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PRECIOSA (Precious: Based on the Novel Push by Sapphire)

PRECIOSA (Precious: Based on the Novel Push by Sapphire)
De Lee Daniels, 110 min

Precious: Based on the Novel Push by Sapphire
Drama
Direção: Lee Daniels
Roteiro: Geoffrey Fletcher
Elenco: Gabourey Sidibe, Mo’Nique, Paula Patton, Mariah Carey, Sherri Shepherd, Lenny Kravitz

Temos que destacar a boa fase do cinema independente norte-americano… além de “Guerra ao Terror”, tivemos também esta singela e densa obra-prima, com que o até então quase desconhecido Lee Daniels nos presenteou.

 A trama é baseada no livro “Push”, de 1996, da escritora Sapphire – uma ex-professora do Harlem – e o roteiro é de Geoffrey Fletcher.

 Quem me conhece sabe o quanto eu abomino filmes dublados… mas me permitam por favor uma liberdade poética aqui, e chamarei a protagonista de “Preciosa” ao invés do original, “Precious”, por considerar que casa melhor com esta crítica.

 Direção soberba e atuações de cair o queixo formam esta película que vai ficar na memória de todos que a assistirem, com certeza. Desde o início de 2009 o filme veio acumulando premiações, e finalizou sendo indicado ao Oscar de Melhor Filme, com todos os méritos.

 O roteiro se passa nos anos 80, e nos conta a triste história de Claireece Preciosa Jones (vivida pela estreante Gabourey Sidibe), uma adolescente de 16 anos, que vive no Harlem, um bairro de Nova York que você nunca verá num cartão postal. Ela vive um inferno pessoal que nem Dante presenciou… é violentada pelo próprio pai desde criança, está grávida do segundo filho dele (a primeira criança nasceu com síndrome de Down, e é criada pela avó de Preciosa), é regularmente agredida física e psicologicamente pela mãe (vivida por Mo’Nique), é semianalfabeta, obesa ao extremo, e de certa forma, é ela quem sustenta a casa, pois o pai não mora com elas, a mãe megera não é fã de trabalho e vive com o dinheiro da assistência social, que é garantido graças às intempéries da vida da jovem.

 O que facilmente poderia pender para um dramalhão lacrimoso dispensável, é conduzido de forma magistral pela Direção impecável de Lee Daniels, e abrilhantado pelas atuações impactantes das atrizes principais, além de ótimas participações dos coadjuvantes. Sim, é um drama muito triste, mas é também encantador, que vai te fazer pensar. Conquista facilmente a platéia, não pela apelação sentimental, mas por sua incrível qualidade e amarga realidade social. Uma aula de como escapar do mero melodrama e cair nos braços da pura arte de contar uma história.

 As atuações aqui são muito, mas muito acima da média, no que se refere a Gabourey Sidibe e a Mo’Nique. A novata Gabourey principia na Sétima Arte de forma portentosa, dando um show digno de atriz veterana. Sua Preciosa sustenta o filme com tranquilidade, atuando sem exageros, e com uma  impressionante dualidade, entre a sofrida menina da “vida real” e a menina das fantasias de Preciosa, que foge do mundo real para um onírico, em que ela é uma estrela com uma vida repleta de glamour, admirada por todos, uma verdadeira pop star. É a única alternativa que Preciosa encontra para suportar as agruras por que passa diariamente. Já com seus 26 aninhos e formada em Psicologia, Gabourey nos convence facilmente que é uma adolescente com 10 anos a menos, com uma vida digna de uma poema de Augusto dos Anjos. Uma atuação merecedora da indicação que teve ao Oscar, e sem dúvida, superior ao da vencedora Sandra Bullock.

 Já a comediante Mo’Nique surpreeende com uma atuação espetacular, sendo a vilã da trama. É uma mãe megera, que não defende a filha dos abusos a que é submetida, pelo contrário, a pune como se a menina fosse a culpada de tudo. Uma atuação visceral, perfeita, que faz valer o ingresso. Com todos os méritos ela levou o Oscar de Melhor Coadjuvante.

 Mesmo as verdadeiras coadjuvantes estão muito bem (Mo’Nique é co-principal). Destaque para Paula Patton, que vive a professora Blu Rain, que trabalha numa escola alternativa que passa a ser frequentada por Preciosa depois que ela é afastada da escola normal. Numa atuação encantadora, ela está muito bem em todas as suas cenas. E uma surpresa é a bela atuação de ninguém menos que Mariah Carey!
Simplesmente irreconhecível na pele de uma assistente social, agora sim ela pode se considerar uma atriz de verdade. E por falar em irreconhecível, atente para o enfermeiro simpático que fica amigo de Preciosa… quase não se nota que é o cantor Lenny Kravitz.

 Quando todo um elenco dá um show de interpretação, há uma razão para isso: Direção magistral, ponto final. Um ótimo ator pode se perder em meio a uma Direção ruim, mas um ator comum pode ter uma atuação icônica quando cai na mão de um mestre do gênero. Seria Lee Daniels um gênio, pronto para entrar no panteão dos mestres cineastas? Ainda é muito cedo para isto, é imperativo esperar por seus próximos trabalhos (vide M. Night Shyamalan, que começou dando todas as dicas que seria um dos grandes, e se perdeu completamente pelo caminho), mas aconselho que se guarde o nome desse jovem diretor.

 O filme acabou caindo nas graças da apresentadora de TV Oprah Winfrey, que passou a promovê-lo, e com isso, ela acabou entrando nos créditos como produtora executiva.

 A câmera de mão talentosa de Daniels se junta a Edição competente de Joe Klotz, para valorizar ainda mais a produção. A estética dupla, que caminha entre a realidade de pesadelo e as passagens oníricas imaginadas pela protagonista – em conjunto com a narração em off – contam muito bem a  história.

 Acompanhe a luta de Preciosa para escapar da tirania de sua mãe, conquistar uma vida digna e ter seu próprio futuro, sendo ajudada por suas colegas de escola e principalmente pela professora Rain.

 Um filme arrebatador, que vai ficar em sua memória por muito tempo, esta obra-prima merece ser vista mais de uma vez. Acredite-me, você vai pensar duas vezes antes de reclamar de algum problema que o esteja afligindo… “Preciosa” é uma lição de vida.

 DALTO FIDENCIO
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 http://twitter.com/DaltoFidencio

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Filed in: Cinema, Dalto Fidencio

2 Responses to "PRECIOSA (Precious: Based on the Novel Push by Sapphire)"

  1. dalto disse:

    Elizabeth em 24/03/2010 às 16:41 disse: Dalto
    Agora só em vídeo, tenho que esperar mais um pouco para assistir esse precioso filme, que despertou a minha curiosidade…Lendo sua crítica, vejo que sou obrigada a vê-lo, pois acredito que é uma obra prima. Parabéns e obrigado pela colaboração…
    Beijos!!!

  2. dalto disse:

    Dalto em 24/03/2010 às 20:21 disse: Infelizmente este excepcional filme ficou pouco tempo em cartaz, por não ser comercial, Beth.
    Ah, fico feliz quando uma crítica minha instiga uma pessoa a ver o filme! Significa que foi bem escrita, rs!

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