Por Milton T. Mendonça
21/01/2010
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Ele estava feliz. Em paz. As mãos macias daquela garota sensual massageavam seu corpo. Sua respiração, um pouco acre, talvez pelo esforço de pressionar seu tórax, bafejava-lhe o rosto. Mas nada tinha importância naquele momento. A promessa de um relaxamento total o fazia sorrir por dentro.
Com os olhos fechados, ele apenas sentia as mãos deslizarem suavemente pelo seu braço o forçando mais próximo ao corpo. A pressão nas pernas o incomodava um pouco. Mexeu-as com dificuldade, imaginando a garota sentada sobre elas e isto o excitou ainda mais.
Sua cabeça rodou o deixando tonto por um breve momento. Tentou se lembrar o que tinha no copo desta vez, não conseguiu.
O médico não se cansava de pedir para ele parar de beber. Mas o que importava viver um pouco menos se o prazer compensava? Sempre respondia em tom de brincadeira.
Até tentou lhe explicar sua filosofia, mas não conseguiu. O que importava tudo isso: mulher, filhos, netos? Eles queriam mesmo era sua herança. Não ligavam para ele!
Lembrou a rua em que passou cambaleando; o carro já não usava mais. Sair para beber só se for a pé – ela dissera. Mulher mesquinha – resmungou para si mesmo. Deve ter um amante escondido por aí. Deve estar nesse momento em seus braços. Irritou-se por um instante, mas deixou pra lá.
Sentiu a menina tocar seu pescoço. Relaxou, esperando o momento de também tocá-la, massagear-lhe os seios, beijar sua boca. Sorriu.
Um forte puxão levantou sua cabeça, a mão da garota roçou sua nuca. Lembrou-se do escuro. A trilha estranha que se enveredara para cortar caminho. O viaduto antigo, depredado, pichado, no fim da trilha. Lembrou-se de ter se sentado para descansar. O corpo cansado não agüentava mais nenhum passo. A menina o encontrara bem a tempo e o levara de lá, antes que dormisse e seus filhos ficassem escandalizados por ter que ir buscá-lo mais uma vez. Meninos cruéis! Só queriam sua herança. A raiva encher seu peito comprimido pelo peso da criança que o massageava.
Algo tocou sua boca. Um beijo? Chegara a hora do prazer supremo? Tentou corresponder, mas sua língua ficou presa em uma superfície macia, pegajosa.
Estranho – pensou – forçando as pálpebras para que se abrissem. Uma luz suave entrou em sua retina, ao mesmo tempo em que uma sombra negra invadia seu campo de visão e ele viu: Uma imensa aranha o enrolava em sua teia. Um grito sufocou sua garganta.






