
Comecei logo cedo ao sair com meus amigos para um daqueles passeios maravilhosos e inesquecíveis, onde as lembranças ficam impregnadas na memória de sensações.
Fomos para Gonçalves, aquele recanto com excesso de oxigênio, tanto, tanto, que dá tontura…
Foto: Reinaldo Prado – Pedra do Forno
Uma trilha para a Pedra do Forno. A subida escorregadia fez-me lembrar da descida e do meu joelho que reclama a cada freada. Os meus companheiros de aventura subiram, enquanto eu não cheguei na pedra, voltei do meio do caminho, segurando nos galhos das pequenas árvores, para não escorregar.
O silêncio das araucárias, em seus verdes movimentos, ordenados no caos íris da minha ótica…meus óculos atrapalham a descida.
Foto: Reinaldo Prado – Cachoeira/Gonçalves
Os caminhantes sobem e descem e no meio do caminho, sou uma retardatária, ouvindo o silêncio das araucárias. São aquelas pessoas diferentes que gostam de sujar os pés de barro, de subir as montanhas, de ouvir o barulho das águas, dos que gostam de caminhar entre as pedras do caminho, só para contrariar Drumond. A pedra é o ponto de apoio, é o descanso, é onde se encosta para revitalizar e continuar a jornada.
Sentei num banquinho de madeira e esperei a volta dos que se foram. O cenário tão belo parecia um sonho, desses que se misturam com a realidade e no final das contas nunca sabemos o que é de verdade.
Depois a volta para casa com o desejo de retornar, afinal não cheguei na Pedra do Forno, tenho que voltar.
Meus amigos param nos lugares bonitos, para tomar café e comer pão de queijo, para colher flores imaginárias ao pé da serra, fotografá-las, torná-las perenes, comer ingá no pé, subir os mirantes, andar na linha do trem, só pra fazer de conta que está tudo certo ao ver a Santa no alto da montanha, na verdade não é uma santa, é uma senhora que auxilia a jornada dos que por ali passam.
Na trilha da poesia, como sempre uma surpresa em cada canto e em cada verso. No mirante, diferente de todos, tem um mural com algumas informações pitorescas, mas o poema colado, cala todos os anseios:
Foto: Reinaldo Prado – Poesia no Mirante
“Aqui neste mirante encantado,
Alguém parou para olhar ao largo
O largo não parou para ser olhado
É largo para tudo que é lado…”
(De Gonçalves a Leminski
Ivan Messiano dez/04)
Mas a poesia insiste em misturar-se com os andarilhos. Solta-se nesse ar oxigenado de mentes entorpecidas por belezas inexplicáveis. Por que somos tão estranhos?
Foi então, que de repente, começo a ouvir o Rubi… Uma voz tão doce e tão profunda que não tem explicação…e uma letra tão bela que encanta o mundo. Fico sem entender a razão de não ter sido eu a escrever algo tão belo. Alguém pegou primeiro, no ar… caiu em outras mãos tão bela poesia.
Compartilho com todos mais uma beleza no mundo…Uma pedra preciosa que não conhecia: Rubi
Ai
Rubi
Composição: Tata Fernandes / Kléber Albuquerque
Deu meu coração de ficar dolorido
Arrasado num profundo pranto
Deu meu coração de falar esperanto
Na esperança de se compreendido
Deu meu coração equivocado
Deu de desbotar o colorido
Deu de sentir-se apagado
Desiluminado
Desacontecido
Deu meu coração de ficar abatido
De bater sem sentido
Meu coração surrado
Deu de arrancar o curativo
Deu de cutucar o machucado
Deu de inventar palavra
Pra curar de significado
O escuro aço denso do silêncio
De um coração trespassado
“Eu te amo – disse.
E o mundo despencou-lhe nas costas. Não havia de sofrer tanto.
O mundo pesa sobre o amor. Leveza dá pena no espaço.
E se teu amor por mais pedra não voar: liberta tuas costas do peso que não carregas.
E se teu amor por mais pena não mergulhar: vai te banhar e olha-te no olhar que não te cega.
Se teu amor te pesa mais que o mundo que carregas: degela-o e deixa-o beber os deltas.”
Deu meu coração de ficar abatido
De bater sem sentido
Meu coração surrado
Deu de arrancar o curativo
Deu de cutucar o machucado
Deu de inventar palavra
Pra curar de significado
O escuro aço denso do silêncio
No coração trespassado
Ai
Ai ai
Ai







Marllene em 26/01/2010 às 00:33 disse: Belo texto Beth!
Como digo sempre, o contato com a natureza, produz o mesmo efeito de uma prece.
Quanto ao Rubi, ele é realmente uma preciosidade!
Grande abraço!
Marllene
Elizabeth em 26/01/2010 às 15:15 disse: Obrigada Marllene!
Realmente a Natureza cura todos os males.
Se puder, me envia aquelas outras fotos minhas.
Abraços!