
Em setembro de 2004, estreava uma nova série, chamada LOST, série esta que chegou ao seu final em maio passado, entrando para o seleto grupo das séries icônicas da TV mundial, como foi Arquivo-X nos anos 90. LOST foi muito mais que uma série, foi um fenômeno da cultura pop.
É preciso avisar que este texto conterá spoilers, então caso ainda não tenhas assistido a última temporada, continue por sua conta e risco.
Foram 6 anos acompanhando as aventuras de um grupo de pessoas numa ilha sui-generis, pessoas que vieram parar lá dos mais diversos modos: sobreviventes de desastre aéreo, náufragos, remanecentes de um grupo científico…
LOST teve suas falhas, claro… mas elas pouco representam diante da magnitude que a série alcançou. O desastre do vôo Oceanic 815 originou uma história que passamos a acompanhar ansiosos a cada semana. E o capítulo não terminava ao final do episódio semanal, pois nesse hiato entre um episódio e outro, pululavam na internet acaloradas discussões sobre a mitologia da série, com fãs em busca de respostas para as inúmeras perguntas que surgiam.
E por falar em perguntas… o fato de algumas não terem sido respondidas ao final da série foi o que irritou inúmeros fãs, já que o episódio derradeiro, “The End”, deixou algumas questões em aberto. Mas em defesa de LOST, vale lembrar que os pais da criança, os produtores J.J. Abrams, Damon Lindelof, Carlton Cuse e Jeffrey Lieber, já haviam avisado desde o início da sexta e última temporada, que nem todas as perguntas seriam respondidas.
O forte da série, além dos mistérios, sempre foi também seus personagens, alguns de excepcional construção, como Locke, Jack, Sawyer, Hurley e Desmond. Uma pena que os papéis femininos nunca tiveram a mesma força, principalmente com a sem-carisma Kate. Mas Sun e Rousseau eram boas personagens também.
Na última temporada a série se “dividiu em duas”, com a aventura na ilha entrando em sua fase derradeira, mas também com o que nos parecia ser uma realidade paralela, em que o Oceanic 815 havia aterissado normalmente em Los Angeles, e cada personagem havia seguido com a vida normalmente. Chamada pelos criadores de flashsideways, esta realidade alternativa no final se revelou uma espécie de purgatório, um limbo em que todos já estavam mortos, criados por eles próprios para que pudessem se encontrar e, quando estivessem prontos e relembrassem a sua verdadeira vida passada, seguirem destino em direção à Luz, Nirvana, ou qualquer outro nome que se queira dar. Novelesco, mas interessante este final, mas claramente com detalhes forçados. Que Ben Linus ainda não pode “ascender” porque ainda não estava pronto, é compreensível, mas a ausência de outros personagens, como Mr. Eko, causou descrença. Por quê o africano ainda não estava pronto, ele que de assassino havia se convertido a ferrenho cristão? A resposta é simples: o ator que interpretava Eko, Adewale Akinnuoye-Agbaje, não entrou em acordo para retornar à série, então toma um “ainda não estava pronto ainda” nele…
Me causou estranheza também o fato de Sayid ter terminado com Shannon, apenas um caso amoroso corriqueiro na ilha, quando o personagem passou a série inteira dizendo que sua compatriota Nadia era o amor de sua vida.
Adorei o belo e significativo detalhe do vitral na igreja, na sala onde Jack conversa com seu pai… as mais conhecidas religiões encontravam-se representadas ali, lado a lado.
Deixando os flashsideways de lado e se atendo a realidade verdadeira, a da ilha, o desfecho foi bastante satisfatório. Tudo bem, muitas perguntas ficaram no ar, mas foi um epísódio mais do que marcante, apoteótico. Jack se sacrificando pelo que acreditava, pegando de vez para si o principal papel na saga, seus amigos conseguindo escapar da ilha, Hurley se tornando o novo Jacob, a morte do Lostzilla/Blacksmoke/Man in Black, pelas mãos (pés?) do doutor, com a preciosa ajuda de Kate… que atire a primeira pedra quem não se emocionou. Sim, ficaram as perguntas… o que afinal era a Luz que deu poderes ao Man in Black? Divina, sobrenatural, algo cientificamente explicável que ainda não chegamos ao nível de compreender? Quem construiu o “ralo” que Desmond abriu e Jack posteriormente voltou a fechar? Quem construiu a estátua? Qual a origem da mãe dos gêmeos? E os poderes de Walt? Por quê Desmond não morria (nem virava um monstro de fumaça) ao ser exposto a radiação eletromagnética e à Luz do coração da ilha? Por quê o Blacksmoke não conseguia atravessar locais protegidos por cinzas e como a Dharma descobriu que as cercas sônicas era impenetráveis para o vilão? E a explicação para os bad numbers? Não engoli a simples explicação que cada um dos números 4, 8, 15, 16, 23, 42 eram especiais só porque estavam relacionados com cada um dos candidatos a assumir o posto de Jacob. E a história que eles se referiam a uma equação matemática relacionada ao fim do mundo, citada nos primeiros anos da série? Claramente algumas idéias foram descartadas no decorrer de LOST.
Mas pensem bem… era mesmo preciso explicar tudo? Não é interessante às vezes deixar apenas insinuações para que cada pessoa chegue às suas próprias respostas, tendo assim uma LOST particular para si? A TV é sempre acusada de tornar as pessoas mais burras, e a série em questão terminou do jeito que começou, ou seja, nos fazendo pensar… e isto tem seus méritos.
E o final propriamente dito, absolutamente poético, com Jack na companhia de Vincent quando deu seu último suspiro, num clone da primeira cena da série, apenas com seu olho se fechando ao invés de abrir… foi sensacional.
Fã declarado que sou, sinto-me um órfão de LOST.
See you in another life, brotha!!!
DALTO FIDENCIO
e pluribus unum






