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NOSSO LAR

NOSSO LAR
De Wagner de Assis, 115 min

Nosso Lar
Drama
Direção: Wagner de Assis
Roteiro: Wagner de Assis
Elenco: Renato Prieto, Fernando Alves Pinto, Rosanne Mulholland, Inez Viana, Rodrigo dos Santos, Werner Schünemann, Clemente Viscaíno, Othon Bastos, Ana Rosa, Paulo Goulart

Escrever a crítica sobre uma produção cinematográfica que trata de uma doutrina religiosa é uma tarefa espinhosa… pode-se dizer que seja um campo minado, mesmo. Digo isso pois, por mais que se esteja analizando única e exclusivamente o filme em si, sempre haverá alguém a acusar o crítico de ser preconceituoso, de estar apontando defeitos por não ser um fiel daquela doutrina, e assim por diante. Bem, então vamos deixar algo bem claro aqui, antes de prosseguirmos: estas linhas se referem exclusivamente à análise de “Nosso Lar” como uma obra da Sétima Arte, e a crença a que ela se apega para mim é irrelevante. Minha “religião”, aliás, minhas “religiões”, chamam-se Poesia e Cinema. Ponto.

 O filme é baseado no bestseller homônimo de 1944, escrito pelo médium Chico Xavier. Na doutrina espírita, acredita-se que o livro tenha sido psicografado, ou seja, ditado para o médium por um espírito desencarnado, no caso, o de André Luiz, protagonista do mesmo.

 Vamos à trama: André Luiz (vivido por Renato Prieto) é um médico que tem uma vida de excessos, até que uma doença o leva à morte. Ele então desperta numa espécie de Purgatório, o Umbral.
Lugar soturno, desolado, digno da imaginação de Edgar Allan Poe, povoado por almas em sofrimento.
Arrependido, ele acaba sendo salvo de lá por almas iluminadas que o levam para uma espécie de colônia espiritual chamada Nosso Lar, onde ele irá aprender sobre o real significado da vida humana, enquanto busca se adaptar a esta nova existência. André Luiz também passa a buscar uma forma de comunicar com sua família, em nosso plano físico. Nosso Lar lembra uma cidade terrena, mas é muito mais avançada tecnologicamente que o mundo que André Luiz deixou em vida (a história se passa na década de 30, pouco antes da II Grande Guerra). A arquitetura também é futurista, e me lembrou muito os trabalhos de Oscar Niemeyer. Ela foi desenvolvida pela Intelligent Creatures, empresa canadense acostumada a trabalhar com Hollywood (Anjos da Noite, Watchmen).
Com orçamento de superprodução (ao menos para os padrões tupiniquins), “Nosso Lar” custou 20 milhões de reais, e já é um sucesso de bilheteria, já tendo levado 3 milhões de pessoas às salas de cinema.
O cineasta Wagner de Assis escreve e dirige a película, e não brilha em nenhuma das duas atividades, principalmente no roteiro, que deixa muito a desejar. Vale lembrar que Assis é  corroteirista do abominável “Xuxa e os Duendes”…
O problema encontra-se no fato do texto ser excessivamente didático. Sim, isto já contecia no livro de Chico Xavier, mas Literatura e Cinema são artes distintas, e o que funciona em uma pode sabotar completamente a outra. Tudo é explicado em excesso com uma insistente narração em off feita pelo próprio personagem, quando, em se tratando de Cinema, quem deve contar a história são as imagens, caso contrário, é preferível se ater ao livro original.

 A Direção burocrática de Wagner também ajuda para que as situações não convençam o espectador, que ainda tem que contar com o praticamente inexistente desenvolvimento dos personagens. O filme certamente irá tocar quem for seguidor da doutrina, mas uma pessoa que for assistí-lo unicamente pelo lado Cinema, poderá achá-lo entediante, artificial.
Sua maior qualidade encontra-se mesmo na parte técnica. Vemos que o orçamento foi bem gasto, pois a película é repleta de efeitos visuais. Podem não ser uma perfeição, pois algumas vezes notamos claramente que se trata de computação gráfica, mas, sem dúvida alguma, é um considerável avanço para o Cinema nacional.

 A Fotografia e a Trilha Sonora ficaram a cargo de habitués de Hollywood. O Diretor de Fotografia foi o suiço Ueli Steiger, que entregou um trabalho satisfatório, que não compromete. Já a linda Trilha Sonora, é um destaque. Quem a assina é o talentoso Philip Glass, que nos apresentou um belo trabalho, com uma Trilha emocionante e encantadora.

 Nas atuações, não se pode criticar Renato Prieto, notadamente esforçando-se para  prestar um belo trabalho, mas o destaque fica mesmo para Rosanne Mulholland, que vive Eloísa, dona da personagem mais interessante da trama. Os demais, mesmo grandes nomes como Paulo Goulart (vive o Ministro Genésio) e Othon Bastos (vive o Governador), encontram-se presos dentro de personagens com diálogos vazios, que não fluem. Já Fernando Alves Pinto (que vive Lísias – um amigo de André Luiz  em Nosso Lar) não me pareceu muito à vontade em seu papel.

 O Figurino é a mesmice de todo filme – ou novela – nacional (ou internacional)… todos vestidos de branco radiante (com exceção de Eloísa). Sinceramente, este cliché já está muito batido.
Excessivamente voltado ao público seguidor da doutrina de Chico Xavier, “Nosso Lar” falha na tentativa de atingir um público mais amplo. O tom de sermão com que foi feito pode incomodar alguns espectadores que tenham ido vê-lo apenas com interesse cinematográfico.

 É inegável que esta produção prova que o Cinema nacional pode (e deve) se aventurar por caminhos diferentes dos que quase sempre são seguidos por aqui, como o das comédias românticas ou da violência urbana. Mas é uma pena que deixe a desejar como Cinema, apesar da bela mensagem de paz que transmite.

Em cartaz no Cinesystem, no Vale Sul Shopping:

Sala 6: 14h10, 16h40, 19h20, 21h55

Horários válidos até 14/10/10

DALTO FIDENCIO
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http://twitter.com/DaltoFidencio

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Filed in: Cinema, Dalto Fidencio

3 Responses to "NOSSO LAR"

  1. dalto disse:

    raph em 12/10/2010 às 16:09 disse: O filme realmente não está a altura do livro, que em todo caso é da década de 1940 e portanto já tem uma linguagem meio datada.

    Mas ao menos a mensagem é passada de uma maneira ou de outra, e a parte técnica/cenográfica está muito boa.

    Faltou um ritmo mais apropriado, e talvez um diretor mais interessado em transmitir uma história do que uma doutrina – como foi o caso no excelente Chico Xavier, lançado meses antes desse…

    Acho interessante a Federação Espírita Brasileira aprender com os erros (Bezerra de Menezes também foi um filme sem ritmo algum, mas era um orçamento irrisório) e aproveitar dos lucros para fazer filmes bons, e não apenas doutrinários. Afrouxando e adaptando um pouco a linguagem dos outros livros de Chico, isso é possível – só duvido muito que a FEB vá fazer.

    Abs
    raph

  2. dalto disse:

    Dalto em 16/10/2010 às 17:52 disse: Comentário enriquecedor, Raph!

  3. dalto disse:

    Dalto em 20/10/2010 às 11:44 disse: Há dois tipos de sabedoria: a inferior e a superior.

    A sabedoria inferior é dada pelo quanto uma pessoa sabe e a superior é dada pelo quanto ela tem consciência de que não sabe.
    Tenha a sabedoria superior.
    Seja um eterno aprendiz na escola da vida.

    CHICO XAVIER

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