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Tempos Modernos

 

Por Eliete Santos

26/09/2010

Quase toda menina que ingressa nas aulas de bale espera, se não imediatamente, rodopiar na ponta dos pés. Vestir a sainha de tule, pôr tiara de strass e sair dançando. Algumas mães podem até imaginar que toda aula de bale sua filha vai dançar “uma belezinha”. Muito distante do que se vê no palco e no DVD da Barbie bailarina, acontece numa sala de bale. Algumas crianças e mães que tem em mente a idéia fixa da bailarina romântica e etérea. Estas se decepcionam quando vêem o conteúdo de uma aula de bale. São exercícios lentos, repetições intermináveis e alongamentos desagradáveis, para alguns minutos de bailado. Poucas meninas persistem em alcançar o sonho idealizado de se tornarem bailarina. A maioria abandona o bale logo cedo, frustradas por não ter se encaixado nos moldes da arte mais exigente do mundo.

Este é apenas um exemplo do equivoco que algumas pessoas cometem quando não conseguem reconhecer a distância que existe entre a personagem e o intérprete. A diferença entre o que se aprecia como produto de uma criação elaborada e a pessoa que a construiu . Muito menos o esforço que foi destinado para tal. Seguindo o mesmo equivoco, podemos recordar que não é raro , vermos noticias de atores que são agredidos por causa de seus personagens. Nestes casos a confusão se torna caso de polícia. O agressor vê naquele cidadão o personagem da novela. O que não é verdade. Personagens não andam por aí pelas ruas. Não fazem supermercado, não vão a filas de banco, não levam o cachorro para passear. Personagens tem vida curta. Muito curta. Quando muito, surgem apenas no palco, no momento da cena. Personagens não tem R.G, nem título de eleitor! Aliás, nem votam! No momento assistimos a mais este equívoco, só que, em níveis institucionais. E pode, na pior das hipóteses, levar personagens a vaga na Câmara Federal. Parte da sociedade reclama mais seriedade na campanha. A questão pessoa e personagem, que deveria ter sido desenvolvida décadas atrás, nas aulas de Educação Artística dentro das escolas, chega a tona com a candidatura de personagens a importantes cargos políticos. Cargos da maior importância para o desenvolvimento da nação estão sendo pleiteados por Cameron Brasil, Mulher Pêra, Maluco Beleza, Obama Brasil, Batoré e o mais famoso de todo, o palhaço Tiririca. Podemos questionar se a proposta desses candidatos parte do personagem ou da pessoa que o interpreta? Quem fala é o senhor Francisco Everardo Oliveira Silva (45 anos), ex dono de circo e pai de família ou o palhaço Tiririca? Respondo que assistimos a fala do personagem. Se é a proposta do personagem, vota-se no palhaço e não no Francisco Everaldo.

Resistindo a diversas representações contra a sua candidatura o palhaço Tiririca vai fazendo a sua parte. E como palhaço vem cumprindo muito bem a sua função. Desde as origens na Grécia Antiga, até surgimento do palhaço tradicional italiano, o contemporâneo Clown, até o mais sofisticado protagonista da ópera italiana “I Pagliacci”, sua função além de representar o gênero humano, é o da denuncia. Chaplin fez isso em Tempos Modernos e o personagem Tiririca tem feito isto desde o inicio da sua campanha. A frase dita pelo personagem logo no inicio da campanha, “O que é que faz um Deputado Federal? denuncia que na realidade, nem todos sabemos o que faz um Deputado Federal.

Tudo indica que o palhaço cearense mal engendrado, nascido debaixo da lona dos circos de interior, criação autenticada nossa cultura, continuará na disputa, já que o T.R.E aceita o registro de apelidos e a apresentação do candidato do modo como ele é mais conhecido. Tudo isso apoiado pela democracia que, garante o direito de livre expressão, nos resta rir muito e esperar os próximos capítulos deste teatro nacional mal entendido.

 

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Filed in: Dança, Eliete Santos, Variadas

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