Arte Artes Visuais Cinema Entrevistas Teresa Bendini

Entrevista com Alexandre Gennari

Teresa Bendini entrevista Alexandre Gennari

Alexandre Gennari é escritor e roteirista. É também palestrante e autor teatral. Nasceu em São Paulo (1963) e hoje vive na cidade histórica de São Luiz do Paraitinga, onde exerce a função de Secretário da Cultura.
Em 2001, criou o site WebWritersBrasil,sobre comunicação escrita multimídia: Webwriting, Roteiros e Literatura.
É autor dos livros “Os sons do Divino e o Espírito Santo do silêncio” (contos), “Descaminho – O Sorriso do Gato” (romance), “Descaminho – A Boca do Cachorro” (romance), “A Onça, Eu Engoli Inteira” (infantil), “Nossa Senhora dos Fracassados” (novela – no prelo).
Escreveu os roteiros dos filmes “Os sons do Divino e o Espírito Santo do silêncio”, selecionado no Festival de Estocolmo, entre outros, e premiado no Comunicurtas 2013; “Ouço Passos no Escuro” e “Roupa de Baixo,” melhor curta-metragem do Festival MixBrasil 2016. Também “Olhos Infinitos” (inédito).

1. Visitei o WWB (Web Writers Brasil) e verifiquei extasiada, um conteúdo de altíssima qualidade. Colaboradores fantásticos, disponibilizando informações preciosíssimas.
Queria que falasse sobre a trajetória da WWB, do que ela trata, com a autoridade de quem foi seu construtor.

O WebwritersBrasil surgiu em 2001 como um espaço de pesquisas e debates sobre a linguagem escrita na internet, que na época carecia de parâmetros e reflexão sobre a incipiente produção de conteúdo exclusivo para a rede. Posteriormente o escopo foi ampliado para Comunicação Multimídia e passou a disponibilizar informações em três seções independentes: Webwriting, Roteiros Multimídia e Literatura na Web.
Hoje, o site blog se tornou um acervo sobre esses temas.

2. Em 2001 um Site. Um Blog em 2010. Qual o significado desse processo vivenciado pela WWB? Ocorreu uma evolução ou uma involução nessa transição?

foto 3Acredito que uma involução. Mas necessária para nos adaptarmos aos novos tempos. Hoje, talvez o ideal fosse uma fan page no Facebook. Não sei… cada vez mais agilidade nas postagens e atualizações, mas com possibilidades menos amplas de navegação e, consequentemente, de distribuição da informação e conteúdo.

3. Charles Bukowski, em seu texto “Então queres ser um escritor?” analisa brilhantemente o conceito da palavra ESCRITOR, discorrendo sobre suas características. Você, além de ser um escritor da mídia impressa, também é da mídia digital. O que é ser um escritor “Webwriter”?

Bukowski nos alerta sobre a necessidade de o pretenso escritor ser visceral na criação literária. Literatura não é (ou não deveria ser) artigo de toucador. É muito mais, é mais do que o ato de escrever, é conceito, é estilo, sacerdócio, modo (antes de ser meio) de vida. Na visão de Caio Fernando Abreu “para escrever, o escritor tem que sangrar abundantemente.”
O têrmo webwriter foi cunhado nos primórdios da internet para designar pessoas que escreviam para a nova mídia. Se havia um webdesigner, haveria também um webwriter, que redigiria não só literatura, mas quaisquer tipos de textos veiculados na rede. Hoje acredito que, embora a internet, como meio, exija uma linguagem específica, não há diferenciação entre um escritor e um webwriter, entre um jornalista e um web-jornalista, entre um redator publicitário e um web-redator. O escritor é escritor em qualquer lugar. O que muda é tão somente a plataforma e, consequentemente, a linguagem.

4. Sobre a arte de ser contista. Examinei seus contos na WWB. Uma produção incrível! Os contos infantis me emocionaram. O conto “CABEÇA DE ABÓBORA” faz uma crítica ao Halloween bastante pertinente. Nesse conto, o nosso Saci não tem perna, mas tem cabeça. Audaz, ele provoca uma discussão sobre o personagem americano de forma divertidíssima. O modo de ser cosmopolita assume hoje proporções mais abrangentes por conta do atual capitalismo financeiro. Como analisa esse momento?

Prefiro o relato breve às formas estendidas. Como leitor e como escritor. Sou apaixonado pelo conto, pela crtônica, gosto mais de criar narrativas fragmentadas à produzir romances, por exemplo. Mesmo meus romances têm a marca da fragmentação, que aproxima os episódios de contos, ainda que entrelaçados. Ademais, entendo que a narrativa breve se encaixa melhor aos tempos atuais, nos quais a falta de tempo crônica é marcante, graças, entre outras coisas, à máxima capitalista “tempo é dinheiro.” Tempo não é dinheiro. Tempo é tempo, vale mais do que qualquer quantidade de dinheiro; e dinheiro é uma criação humana, um tanto imbecil, como tantas outras criações humanas, visando atribuir preços a valores que, em tese, jamais deveriam ser precificadoss.

5. Qual a sua experiência dentro do Teatro Empresarial? Alguns empresários tentam desenvolver valores e humanizar a sua empresa, mesmo sendo elas poluidoras e nocivas para a coletividade. Acha pertinente essa ação? Ambiguidades são próprias do nosso tempo. Como lidar com a angústia do ser ou não ser, o seu lado Shakespeariano teria algo a dizer sobre esse momento? Como a ARTE se insere nessa realidade?

Meu interesse pelo teatro empresarial foi meramente financeiro. A grande arte da dramaturgia não se insere no teatro-empresa. Da mesma maneira que o sonho de um mundo melhor (e de um ser humano melhor) não passa pelo mundo corporativo nem pela premissa capitalista. Hoje, entendo que o formato esteja fadado a extinção.
Entretanto, tendo em vista o poder catártico do teatro, há provocações um tanto válidas neste segmento. E provocação e catarse, com o ou sem Shakspeare, sempre foram (e ainda são), pontos fundamentais de inserção da ARTE em quaisquer realidades humanas.

6. São Luiz do Paraitinga é vítima do Turismo Predatório? Quem é o morador de São Luiz do Paraitinga hoje?

Entendo que São Luiz seja vítima de um turismo altamente predatório no carnaval, que cresceu demais, e fugiu ao controle da comunidade e do poder público. Fora do carnaval, São Luiz recebe muitos turistas interessados em música, em arte, na história e na natureza locais.
O luizense é alguém em dúvida entre a vocação turística da cidade e a preservação de suas raízes e cultura, entre o velho e o novo, entre o que pode (e deve) ser mudado e aquilo que precisa ser preservado, sob pena de que sua própria essência e magia se percam.

7. Sobre o seu lado roteirista: como é escrever para o Cinema? Tenho a impressão que atualmente há mais qualidade nos curta-metragem do que nos filmes de longa duração. Pelo menos no Brasil eu sinto isso. Tenho visto alguns curtas de excelente qualidade. Assisti partes do seu filme “Os Sons do Divino e o Espírito Santo do Silêncio” e achei fantástico. De uma sutileza incrível. Singelo e forte ao mesmo tempo. Pode falar um pouco dele?

foto 4Como diz Marçal Aquino, um roteiro não vale um parágrafo de literatura, do ponto de vista do texto. Entretanto, hoje, o cinema é uma arte infinitamente mais poderosa e popular do que a literatura. A incursão do escritor no cinema é algo quase compulsório na carreira do escritor atualmente. Adoro cinema, por isso gosto de escrever roteiros, cujo grande desafio é expressar-se por meio de imagens em vez de palavras, apesar de as imagens seerem descritas pelas palavras no roteiro.
O curta está para o cinema como o conto para a literatura. Expressar-se de forma concisa é um convite para a iniciação na arte. No entanto, embora pareça mais fácil criar uma obra de menor tamanho ou duração, essa ideia pode ser uma armadilha. A narrativa curta exige uma enorme precisão.
Os Sons do Divino é uma conversa bem-sucedida entre literatura e cinema, uma vez que o roteiro é uma adaptação do conto homônimo, publicado no meu primeiro livro. A ideia básica é confrontar sons e silêncio. Acredito que há dois tipos de sons, os que expressam alegria, movimento, música; e aqueles que servem apenas para abafar o silêncio que nos conduz ao nosso interior e, portanto, a conteudos mais sombrios que habitam em cada ser humano. O silêncio também é dúbio. Há o silêncio da paz, da serenidade, aquele que reina em nosso interior e que, muitas vezes nos conduz ao divino, como na prece, na meditação. E há o silêncio angustiante do não-dito, de tudo que é reprimido. Talvez o grande trunfo deste relato seja justamente contemplar estes tipos distintos de sons e silêncios tão presentes em nossas vidas, ainda que ignorados pela maioria.

8. Sobre sua relação com a cidade de São Luiz do Paraitinga, gostaria de dizer alguma coisa?

Que sou apaixonado pela cidade, e que o motivo principal desta paixão é sua atmosfera de cultura, arte e história; somada a uma natureza exuberante e à sua localização geográfica, próxima de São Paulo, do maravilhoso litoral norte paulista, e de grandes centros como Taubaté e São José dos Campos.

9. De 6 a 7 de julho desse ano, ocorre um Festival de Filmes de Curta Metragem na cidade de Porto Alegre. Quantos Festivais Cinematográficos ocorrem no país? São Luiz do Paraitinga reuniria condições de criar um festival assim? A Comunidade cinematográfica apoiaria um evento cinematográfico em São Luiz?

Entendo que São Luiz seja palco ideal para diversas manifestações artísticas além da música, há muito consolidada na cidade, sua principal manifestação cultural e força motriz do turismo local. Há muito São Luiz é cenário para filmes, desde Mazzaropi, passando por José Mojica, até chegar à significativa produção recente de curtas na cidade. Como Roupa de Baixo, por exemplo, filme para o qual escrevi o roteiro, melhor curta-metragem do Festival MixBrasil desse ano, exibido recentemente em Toronto, no Canadá. Assim, acredito que já passou da hora de São Luiz ter seu próprio Festival.

10. Você andou por 15 capitais coordenando eventos. Isso nos anos 80.
No ano em que viajava, foi criado o padrão Ethernet de tecnologia para redes e ocorre a primeira videoconferência abordando a história das telecomunicações. A Apple lança o computador Macintosh. O filme “Idade da Terra” é lançado pelo Glauber Rocha e o livro “O nome da Rosa” é publicado por Umberto Eco. Qual era a sua interação com o Brasil em 80? Seus sonhos daquela época se realizaram?

Andei não só por capitais, mas pelo interior do país. E acredito que isso me deu uma visão profunda de Brasil que vai muito além daquela que nos chega pela telinha da TV e afins. Vejo os anos 1980 como revolucionários, sobretudo no comportamento. Entretanto, como abordo no conto “Mais um ano que não terminou,” publicado no meu primeiro livro, vejo os 80’s como algo que começa como um conto de fadas e termina como imensa frustração. As principais razões disso são o veto às eleições diretas em 1984, a morte de Tancredo Neves, que culminou na ascensão de José Sarney – um dos maiores cânceres da história política brasileira – e o surgimento da AIDS, transformando em pesadelo a liberação comportamental, sexual e o otimismo político que se vivia na época.

11. Sua vocação te faz ser um observador profundo das humanidades. Sabemos que atualmente reside em São Luiz do Paraitinga, cidade que ganhou sua afeição, a ponto de aceitar trabalhar nela como Secretário da Cultura. Que dificuldades encontra nessa função?

Minha experiência no poder público me fez entender porque pouca coisa funciona direito neste país. Todos os vícios, entraves, a imensa burocracia e a consequente inércia do Estado. E que nem sempre o técnico, o profissional, o bom administrador, consegue exercer satisfatoriamente funções dentro do poder público se não tiver dotes políticos. A meritocracia no setor público é uma balela.

12. Recentemente estive em São José dos Campos, no ponto de cultura BOLA DE MEIA. Celso Pan, dono da casa onde ocorrem os encontros e integrante do Grupo Bola de Meia, nos presenteou com um debate acerca da Vanguarda Paulista. Movimento que ocorreu em São Paulo na década de 80, da qual ele era integrante. Como paulistano, pode nos contar alguma coisa sobre esse grupo?
Qual é a sua relação com a cidade de São Paulo atualmente?

Não posso acrescentar muito ao que foi a Vanguarda Paulista. Exceto que era fã de alguns de seus ícones.
Minha relação com Sampa hoje é de amor e ódio. Talvez sempre tenha sido assim. Sinto falta de São Paulo quando passo períodos longos em São Luiz. Mas alguns dias na cidade são suficientes pra me despertar o desejo de voltar correndo pra São Luiz. Problemas como o trânsito, a violência, o déficit habitacional, a questão hídrica, fazem de São Paulo uma cidade inviável. Por outro lado, a riqueza cultural e artística da cidade não têm paralelo em nenhuma outra cidade do mundo.

13. Podemos chamar a Cultura Brasileira de comprometida? Ela tem um viés político? Está antenada com o momento?

Não. Entendo que uma pequena parte da cultura brasileira é comprometida. Um exemplo gritante de comprometimento que me vem de imediato à cabeça é Anna Muylaert com seu filme “Que horas ela volta?” Talvez a obra que melhor retrate o momento político e social brasileiro sem sequer falar em política, sem ser panfletária, sem ser óbvia, sem ser partidária.
Tratando especificamente do meio literário, considero uma excrecência a falta de engajamento da maioria dos escritores brazucas da moda. Esquivam-se de questões políticas, preferem seguir conjugando verbos na primeira pessoa ad-infinitum, falando e olhando sempre para seus umbigos, seus projetos, enfatizando seus ralos sucessos.

Post Comment