Arte Entrevistas Literatura Música Teresa Bendini

Entrevista com Decio Zylbersztajn

ENTREVISTA COM DECIO ZYLBERSZTAJN do “Duo Vereda Violeira”

DECIO ZYLBERSZTAJN nasceu em São Paulo em 1953, no bairro do Bom Retiro. Estudou na escola pública, que ao final dos anos sessenta tinha excelentes mestres, que o motivaram para as artes e ciência.
No início dos anos setenta, foi estudar Agronomia na ESALQ em Piracicaba. Retornou para São Paulo, onde trabalhou como Economista Agrícola, tendo feito estudos de pós-graduação na USP e nos Estados Unidos. Foi professor visitante nas universidades da California (USA), Wageningen (Holanda), Perugia e Benevento (Itália). É professor na USP.
Junto com Roseblue, sua esposa, criou o Vereda Violeira, um duo de viola cabocla e voz que resgata a música tradicional raiz. Tive o prazer de conhecer o casal (Decio e Rose) em CRISTINA (MG), durante o I Festival Literário realizado em abril último. O casal aprendeu a tocar viola após os 53 anos. O professor, “Lucas Torneze” tinha 17 e era solista. Foi ele quem incentivou o casal a integrar a Orquestra Paulistana de Viola Caipira regida por seu pai, Rui Torneze.
Logo resolvem aprender a cantar e preparam suas vozes com o objetivo de gravar um CD. Em 2005, o CD está pronto. Assim nasceu o DUO Vereda Violeira.
Nessa entrevista que ocorreu após nosso encontro em CRISTINA, Decio fala um pouco mais da sua ação artística e revela seus projetos literários.

Teresa Cristina Bendini Entrevista:

– Quem canta seus males espanta…ser parceiro na música ajuda na parceria conjugal?
Acho que ao cantarmos e tocarmos viola juntos nós melhoramos a nossa humanidade. A música veio para ajudar a recuperar o tempo “humano”. Certamente teve reflexos nas outras dimensões da nossa vida, entre elas a parceria conjugal. Aliás, parceria é um bom nome.

– Como vocês se envolveram na música caipira ou regional?
Vivemos muitos anos em regiões marcadas pela música raiz, seja em Piracicaba, seja nos Estados Unidos onde vivemos por quatro anos na Carolina do Norte. A música raiz de diferentes paragens mantém um diálogo calcado em valores de simplicidade que caracteriza o homem rural. Atualmente vivemos em São Paulo, cidade que tem um movimento violeiro muito forte.

– Queria que falassem sobre Gonçalves e sobre as ações que envolvem o SARAU organizado por vocês nessa cidade.
Nossa presença em Gonçalves tem mais de 30 anos. Fomos atraídos pela beleza da Mantiqueira, que sempre nos encantou. Tentamos apoiar ações culturais sempre que pudemos. Criamos, em conjunto com amigos, um Centro Cultural no Bairro da Terra Fria com biblioteca e centro de informática. Este projeto foi descontinuado o que nos causou tristeza. Criamos o movimento do Sarau de Viola e Poesia que conduzimos durante cinco anos e atualmente é liderado pela responsável pelo escritório de cultura da prefeitura. Este projeto motivou músicos e poetas locais a participar, trazendo as mais diversas manifestações.

– Acho que colaboram para fortalecer o “LOCAL” com ações que impedem a massificação da cultura. Podem falar um pouco disso? As ações individuais são mais compromissadas do que as institucionais?
A cultura reflete o povo local, suas experiências, história, religião, desejos e expectativas. As novas gerações sofrem verdadeiro massacre cultural a partir das mídias de massa, nem sempre interessadas em valores culturais.
Os movimentos que existem na musica, literatura, dança, teatro, caminham no sentido inverso. O sentido do enraizamento das pessoas, como bem tratou no seu livro o músico Ivan Vilela (Cantando a própria história – EDUSP 2013). A arte ajuda a enraizar, trazendo para os indivíduos o equilíbrio perdido pela chamada cultura de massa. Devemos trabalhar para trazer a sociedade a produzir cultura e não apenas consumi-la. Todos somos protagonistas, em alguma medida.

– E o trabalho com os idosos? Poderia falar um pouco sobre isso?
À partir de 2015 resolvemos iniciar visitas a lares de idosos sempre que possível.
A ideia é levar a música de viola caipira e interagir com um público muito especial.
Fizemos esta ação em várias cidades como Cambuquira, Diamantina e Cristina, além de São Paulo onde fizemos a primeira experiência.
A cada apresentação, muitas novas emoções. Aprendemos alguns truques a respeito dos ritmos melhores e da duração dos eventos, que não podem
ser muito longos. Esta atividade tem a cooperação de amigos que nos indicam os locais e nós preparamos os encontros.
Não temos dúvidas em dizer que somos nós os maiores beneficiados.

– Que tipo de evento produzem em São Paulo? Vocês residem lá?
Moramos em São Paulo onde temos atuado em duas frentes. Eu com a literatura, tenho participado em atividades que fomentam a leitura e a escrita. A escrita ocupa a maior parte do meu tempo atualmente. Na música eu e Rose mantemos o Duo de Viola e Vozes, Vereda Violeira, que organiza Saraus e apresentações com repertório baseada na boa música brasileira, cobrindo de Raul Torres a Gonzagão, de Elpidio dos Santos a Chico Buarque e Edu Lobo. Fizemos SARAUS na Casa das Rosas, no Teatro Sergio Cardoso, no Clube do Banco do Brasil e na Fundação Diva e Carlos Pinho.

– Dizer que a Viola tem a cara do Brasil (Reportagem do Globo Rural – Professor de Economia da USP resgata Viola) implica em dizer que a interdisciplinaridade está presente na VIOLA, e na cultura que ela representa?
No seu blog há um artigo sobre INTERDISCIPLINARIDADE. Rapidamente, poderia definir o termo?
A Viola é também interdisciplinar?
Creio que podemos olhar para a viola sobre diferentes óticas. A sua construção exige conhecimento especializado de luteria, a sua execução permite e exige o estudo da música, a busca de repertório nos leva ao estudo das manifestações culturais mais diversas que existem no Brasil, a sua ligação com a história do Brasil nos permite conhecer detalhes da colonização refletidos no surgimento dos diferentes ritmos, o surgimento de organizações especializadas como são as orquestras de viola ensejam o estudo econômico da produção artística.
Ou seja, como todas as manifestações culturais podemos sim, lançar mão de um olhar interdisciplinar.

– Fale um pouco da sua confecção. Como é possível encontrar um instrumento de qualidade? Certa vez levei meu primo que toca violino até uma Escola da Rede Municipal de Taubaté. Ele teve que explicar aos alunos sobre a confecção do violino. Nessa ocasião ele nos contou que a corda desse instrumento precisa da crina de cavalo. Como é confeccionada a Viola Caipira?
Existem poucas indústrias que produzem a viola cabocla ou viola caipira em larga escala. Algumas tem linhas de violas muito boas como é o caso da Rozzini de São Paulo.
O papel dos luthiers é muito relevante. Temos muitos pelo país, em cada estado e região. A técnica de produção é similar a adotada para o violão e existem algumas violas que alcançam preços muito altos. O trabalho artesanal merece ser valorizado.
Não me consta que se utilize crina de cavalo na viola, esta é utilizada no arco do violino. Existem sim muitos causos sobre a viola como o uso do guizo da cascavel dentro da viola e as fitas coloridas, cada qual com o seu significado.

– É possível manter essa tradição ou seja, o jovem de hoje se interessa por esse instrumento?
Basta olharmos as orquestras de viola para observarmos que os jovens estão motivados.

– A Viola caipira teria um viés ambientalista? Afinal ela nos remete a natureza e a uma cultura que precisa ser preservada. Fale dos seus mestres, dos violeiros que te inspiraram.
A viola atualmente não pode ser produzida a não ser a partir de madeira com origem oficial. Boa parte delas utilizam madeiras importadas da Europa e do Canadá. O trabalho do Rubens Gomes que criou a OELA em Manaus merece ser citado. Trata-se de uma escola de lutheria para crianças e só utiliza madeiras amazônicas produzidas em manejos sustentáveis com certificação ambiental.
Mestres existem muitos. Certamente esquecerei alguns nomes. Apenas para citar alguns; Renato Andrade, Tião Carreiro, Paulo Freire, Roberto Correa, Tavinho Moura, Ivan Vilela, João Paulo Amaral, Arnaldo Freitas, Pereira da Viola e tantos outros.

– E o CD VEREDA VIOLEIRA? Falem um pouco dele.
O CD nasceu do nosso trabalho de pesquisa e foi produzido pelo maestro Mario Campanha. Reflete o nosso desejo de aprender a tocar viola e levar a música para o público interessado. Acabamos de gravar o segundo CD que terá o título de “Enveredando”.

– Das cidades visitadas, quais te emocionaram? Fazem pesquisa musical? Conversei com o Paulo Freire certa ocasião e ele falou dos toques de viola que pesquisa nos grotões do país. O que acham da viola nordestina? Parece que é mais difícil…o som que sai da viola nordestina é mais requintado?

Gostamos de rodar pelo Brasil, de modo particular dedicamos os últimos anos a conhecer Minas Gerais. Em cada localidade, um aprendizado. O Paulo Freire andou pelo sertão do Urucuia e trouxe importante contribuição ao seu trabalho.
Nos andamos pelo Brasil sempre com os ouvidos atentos. A variedade de ritmos, sons, batidas, é enorme. Assim como a variedade de pessoas incríveis.

– Sabemos que são educadores e pesquisadores da música, da arte e também transitam na esfera da Ciência. Poderiam falar da experiência que tiveram na Educação traçando um paralelo com os dias de hoje?
A Rose atuou por décadas no ensino médio e eu no ensino superior.
Ao longo do tempo fomos trazendo o trabalho cultural para compor a nossa experiência de vida. Eu sou Engenheiro Agrônomo especializado em Economia Agrícola. Ainda atuo na USP como Professor Senior.

– Vi no seu Blog zylberblog.wordpress.com vários artigos interessantes. Acredita que as novas mídias podem ajudar na formação de opinião, e na construção de um pensamento mais questionador?
Certamente as tecnologias de comunicação nos abrem novos caminhos para a interação.
O uso de sitios especializados, blogs, imagens no Google, facebook, entre outros, nos permite ampliar o alcance do nosso trabalho e também conhecer o trabalho de pessoas que não conheceríamos sem tais tecnologias.
Cabe cuidar para selecionar bem e separar o joio do trigo.

– Quanto ao seu LIVRO: ” Como são cativantes os jardins de BERLIM”, confesso que li o conto que deu nome ao livro e fiquei extasiada. A gente tem vontade da saber mais sobre cada personagem. Investigar a alma de cada um, torna-se uma necessidade. Ele é o seu primeiro LIVRO?
Teresa, o livro é o primeiro sem considerar a minha participação em coletâneas. Na vida acadêmica tenho vários livros escritos sobre economia agrícola, estudos econômicos do direito e agricultura.
No momento o segundo livro, “Troca de Pele” está nas mãos do editor e eu iniciei o trabalho do primeiro romance que exige uma pesquisa histórica a que me dedico no momento.

– Tornar-se um contista após os 60 anos é algo instigante. A maturidade aprimora a escrita? O escritor sempre é um observador. Nos contos os personagens foram criados ou são reais? O que tem de ficção e de real no Livro?
Prezada Teresa. Eu acredito que a leitura precede a escrita. Neste sentido eu vivo a literatura desde a minha juventude. Na minha casa o livreiro nos visitava todas as semanas trazendo os romances que a minha mãe lia (e ainda lê aos 90 anos). A escrita ganhou corpo quando eu decidi que deveria diminuir a intensidade da vida acadêmica. Eu dei um salto no escuro, pois deixei uma carreira bem sucedida para a qual poderia me dedicar por anos vindouros. Não me arrependi.
Tal como afirma o escritor argentino Ernesto Sábato”, citado no meu livro de contos, ….”a literatura é uma maneira, talvez a mais completa e profunda, de examinar a condição humana”.
A literatura e a arte vão além da ciência. A experiência é importante, creio que ajuda a criação literária. Entretanto existem escritores jovens cujo trabalho causa enorme impacto. Os personagens que habitam a minha escrita são inspirados na vivência, ou seja, se não existe, poderiam ter existido.
Não passa o mesmo com todos os escritores?

– Parece que os contos tem uma característica ardilosa, quase pecaminosa. Não li ainda os demais, mas fiquei com essa impressão. Estou certa?
Teresa, talvez o erotismo apareça em alguns dos contos. Em outros trabalhei outros elementos da alma humana.
O Dr. José Afonso da Silva (um grande constitucionalista brasileiro) com a experiência dos seus 90 anos escreveu na apresentação do meu livro que Helena, personagem do conto “Encruzilhada’ , foi a que mais o impactou. Esta velha senhora prima pela alegria de viver, que talvez tenha um paralelo com o erotismo.

– O Livro foi muito bem produzido pela REFORMATÓRIO, editora do Marcello Nocelli. Como fazer para adquiri-lo?
Esta sua pergunta é a mais difícil de responder pelos autores brasileiros. O livro está disponível nos sitios da Livraria Cultura, da Editora Reformatório ou direto com o autor (dezylber@usp.br). Algumas livrarias podem ter o livro disponível em exposição nas lojas. Para quem aprecia, existe versando em @book na Cultura.

– Como enxergam os FESTIVAIS e FEIRAS de Literatura? Sobre o Festival de São Francisco Xavier a se realizar em junho próximo, parece que foram convidados. Marcarão presença com o Duo Vereda Violeira?
Acho que as feiras literárias são importantes mecanismos para a formação de leitores e para a integração entre leitores e autores. Talvez tenham ficado glamourizadas em excesso, no sentido de que o mais importante deve ser a obra e não o autor.
Mas se o contato direto ajuda a movimentar o mercado editorial, se ajuda a estimular a leitura, se ajuda a trocar ideias sobre literatura, que sejam bem vindas as feiras.
O festival de SFX já havia chamado a minha atenção pela qualidade dos participantes. O concurso de literatura é organizado por uma editora de São José dos Campos e conta com o apoio de academias de literatura de várias cidades do Vale do Paraíba.
Fui convidado por ter sido premiado no concurso de 2016 com o conto “Acerba Dor”. Haverá uma sessão de premiação no sábado pela manhã (dia 18?).
Quanto as violas, elas sempre nos acompanham. Vamos achar um espaço para tocar.

– E seu LIVRO: Como são cativantes os jardins de Berlim, ele estará a venda lá?
Espero que sim. Dependerá do nosso editor.

 

Post Comment