ao longo dos anos, a respeito disso. Porém o mistério continua.
Pessoalmente, Poe foi um homem tímido, quieto, porém bonito. Era magro, de altura mediana. Dizia-se que tinha uma boca bonita.
Além do mistério, continua a admiração e a reverência por esse gênio da literatura.

 

The Raven (O Corvo)

 

The Raven (O Corvo) de Edgar Allan Poe é um dos poemas mais famosos da Literatura Mundial. Esse é o poema que deu fama a Poe na época em que publicou. Depois de sua morte, seu poema ficou conhecido internacionalmente e foi traduzido por muitos tradutores.
Charles Baudelaire traduziu o poema para o Frances e Gustave Doré, ilustrador, famoso pelas gravuras que fez para a Bíblia, Divina Comédia e Dom Quixote, inspirou-se nessa tradução e criou as ilustrações para O Corvo, que foram publicadas em 1883.
Machado de Assis também fez a tradução do poema para o português.
O poema abaixo é uma tradução de Fernando Pessoa feita em 1924.

O CORVO
Edgar Allan Poe

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,

Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,

E já quase adormecia, ouvi o que parecia

O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.

“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.

É só isto, e nada mais.”
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro

E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.

Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada

P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -

Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,

Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo

Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!

Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo:

“É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;

Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.

É só isto, e nada mais.”
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,

“Senhor”, eu disse, “ou senhora, de certo me desculpais;

Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo

Tão levemente, batendo, batendo por meus umbrais,

Que mal ouvi…” E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.

Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,

Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.

Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,

E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -

Eu o disse, o nome dela, e o eco disse os meus ais,

Isto só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,

Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.

“Por certo”, disse eu, “aquela bulha é na minha janela.

Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.

Meu coração se distraia pesquisando estes sinais.

É o vento, e nada mais.”

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,

Entrou grave e nobre um Corvo dos bons tempos ancestrais.

Não fez nenhum cumprimento, não parou nenhum momento,

Mas com ar sereno e lento pousou sobre os meus umbrais,

Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.

Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura

Com o solene decoro de seus ares rituais.

“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,

Ó velho Corvo emigrado lá das trevas infernais!

Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.”

Disse o Corvo, “Nunca mais”.
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,

Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.

Mas deve ser concedido que ninguém terá havido

Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,

Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,

Com o nome “Nunca mais”.
Mas o Corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,

Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.

Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento,

Perdido murmurei lento. “Amigos, sonhos – mortais

Todos – todos já se foram. Amanhã também te vais.”

Disse o Corvo, “Nunca mais.
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,

“Por certo”, disse eu, “são estas suas vozes usuais.

Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono

Seguiram até que o entorno da alma se quebrou em ais,

E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais

Era este “Nunca mais”.
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,

Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;

E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira

Que qu’ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,

Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,

Com aquele “Nunca mais”.

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo

À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,

Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando

No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,

Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,

Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso

Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.

“Maldito”, a mim disse, “deu-te Deus, por anjos concedeu-te

O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,

O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!”

Disse o Corvo, “nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta! -

Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,

A este luto e este degredo, e esta noite e este segredo

A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais

Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!”

Disse o Corvo, “Nunca mais”.
“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta! -

Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,

Dize a esta alma entristecida, se no Éden de outra vida,

Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,

Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!”

Disse o Corvo, “Nunca mais”.
“Que esse grito nos aparte, ave ou diabo”, eu disse. “Parte!

Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!

Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!

Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!

Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!”

Disse o Corvo, “Nunca mais”.
“E o Corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda,

No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.

Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha,

E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais.

E a minh’alma dessa sombra que no chão há de mais e mais,

Libertar-se-á… nunca mais!”

Annabel Lee
Foi há muitos e muitos anos já,

Num reino de ao pé do mar.

Como sabeis todos, vivia lá

Aquela que eu soube amar;

E vivia sem outro pensamento

Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,

Neste reino ao pé do mar;

Mas o nosso amor era mais que amor -

O meu e o dela a amar;

Um amor que os anjos do céu vieram

a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,

Neste reino ao pé do mar,

Um vento saiu duma nuvem, gelando

A linda que eu soube amar;

E o seu parente fidalgo veio

De longe a me a tirar,

Para a fechar num sepulcro

Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,

Ainda a nos invejar…

Sim, foi essa a razão (como sabem todos,

Neste reino ao pé do mar)

Que o vento saiu da nuvem de noite

Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor

De muitos mais velhos a amar,

De muitos de mais meditar,

E nem os anjos do céu lá em cima,

Nem demônios debaixo do mar

Poderão separar a minha alma da alma

Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos

Da linda que eu soube amar;

E as estrelas nos ares só me lembram olhares

Da linda que eu soube amar;

E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado

Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,

No sepulcro ao pé do mar,

Ao pé do murmúrio do mar.

Allan Poe

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