Apresentação…
Como um “pinçar” na vida, Alcemir pinçou a vida de Ernesto Villela. O interesse foi o calango, mas veio à tona muito mais.
Mostrou a cultura do homem que vive nesta região. Disse como a vida traça linhas que definem este homem tão bem. Prepara “armadilhas”, situações que reforçam, fixam suas características culturais, seu jeito de ser, de pensar, e de agir.
Este livro mostra Ernesto Villela que de uma forma simples e harmoniosa diz como e porque é assim. Falando com orgulho de seu pai, Antenor, e suas avós Rosa e Sinhana e outros entes queridos, ele fala também de sua herança cultural e de que forma estes saberes chegaram até ele: – a vivência na escola da vida. E entre a lembrança de um e de outro, vai surgindo um valioso acervo de leis, sabedorias e convicções que regem o homem que vive nesta região. Sem interferir e sem colocar ordem nos pensamentos do senhor Ernesto, Alcemir deixou fluir livremente as suas palavras no seu depoimento mostrando este jeito de contar as coisas tão natural e próprio do homem caipira. Mas ficou claro o “dom” herdado da Vó Sinhana: o versejar e cantar. A vida de tropeiro estimulou o dom. Nos pousos foi praticada a arte. Nas paradas, no negociar, surgiram os “causos” legítimos que são sua própria história contada.
Neste relato, a ética e a moral do homem caipira são testemunhas assim como a fé inabalável é determinante desta mesma ética e moral.
Situações e personagens embalados ao som do calango vão aparecendo e são colocados para o leitor, provocando no final, uma sensação de “quero mais”. E como se não bastasse, vem muita informação sobre o calango para estudiosos da cultura popular e os amantes do folclore, induzindo uma indagação: poderia o calango acontecer em outro contexto? Ter uma função semelhante aquele versejar dos menestréis da Idade Média e também ser um instrumento de comunicação u’a maneira de narrar fatos, dar recados, reformar as leis naturais do “certo” e “errado” de um modo bem brasileiro? Um versejar cantando com regras em que tudo pode ser dito com graça e de maneira poética?
A obra de Alcemir não pode ser considerada finita. Não é como um romance, um conto, com um começo meio e fim. Instiga emoções, reflexões e expectativas. É parte de um todo a ser estudado e tem o grande valor de ensejar visões, interesses e trabalhos cuidadosos na área do folclore.
Angela Savastano






