Por Milton T. Mendonça
21/01/2010
palavraetinta@yahoo.com.br
A cidade? São José dos Campos. A época? Natal de sessenta e oito. Ou sessenta e nove, não estou certo. Mas, me lembro bem, porque ficamos todos impressionados. Nunca foi publicado nada a respeito, até agora, porque decidimos não o fazer.
Lembro-me da discussão engendrada ao longo da noite. E ao longo dos anos. Mesmo naquela época, nem todos ficaram satisfeitos. Alguns anos depois, alguém trouxe o acontecimento à luz da ciência. A lógica foi satisfeita totalmente, mas eu sabia que ali acontecera algo inusitado.
Estávamos todos reunidos à beira do rio Paraíba. Meu tio Manuel morava em um bairro onde o rio passava feito uma rua. Ficava lá para os lados de Santana, hoje mais conhecida como zona norte. É a globalização, estamos pensando em uma escala ligeiramente maior.
Como eu dizia, éramos em cinco: Eu, a Ana Paula, a Rosalina, a Edna e o Gustavo, irmão de Rosalina. Costumávamos pegar o barco do meu tio, pai dos dois, para atravessar o rio e ir brincar do outro lado, no campinho.
Naquele dia, estávamos preocupados, os pais de Rosalina queriam se desquitar e eles estavam muito tristes. Achavam que o pai ia embora para outro país e nunca mais o veriam. Tentávamos argumentar que não, eles não iam se separar, para acalmá-los, mas era difícil, porque nós também acreditávamos nisso.
Chegamos do outro lado e nos deparamos com um objeto grande, vermelho, igual a uma carroça, só que mais bem construída, caído de lado, na grama alta, e vários animais estranhos soltos ao acaso. Eu sempre fui leitor assíduo de tudo quanto caísse nas minhas mãos. Portanto, quando vi os animais, percebi logo que eram renas. E mais, sabia que não eram renas quaisquer. Eram as renas do Papai Noel.
Fiquei calado. Não podia sair falando para todo mundo ouvir. Arriscava ser visto como bobo dali para frente. Esperei que todos vissem o que havíamos encontrado e expressassem suas opiniões.
Conforme foram se deparando com aqueles animais admiráveis, os comentários surgiram devagar. As palavras exatas estão meio esquecidas, mas poderia jurar que eram mais ou menos assim:
- Nossa! Que bichos esquisitos são esses?! Parecem vacas, mas são muito magrinhas, coitadas – Rosalina exclamou espantada, ao sair do barco e se deparar com as renas pastando sossegadamente no campo, a alguns metros da margem do Paraíba.
- Que isso?! – exclamou Ana Paula – E esse negócio vermelho? – correu e tocou o que seria a roda do trenó, uma barra de madeira longitudinal.
Nós nos reunimos à sua volta e aproveitamos para colocá-lo na posição certa. Assim que bateu no chão, uma luz, azul, muito tênue, acendeu-se em todo seu perímetro, atraindo as renas, que se posicionaram nos seus locais apropriados, em torno da vara de arrasto, e ficaram nos observando à espera de alguma coisa.
- ¬ Se não fosse absurdo, eu diria que é o trenó do Papai Noel – falou uma das meninas do outro lado, escondida pela madeira vermelha. Todos rimos nervosos. As renas nos olharam alegres e interessadas.
- ¬ Olha! Tem fêmeas e machos! – Gustavo exclamou, olhando as intimidades das renas.
Edna, o puxou para perto de si, o tirando de onde estava, próximo à pata traseira de uma fêmea, que parecia contente com a descoberta.
- O que será que isso está fazendo aqui? – perguntei – Onde está o dono?
- Afrânio, dá uma olhadinha por aí e veja se encontra o dono – Edna falou para mim, autoritária.
- Vamos nos separar e olhar por aí – falei, chateado.
- Você acha que é do Papai Noel, mesmo, esse trenó? – Rosalina perguntou, segurando meu braço e me levando para longe.
- Pode ser, já li a respeito e se parece bastante. Aquela rena lá da ponta é igualzinha ao desenho que vi numa revista.
Olhei para trás e apontei a rena, me assustando por ver Gustavo subindo no trenó e se sentando na boléia como se fosse o dono.
- Cuidado, Gustavo! – gritei em sua direção.
- Elas são mansas – retrucou lá de cima.
Olhamos em torno e nada vimos que demonstrasse que um homem, ou o Papai Noel, estivesse por ali. Voltamos e nos juntamos ao grupo que, mais à vontade, olhavam e tocavam em tudo descaradamente.
- Se for do Papai Noel, podemos fazer um pedido que ele se realizará! – disse Ana Paula, enquanto subia e se sentava ao lado de Gustavo.
- Um pedido?! Que tipo de pedido? – Edna falou lá da frente, junto às renas.
- Qualquer pedido! – exclamei.
- Vamos fazer um pedido só – falei sério – Vamos pedir que os pais de Rosalina não se separem e que eles não precisem ir embora.
Eu estava preocupado porque me apaixonara por Rosalina e ela estava começando a corresponder. Se os pais dela se separassem, eles se mudariam. A mãe já dissera que voltaria para sua cidade natal, junto da famila.
- Eu concordo! – respondeu Edna, enquanto fazia cafuné nas orelhas da rena que sorria silenciosa.
Todos concordaram e ficamos em silêncio por alguns segundos, para dar um pouco de formalidade ao ato.
De repente, quebrando o silêncio, alguém gritou da outra margem o nome de Rosalina. Era o outro irmão quem chamava. A hora chegara. Seus pais a queriam para a terrível notícia. Largamos tudo e corremos para o barco. Embarcaram e eu o empurrei para longe da margem, subindo em seguida. Quando peguei o remo e estava preste a colocá-lo na água, olhei para o campinho. Um vulto vestido de vermelho surgiu e subiu rapidamente no trenó. Em suas mãos, um grande maço de flores do campo, destas tão comuns por aqui.
Gritei o nome do Papai Noel o mais alto que pude. Todos olharam e, como eu, viram quando ele nos olhou e abanou a mão nos abençoando. Pegou as rédeas e as sacudiu, desaparecendo em um redemoinho.
Voltamos para a margem e vasculhamos o campinho, mas nada encontramos. Era como se nunca estivera ali.
Estamos em dois mil e nove. Casei-me com Rosalina e hoje somos avós. Nunca saímos da redondeza. Moro na casa que fora dos meus pais. Os pais de Rosalina nunca se separaram, não se mudaram daqui. Vivem ainda na mesma casa. Depois daquele dia nunca mais brigaram. Foram felizes.
Voltamos muitas vezes ao campinho, mas nunca mais vimos nada de extraordinário. Ainda existe dúvida se não foi uma ilusão coletiva. Estávamos realmente preocupados e isso poderia ter causado um efeito químico, não sei. Eu acreditei!






