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Um coelho na festa

Sempre há um espelho. E nele sempre a possibilidade de atravessamento. Um devaneio-passeio. Um país de maravilhas. Lá. Através do espelho. Mas ficamos por aqui. Sem a Alice. Ficamos. Deste lado. E o olho só vê o mesmo olho que vê. A ação dobrada. Ver o olho vendo. Se ver no espelho. Ver, ser. O que está no espelho? Quem está no espelho? Preso?
O tempo é o espelho. E ele mostra nossa cara. Somos a massa, o barro do tempo. Ele molda nosso rosto. Deforma. Conforta às vezes.
E passa. E os foguetes. E os abraços. E a medida inventada do tempo. Pois ele é fluxo. É contínuo. Não tem pausas nem períodos. Invenção do homem. Ano, dia, mês, século… o corpo inteiro do tempo seccionado… putz!
A luz apaga e o outro do espelho se contrai, resmunga e volta. Já o outro volta para os fogos, os abraços. A cerveja gelada.
Há uma esperança. Sempre há uma esperança. É o que move o corpo e a alma humana. Serão mesmo duas coisas separadas? Acho que não.
E é o outro ano agora. O que chega. Carregado de expectativas. Mesmo que saibamos, já por experiência própria que as coisas serão quase iguais. Uma morte aqui, um nascimento ali, uma briga, uma festa. Um fracasso, uma vitória. Algumas alegrias, algumas tristezas.
Eis que no meio da festa. Dos sorrisos e abraços. Um coelho. Branco. De relógio em punho.
Olha para a cerveja. Wonderland Beer.
E uma gargalhada ensandecida foge de sua garganta suplantando todo o som alheio a sua loucura.
E se põe a dançar, abraçar e beijar todo mundo. “Estou atrasado, estou muito atrasado!”

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