Arte Literatura Milton T. Mendonça

O bêbado

Por Milton T. Mendonça

Ele estava feliz. Em paz. As mãos macias daquela garota sensual massageavam seu corpo. Sua respiração, um pouco acre, talvez pelo esforço de pressionar seu tórax, bafejava-lhe o rosto. Mas nada tinha importância naquele momento. A promessa de um relaxamento total o fazia sorrir por dentro.

Com os olhos fechados, ele apenas sentia as mãos deslizarem suavemente pelo seu braço o forçando mais próximo ao corpo. A pressão nas pernas o incomodava um pouco. Mexeu-as com dificuldade, imaginando a garota sentada sobre elas e isto o excitou ainda mais.

Sua cabeça rodou o deixando tonto por um breve momento. Tentou se lembrar o que tinha no copo desta vez, não conseguiu.

O médico não se cansava de pedir para ele parar de beber. Mas o que importava viver um pouco menos se o prazer compensava? Sempre respondia em tom de brincadeira.
Até tentou lhe explicar sua filosofia, mas não conseguiu. O que importava tudo isso: mulher, filhos, netos? Eles queriam mesmo era sua herança. Não ligavam para ele!

Lembrou a rua em que passou cambaleando; o carro já não usava mais. Sair para beber só se for a pé – ela dissera. Mulher mesquinha – resmungou para si mesmo. Deve ter um amante escondido por aí. Deve estar nesse momento em seus braços. Irritou-se por um instante, mas deixou pra lá.

Sentiu a menina tocar seu pescoço. Relaxou, esperando o momento de também tocá-la, massagear-lhe os seios, beijar sua boca. Sorriu.

Um forte puxão levantou sua cabeça, a mão da garota roçou sua nuca. Lembrou-se do escuro. A trilha estranha que se enveredara para cortar caminho. O viaduto antigo, depredado, pichado, no fim da trilha. Lembrou-se de ter se sentado para descansar. O corpo cansado não agüentava mais nenhum passo. A menina o encontrara bem a tempo e o levara de lá, antes que dormisse e seus filhos ficassem escandalizados por ter que ir buscá-lo mais uma vez. Meninos cruéis! Só queriam sua herança. A raiva encher seu peito comprimido pelo peso da criança que o massageava.

Algo tocou sua boca. Um beijo? Chegara a hora do prazer supremo? Tentou corresponder, mas sua língua ficou presa em uma superfície macia, pegajosa.

Estranho – pensou – forçando as pálpebras para que se abrissem. Uma luz suave entrou em sua retina, ao mesmo tempo em que uma sombra negra invadia seu campo de visão e ele viu: Uma imensa aranha o enrolava em sua teia. Um grito sufocou sua garganta.

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