26/09/2011
Era uma vez um velho carpinteiro solitário que habitava uma humilde casa no campo.
De idade avançada, e tendo todos os seus direitos desrespeitados apesar de um estatuto que não conseguia ler, resolveu por fim à solidão. Teve a feliz ideia de construir um boneco de madeira para fazer-lhe companhia e para ajudá-lo a cuidar da casa.
Bem cedinho, o velho dirigiu-se para a floresta encantada e escolhendo entre as árvores, a mais antiga e bonita, levou dela consigo, enormes galhos.
Trabalhou sem folga o dia todo e ao terminar o serviço, admirou sua obra. Disse que o que tinha feito era tudo muito bom e desejou ardentemente que o boneco tivesse vida.
Dormiu aquela noite um sono de pedra, mas na manhã, teve o dia mais feliz e suave de todos os tempos, pois seu bonequinho pulava, cantava e falava pelos cotovelos.
Todavia, não demorou muito para que reinasse naquela casa uma grande confusão: o boneco era um mentiroso dos piores e um fazedor de promessas de marca maior.
Para começar o dia, a primeira coisa que o boneco prometeu foi apanhar lenha no bosque para abastecer o fogão. Cumpriu? Que nada!
Seu narizinho de madeira cresceu dez centímetros por causa da promessa não cumprida, embora o marotinho nem sequer se desse conta.
Prometeu ainda ao avô, varrer a casa, limpar o quintal, lavar as louças do almoço, ser bom boneco, trabalhar na carpintaria e tantas coisas mais. Cumpriu? Nem um só dos juramentos!
Seu narizinho virou um narigão de cinquenta centímetros e poderia ser usado como um cabide se assim o quisesse.
Foi desse modo que o boneco falante tornou-se popular nas redondezas, fato que o fez eleito para um importante cargo político na cidade.
Engana-se quem pensa pensa que depois disso as mentiras acabaram.
O número de promessas aumentou e entre elas estavam asfaltar ruas, cuidar dos doentes, construir escolas, criar mais empregos, promover uma reforma agrária na região, e blá, blá, blá, blá…
O pior de tudo, é que para cumprir essa lista enorme de promessas, o candidato eleito anunciou ser necessário aumentar o próprio salário.
Não cumpriu as promessas nem em sonho, mas seu salário dobrou, acrescido com a ajuda dos companheiros, que não eram de madeira, mas lavavam o rosto com óleo de peroba.
Quem olhasse agora para aquele boneco animado, criado pelas mãos habilidosas de um bom velhinho ao entalhar a matéria de uma árvore encantada, veria uma figura de pedra, irreconhecível, com um narigão que já passava de um metro de comprimento.
Espantou-se também o boneco político com a coisa em que se transformara, ao parar pela primeira vez diante do espelho. E foi inconformado por ter que se mirar de longe e não conseguir se encarar, que pediu ajuda.
Para a sorte do endurecido político, veio em seu socorro uma de suas eleitoras e, apresentando-se como fada madrinha, levou-o para conhecer as favelas, os hospitais, as escolas, os meninos de rua, os desempregados e as pessoas que sobreviviam com um salário cem vezes menor que o dele.
Inovidavelmente, o político de pedra, compadeceu-se de tudo o que viu, por isso disse à fada que estava pronto para mudar.
Começou dali em diante a cumprir tudo o que prometera. Mirou-se mais vezes no espelho, deixou de curvar-se ao dinheiro, testemunhou seu nariz diminuindo, sentiu pulsar o coração e percebeu calor em seu corpo.
O boneco virou gente.
© Carlos José dos Santos






