31/01/2010
Seja o nosso país triunfante, livre terra de livres irmãos!
Trecho do Hino da Proclamação da República, reproduzido na peça teatral “Liberdade, Liberdade!”, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel.
Creio ter uma boa história para esse final de outubro de 2009, quando estará acontecendo em São José dos Campos a 43ª “Semana Cassiano Ricardo”, prometendo ser muito animada, e uma, homessa, “Conferência Municipal de Cultura”. Sempre procurei fazer da palavra a minha arma de combate e como considero as causas da preservação da memória histórica e da valorização da cultura formidáveis, animei-me ainda mais para escrever.
Nossa história não poderia ter melhor berço. Ela me foi contada pelo joseense Cláudio Vieira numa noite de quinta feira de boa música no Rapsódias Bar, em Santana, e enriquecida pelo André Freire numa sexta, também de boa música, no bar da Savema, Sociedade Amigos da Vila Ema. Antigos joseenses devem conhecê-la bem melhor que eu, mas como não sei de ninguém que a tenha contado dessa forma, ouso fazê-lo, pelos motivos já arrolados.
Contou-me o Cláudio Vieira, hoje pequeno empresário na cidade, que em 1.967 ele estava matriculado no Colégio João Cursino, então sediado na Praça Afonso Pena, onde estudava pouco e fazia muita agitação cultural e política. André Freire testemunha os dois fatos, mas prefere dar ênfase no engajamento e na capacidade de trabalho do amigo, então com 17 anos, que tinha o perfil daqueles que gostam de por a mão na massa para fazê-la crescer!
Com a ditadura militar cada vez avançando mais em suas convicções e práticas autoritárias, o “Grupo de Teatro Motivo”, formado por alunos do Curso Clássico do João Cursino e da Faculdade de Letras da antiga Fundação Valeparaibana de Ensino, resolveu montar a peça teatral “Liberdade, Liberdade!”, de autoria dos grandes Millôr Fernandes e Flávio Rangel e, para tanto, em nome da UJES, União Joseese dos estudantes Secundaristas, o Cláudio foi até São Paulo, na SBAT, Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, atrás de obter junto aos detentores dos direitos autorais a devida liberação. Lá chegando, o jovem dirigente estudantil foi orientado a procurar pelo ator Paulo Autran, com quem se encontrou por acaso na rua, quando estava se dirigindo para a sua residência, localizada na Avenida Nove de Julho, tendo o mesmo esclarecido que, pelo fato do Millôr Fernandes se encontrar fora do país, somente o Flávio Rangel poderia expedir o documento pretendido. Onde encontrá-lo? Ele costumava dar ponto nos finais das noitadas de teatro no Bar do Pepe, localizado na Galeria Metrópole.
Encontradas a galeria e o bar, sem grana, Claúdio ficou na espreita, preparado para manter mais um encontro com um monstro sagrado da nossa dramaturgia, o segundo num único dia. Lá pelas tantas, Flávio apareceu para cumprir o seu ritual de fim de noite e ao ser abordado reagiu com a maior naturalidade do mundo, lançando mão de um guardanapo de papel, onde deu o despacho autorizando a montagem do espetáculo em São José dos Campos. De posse do documento, nosso porta-voz foi dormir num banco de praça (sic) e no dia seguinte, depois do pingado e do pão com manteiga na padaria da esquina, tomou o ônibus na rodoviária e voltou para casa.
A missão, porém, ainda não estava concluída. Obtida a liberação, Claúdio foi encarregado de ir até a Delegacia de São José, para dar ciência às autoridades policiais da iniciativa tomada pelo valoroso grupo de artistas amadores da sua cidade, tendo ouvido mais ou menos o seguinte do Senhor Delegado: – “O que? Você nunca esteve aqui, nunca me viu, eu não te conheço e não estou sabendo de nenhuma representação teatral na cidade! Estamos entendidos? Se os homens lá de cima aparecerem na hora do espetáculo e levar todo mundo preso, eu não quero nem saber!”. Ouvindo essa parte da história, fiquei imaginando que Flávio Rangel sabia muito bem o que estava fazendo, quando deu o despacho no guardanapo; na verdade, eram outros os “donos” dos direitos referentes à produção artística e intelectual, no regime ditatorial. Outra coisa que me veio à cabeça foi prestar uma homenagem pessoal ao Cláudio, quando lhe repassei, com dedicatória e tudo, uma cópia do “long-play” do “Liberdade, Liberdade!”, que havia ganho há anos de um amigo já falecido.
Segundo André, a peça foi realmente apresentada pelo Grupo Motivo, no João Cursino e até no Teatro Benedito Alves da Silva – aquele que há não sei quantos anos vem sendo prometido de ser restaurado –, sempre com pouco público e muita polêmica, principalmente nos meios culturais e políticos de esquerda da cidade, que naquela época contava com menos de 100 mil habitantes.
André Freire faz ainda questão de lembrar que, apesar da ditadura, aqueles foram tempos de muita agitação cultural na cidade, exemplificando que os festivais de música promovidos pelo Movimento Estudantil Secundarista (Fescap – Festival Secundarista da Canção Popular) chegavam a rivalizar, no bom sentido, com os oficias da cidade. Não foi por acaso que também em 1.967 o sempre lembrado Prefeito Veloso, instado por um grupo de estudantes, artistas e intelectuais, que gravitavam principalmente em torno do Colégio João Cursino e do curso de Letras na FVE, promoveu a primeira Semana Cassiano Ricardo e em 1.968 criou junto à prefeitura uma “Comissão Municipal de Cultura”, sob a liderança do professor Luiz Gonzaga Pinheiro; comissão essa que para ele, André, se constituiu no embrião mais democrático da Fundação Cassiano Ricardo, que chegou a ser recuperado quando o próprio André Freire presidiu a instituição e depois foi novamente engessada, sob a liderança de forças oriundas na ditadura.
Moacyr Pinto da Silva
Professor e Sociólogo aposentado, autor dos livros “Conto de Vista” (contos e crônicas – 2007), do romance “Tecendo o amanhã” e da biografia “Hiena – minha revolta não se vende”, ainda inéditos.






