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WILSON ROCHA

02/10/2011

WILSON ROCHA

(1921-2005)

Nasceu em Cochabamba, Bolívia, em 1921, mas sua vida intelectual e literária acontece a  partir de Salvador, Bahia, onde foi um dos fundadores da revista Caderno da Bahia, responsável por mudanças nas artes e na literatura da região.

“*Um poeta autêntico”,* afirma Roger Bastide (1951).

“*Emociona ver a nossa atual poesia liberta de prevaricações e desvios madrigalescos na voz de Wilson Rocha, uma voz impregnada dos grandes mistérios da vida e da morte e que, por isso mesmo, surgiu para ressonâncias perenes”.*  Mauro Mota

Wilson Rocha passou os últimos anos de sua vida em condições precárias, sem o reconhecimento da cidade da importância da sua poesia para a literatura brasileira, morreu sem publicar essa antologia que ele próprio, em parte, organizou. Porque estava à deriva no circuito cultural institucional baiano.

Na cidade do Salvador, Wilson Rocha é um poeta isolado, fora do tempo e do lugar, sua geografia é a antiguidade clássica. Poeta que imagina a poesia como uma investigação da razão e do sensível, construída a partir de um cuidado e uma generosidade em lidar com a língua. Uma poesia depurada que encanta ainda mais a linguagem quando fala do mistério da beleza feminina.

 

 

Wilson Rocha  – De Cultu Feminarum.

(poemas da mulher)

Salvador: Fundação Gregório de Mattos.

Ilustrações Almandrade

(Organização de Almandrade e Zeca Magalhães)

Salvador: Fundação Gregório de Mattos, 2008.  108 p

 

POEMAS

 

1-      DA MULHER

Comme l’arome d’une idée Valéry

Longa e clara cabeleira

no flanco dos quadris,

chama secreta ressurgindo

no ritmo flexível do sexo.

 

——–

 

2-      A VOZ FEMININA

 

Nem a escrita dos pássaros

nem os clarins da eternidade

desafiam assim o tempo,

a frescura do azul

e a doce transparência do cristal.

como é branca e nua a voz

feminina.

 

 

3-VIRGO

Amor, que o gesto humano na alma escreve

Camões

 

Junto a uma fonte uma donzela canta

e o ar em torno é brando e luminoso.

seus cabelos suaves e quietos

presos ao segredo escuro da solidão.

nela pensaram docemente os deuses,

filha que é do sonho dos guerreiros.

e em seus pensamentos se agitam,

mais que as flores todas e as rosas,

as trêmulas bandeiras e as lanças.

 

*ELEGIA*

 

As cores cálidas de suas vestes

pesam na memória transfigurada,

no entanto a sua voz intocada

jaz soterrada no silêncio.

 

*OS DIAS ARDENTES*

 

Como a fértil harmonia da mulher

ou o inquietante aroma dos frutos

acariciados pela língua do vento

a lucidez é uma imagem nua

onde tudo sonha

onde tudo evola-se

e treme como a água

a escorrer sobre o umbigo

 

CANÇÃO PARA SÖREN KIERKEGAARD

 

A que paixão se destina

a água dos fontes?

E o sabor do fruto

dos altos montes?

 

Labirinto de sonho

que na flor perece.

Sonhos que o amor sonha

no coração que arrefece.

 

*A FORMA DO SILÊNCIO*

(Poesia Reunida)

Rio de Janeiro: José Olympio Editora;

Salvador: Fundação Cultural da Bahia, 1986

 

 

*CANÇÃO DA MENINA AFOGADA

 

*Na sombra difusa,

na areia molhada,

alga ou papoula

na praia encontrada.

 

Na marinha quietude,

no silêncio da sereia,

jaz na praia

perdida na areia.

 

Na mortiça transparência

de alga adormecida,

sozinha, sozinha,

na praia esquecida.

 

*DE PROFUNDIS*

 

Onde a argila

resistiu a forma,

além dos abismos,

extintos os véus,

modulando

a origem das fontes,

os amantes mortos

hirtos de silêncio

se estendem

sob o sono das raízes.

 

IN EXTINTAN AQUIS PUELLAM*

 

Criatura das águas possuída,

a juventude, o mar, a morte possuindo

em sábia e eterna castidade.

Ó vitória, fulgurante vitória,

de em juventude e mar permanecer.

E o haver vencido

esse esperar da morte

que a vida conduz.

Que sob a luz tudo se extingue,

que a vida em tudo se desfaz.

CANÇÃO PARA JOSÉ PANCETTI*

 

Água serena,

azul profundo,

um barco navega

sem deixar o mundo.

 

Altos ventos,

ilhas além,

uma vela só,

sem ninguém.

 

 

*CANÇÃO DA FLOR NA TARDE*

 

A Maria Angela

 

Límpida transparência

no cristal do dia,

rútila flor,

segredo e harmonia.

 

Sonha o azul

e o vermelho arde,

rútila flor,

coração da tarde.

 

 

*CANÇÃO DE AMOR À BAHIA*

a Alice Soares

 

Os casarios da Bahia,

puras formas desnudadas,

suas pedras, suas portas barrocas,

ó distâncias prolongadas.

 

Recolhem uma luz conforme

suas velhas cores, suas grades,

e as igrejas com os seus santos.

Interiores, mistérios, saudades.

 

Intensa, como o passado,

a solidão aflora — grito mudo.

Ó contida soledade,

ó lento fim de tudo.

 

PRAIA*

 

Entre o fim e o começo

a distância fluindo.

 

Uma envolvência azul

despe movimentos

brancos e tranqüilos.

Os dedos roçam de leve

matérias que se defrontam

em silêncio.

O vento passa sem memória

e há um único horizonte

que só o tempo atravessa.

 

 

*TEXTOS EN ESPAÑOL*

Traducción de Ofelia Cubillán (Venezuela)

 

*LOS ENIGMAS*

 

a Murilo Mendes

 

Entre soledades y objetos,

ropas y caricias,

gotean lentos,

fluyen sordos

los enigmas.

Atraviesan

la espesura amarga

de la noche.

Penetran el cierre

frío

de las piedras.

Caen

en el seno de la tierra,

en el seno hondo

y transformador

de la tierra.

 

 

*CANCIÓN DE LA NIÑA AHOGADA*

 

En la sombra difusa

En la arena mojada

Alga o Amapola

En la playa encontrada.

 

En la marina quietud

En el silencio de la sirena

Yace en la playa

Perdida en la arena.

 

En la turbia transparencia

De alga amoratada

Solita, solita,

En la playa olvidada.

 

 

*DE PROFUNDIS*

 

Donde la arcilla

resistió a la forma,

más allá de los abismos,

extinguidos los velos,

modulando

el origen de las fuentes,

los amantes muertos

rígidos de silencio

yacen

bajo el sueño de las raíces.

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Filed in: Arte, Literatura, Variadas

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