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Nadir Bertolini

29/07/2010
O poeta da cidade
 
Que anjos são esses que andam me rodeando…
“Ciranda, cirandinha vamos todos cirandar, vamos dar a meia a volta, volta e meia vamos dar… Você entrou na roda o que? O quê? O quê? Você entrou na roda, o quê que vai fazer?… Se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante, para o meu, para o meu amor passar… Tempestades, fuzilos e trovões, as chuvas que caiam na roça deixavam todos em polvorosa. Depois, as pedrinhas de gelo vestiam de branco o terreiro, os rios transbordavam. Minha mãe apavorada rezava e acendia velas. De repente, tudo cessava e nós crianças saíamos pisando na lama e tomando aquele restinho de chuvisco na cabeça. Ficaram as sentimentais lembranças das festinhas de aniversário, das cantigas de roda.”
Nadir Bertolini, 78, nasceu numa casinha coberta de sapé, chão de terra e paredes de taipa, na Serrinha, uma lombada da Serra da Mantiqueira, no bairro do Taquari, nesses Campos de São José, divisa com Monteiro Lobato. Filho de Cândido Bertolini e Ester Ribeiro Bertolini. O avô André Bertolini era italiano que tinha chegado ao Brasil com 33 anos. Com economias do trabalho como mascate, comprou uma boa fazenda em Joanópolis, SP.
Nadir Bertolini mora na rua Santa Clara onde nos atendeu. Ouvir o poeta falar de sua vida foi um grande prazer: “papai comprou do João Cunha a fazenda Santa Maria e aos poucos a foi melhorando. Construiu moinho de fubá, fábrica de farinha de milho, instalou rodas d’água para gerar eletricidade, serrou com o carpinteiro Piré enormes troncos de madeira e construiu cercas. Transportou pedras e revestiu os currais e finalmente encanou a água que jorrou nas torneiras. Eu ia junto para ajudar, muitas vezes me distraia em meio a tanto encantamento: passarinhos cantando, sapinhos pulando, peixinhos, cobras deslizando. E o sol desenhando nas verdes pinturas furta-cores da mata, um mistério que me inquietava. E papai gritava: está dormindo filho? Me passa o martelo, segura essa mesa;
E vieram vários caminhões com mudas enxertadas de árvores frutíferas, goiaba, amora, maçã, laranja, pitanga, romã, jabuticaba. E meu pai se pôs a formar o pomar. Labutava noite a dentro, canteiros, valetas, estercos, o terreno ia sendo preparado. Perguntei quando poderíamos comer as frutas e ele respondeu que dentro de alguns anos. Porém, como um relâmpago o tempo passou e vi o pomar florido e lindo. O primeiro lugar que meus pais levavam as visitas.
A crise mundial de 1929 acabou com os preços do café, papai empobreceu da noite para o dia, ninguém pagava ninguém. O governo federal mandou queimar a produção e os cafezais foram substituídos pelos bois. Papai começou a tirar leite que também não era um bom negócio. Fazia-se economia em tudo e a luta foi grande.
Cândido Bertolini era grandalhão, enérgico e muito sério nos negócios, não bebia e não fumava, gostava de um bom papo com as pessoas simples. Mamãe era sonhadora com os sentimentos a flor da pele, objetiva e franca, inteligente e bondosa, a nossa afinidade era grande, cantava músicas românticas e eu adorava ouvi-la. Com o falecimento cedo do Moacir fiquei sendo o irmão mais velho, depois a Nair, o Jandir, o José, o André, o Luiz e a Neusa, oito filhos, vivos apenas quatro.
A minha meninice no Taquari não foi boa, não gostava da roça. Papai me acordava as cinco da manhã para ir buscar as vacas, tinha que subir descalço um morro enorme. Naquele frio meu pé gelava no capim gordura. Eu tocava a vaca e pulava para o lugar dela para me esquentar. Com 13 anos era obrigado a levar o leite de carro de boi a uns três quilômetros adiante por uma estrada ruim, voltava ao meio dia pingando que me valeu uma sinusite.
Eu adorava livros, revistas,  mas meu pai era claro: – nada de leitura, esse negócio de poeta, de escritor é para filho de doutor e você é de fazendeiro, tem que pisar no barro. E me tomava as revistas e os livros. A única escola que tive foi até o segundo ano na Escola Mista Rural do Pau D’alho. Eu não tinha com quem desabafar, papai era bom mas me queria como fosse sua posse isso eu não admitia. E pensei em conversar com meu tio José Maria Monteiro que tinha uma fazenda vizinha. Fui, e ele sabendo do meu gosto pela poesia indagou o que achava de Castro Alves: “Vai Dalila, é bem longa tua estrada. Suave a descida terminada, em báratro cruel. Hoje flores… a música soando, as perlas do champanhe gotejando. Amanhã a enxada do coveiro que trabalha a revolver-te em pó…” De Alves de Azevedo: na floresta dos homens esquecida, a sombra de uma cruz escrevam nela, foi poeta, sonhou e amou a vida. E pensei, como é bom ser poeta. E meu tio disse outra de Fagundes Varela, um maltrapilho, beberrão, maravilhoso. Olavo Bilac, Castro Alves, Gonçalves Dias… Sai da casa de meu tio com três volumes de poesias e fui embora alisando as capas, estava descoberto o que desejava da vida.
 
A minha vida era ler escondido de meu pai, tapava todos os buraquinhos do biombo de meu quarto com pano e acendia uma vela e lia a noite toda. Quando eram cinco da manhã papai me chamava para tirar leite, eu ia com uma raiva danada. Pensava na vida que queria viver na cidade, ler, carros, mulheres de sapato alto, hotéis, cassinos, música.
Trabalhava, trabalhava e nunca tinha dinheiro. Tinha 14 para 15 anos, um dia fui até o Zé Samambaia e disse: papai mandou buscar três contos de réis e ele me deu. Pequei o dinheiro e fui para São Paulo, lá arranjei um emprego de almoxarife no Formiga que era amigo de meu pai. Com 20 anos fui para o Rio de Janeiro onde trabalhei como contato publicitário do Jornal do Brasil. No Rio vi as coisas que sonhava nos tempos de menino na fazenda: Cassino da Urca com cortinas de veludo, artistas, mulheres lindas. Ia aos cinemas, ao Balé Russo.
Com 23 anos voltei para a casa, em São José já meio sofrido. Meu pai tinha um armazém em Santana e fui trabalhar lá. Como era o melhor assumi a gerência, os outros irmãos acabaram saindo. Quando papai vendeu a fazenda deu 40 contos para cada um. Para mim ficou o armazém, foi quando pensei em me casar. Queria uma mulher simples que me entendesse e a encontrei.
Vinha descendo a Rui Barbosa e vi uma mocinha com um gato preto no colo. Passei no dia seguinte e a vi novamente concentrada e acariciando o animal. Acabei por conversar com ela, gostei da sua simplicidade, chamava-se Benedita Rosa. Disse a ela que queria casar logo, foi o que aconteceu depois de 4 meses, no dia 8 de setembro de 1946. Estamos juntos e vivemos bem há 54 anos com os três filhos, a Stássula, o Carlos Alberto e o Jefferson Fernando.
Não me dediquei a literatura, a poesia para mim foi a vazão à minha ânsia de viver. Meu primeiro livro Mundo Submerso, é de 1979, foram 40 anos até que o publicasse. Passageiro da Vida, de crônicas, foi o segundo e depois escrevi o Viajante do Tempo, em 1991. O homem deve aprender, no dizer de Schubert: andar junto às estrelas. Li O Fio de Navalha, Dostoiesviski, muito Machado de Assis, Monteiro Lobato, S. Morgan, Érico Veríssimo, Crony. No meu livro Viajante do Tempo dei vazão a minha verdade.
São José daquele tempo de 1936 e 37 era gostosa, principalmente na época do bar Paulistano, do Santos Pinto e Agenor de Oliveira. O bar do Euclides Delias, na frente a sorveteria do Max, hoje seria em frente a Drogasil.
Fui convidado para montar um jornal pelo dr. Florence, o Moacir de Souza, o Roberto Tavares, o Everardo Passos, o Lebrão e se chamou A Semana. Eu era o único que podia endossar 40 contos de réis naquele tempo para trazer a tipografia de Taubaté . Os 40 contos foram para 60 e o banco avisou que não reformaria o título. Me reuni com eles para ver se ajudariam a pagar, inútil. Todos desistiram e tive que assumir. Vendi o armazém e paguei as contas do jornal. Me transferi para Paraizópolis onde acabei por fazer muitos impressos em todo o Sul de Minas, isso em 1946. Acabei trocando a tipografia por um caminhão e um fordinho. Vendi o caminhão e fui trabalhar na praça com o automóvel. Voltei à São José, montei um armazém, fui atacadista da Brahma e da Nestlê, na rua Sebastião Hummel.
Vendi tudo e fui embora para Santos, lá lidei com secos e molhados, ganhei dinheiro com um posto de gasolina até que me deu na veneta de vender tudo e comprar uma boate, a Banzú, com decoração africana e música ao vivo, foi em 1959. Agostinho dos Santos, Maisa Matarazzo, Agnaldo Rayol, Roberto Luna, Marli Marlei e outros nomes famosos frequentavam a casa. De 95 para cá, voltei à São José.
O Nadir Bertolini morreu e faz falta, muita falta mesmo. Publiquei essa conversa com ele no jornal ValeaPena, edição de março de 2004. Publicá-la, agora, no Entrementes, é como voltar no tempo, de novo, ficar frente a frente com o vozeirão  do poeta. A Beth pode entender, ela conviveu com ele.
 
Ricardo Faria – www.vejosaojose.com.br
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Filed in: Arte, Literatura, Poesia, Variadas

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