Em meio ás ilusões e as desilusões da vida, caí na leitura de Cecília Meireles. Levei mais de cem páginas para entender esta poeta, vou reler. Ela nos fala de um cotidiano que não nos damos conta. Eu, homem que sempre cantei a mudança do mundo, sempre me pautando em ações políticas, hoje me frusto totalmente. Se não nos compreendermos vamos compreender o mundo, com suas aberrações que chamamos de política? Nada! Hei de mudar com minhas ações? E Cecília fala-nos de um conhecimento simples, longe de qualquer metafísica. Longe de tentar complicar o viver. Cecília nos passa um modo de ver o mundo como as mulheres o vêem? Nós homens, sempre pré- dispostos a guerra. E elas, a vida ao cotidiano. Quantas revoluções, num dia inteiro, passam por minha cabeça, enquanto leio os jornais do dia… Ou observo crianças a estudarem. Não somos e Cecília é pura entrega ao cotidiano. Bem longe de poemas processos ou qualquer vanguarda literária. Para que todas estas vanguardas, se nos fazem esquecer a alma numa criação poética? Fazem-nos não ler a vida como ela é. Li quase todos os teóricos anárquicos. Tenho Marx em minha estante e para que? Enquanto isto Cecília nos revela uma existência dentro de um aquário. Por não entender esta poética, Cecília nos mostra e nos revela. Tentarei não mais escrever uma linha sobre política ou qualquer forma de mudar o mundo. Pois não irei transformar nada, se eu mesmo não me transformar. A vida não tem sentido. Nem a metafísica tem sentido. Nem qualquer teoria literária. Tem um poema de um poeta contemporâneo a mim que li em mil novecentos e noventa e seis, nunca esqueço este poema:
A NÚBIA MONTAVA UM BISONTE
A NÚBIA MONTAVA UM BISONTE DE OITO PATAS. Segurava na mão esquerda um espelho e na direita um azorrague. A esguia sombra da deusa ou monstro ou fera simulava uma serpente. Seus tornozelos tinham adornos de ossos ou marfim e seu corpo nu era tatuado com figuras de círculos concêntricos. Uma vasta cabeleira leonina dava-lhe um aspecto ameaçador, acentuado por seus grandes olhos sem pálpebras e por um fino bigode de gato. Senti um terror vago e confuso quando sua imagem ficou refletida em minhas águas; quis gritar, mas não pude. Logo a noite trará de volta o silêncio e a escuridão e eu, o Nilo, poderei exercer novamente esse sublime ofício do esquecimento.
Claudio Daniel
E por ai vai…poema de Claudio Daniel que me vem á cabeça sempre. E um poema tem explicação? Este calor noturno tem toda a explicação racional mas não deixa de ser uma sensação de calor. E nisto Fernando Pessoa, Cecília Meireles e Claudio Daniel me passam seus sentimentos. A poesia não deve ser tão racional nem a vida deve ser vivida calcada em projetos. Tenho muitos planos. Se realizarão ou não, deixo com o Universo. Hoje escrevo amanhã não sei. Mas quem sabe crio um roteiro de um filme. Escrevo um ótimo livro. No momento minha musa é a Mantiqueira. E nada mais. Escrever me dá prazer. E quando tiro o peso de escrever para mudar algo me dá mais prazer ainda. Afinal para que servirão todas as revoluções? Já explodiram grandes edifícios. Já li alguém que queria matar as cem pessoas mais influentes do mundo e de nossos pais. Mas mudaria alguma coisa? Não! outras pessoas e governos mais perversos que os que estão hoje a nos desgovernar assumiriam o poder. Ódio só gera ódio. E amor gera amor. E nunca uma arma ardonada por flores nos trará uma idéia de paz. A violência e o amor são gestados dentro de nosso coração nos temos o livre arbítrio. Fazemos as escolhas sempre. Faço e refaço minha escolha pela poética, mas a poética que liberte. E não se prenda a mera estética. Do que nos serve a estética sem coração, sem nenhuma alma? O amor nos liberta. Mesmo hoje que vivemos numa sociedade cada vez mais Kaotica e longe de qualquer harmonia o ódio separa, o amor une. Estamos ai admiravelmente vivos. Será que realmente percebemos nossa existência?
JOKA
joão carlos faria







Mestre,
eu ainda tenho pra mim que a poesia é o melhor caminho para os tudos.
Abraços pernambucanbaianos…