Editorial Elizabeth de Souza

Só Anúbis…


Não tive coragem nem de comentar a cena de horror nas redes sociais a respeito da ex primeira dama Marisa Letícia. O espetáculo de horror de internautas fazendo comentários absurdos a respeito de uma vida humana. Na verdade, não se tem palavras para definir esses umanos da nossa era. Eram humanos? Não dá para identificar que seres são esses. Já nem simpatizo com eles e fiquei mal, me senti envergonhada, dolorida, por estar nesse meio, assistindo os últimos sinais da decadência.
Mas tenho que sobreviver entre os escombros e por isso, a poesia vem para alentar e dar ânimo para seguir…só não se sabe pra onde.

Carlos Drummond expressou de forma magistral esse sentimento:

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Elizabeth de Souza

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