Arte Literatura Ronie Von R. Martins

Escrever mundos


Ronie Von Rosa Martins

Podia ser um sonho. Gostaria que fosse. Ou podia ser aquele momento antes da morte. Esse ele não gostaria. Não que a vida fosse aquela coisa toda. Mas era. A vida. Tudo o que tinha. Pois de resto não tinha mais nada. Ou achava. Sempre se tem alguma coisa. Pra barganhar, pra vender, pra penhorar. Pra emprestar? Livros. Tinha muitos. E poeira e ácaro. E só.
Na verdade a palavra só… não era ideal. Pois era tudo. Os livros. Pra ele, mais até que a vida. Que não tinha. Ali onde se respira, come, procria, conversa, dorme. Não era esse o mundo. Dele.
Era outro com certeza. Criado. Inventado. Perigoso mundo onde as letras e a imaginação brincavam de inventar vida. Não essa, ou aquela que estamos acostumados. Mas outra. Intensa. A vida possível.
Possível sim. Pois a que aí está é impossível. Ele pensava. Impossível. Pois restringia, cérebro e corpo e sentimentos a uma rotina, a um esquema de sobrevivência que fazia a criatura viva, o vivente, definhar em potência, força e vontade.
A vida possível enfiava um dedo na barriga do tempo e o enroscava de acordo com sua vontade de potência. O tempo era parceiro das personagens, da intensidade de suas vidas. E qualquer impossível era agora possível. Mergulhar no buraco do coelho com a Alice, navegar no Pequod atrás do grande cachalote branco, passar oitenta dias em um balão ao redor do mundo. Roubar dos ricos e distribuir aos pobres. Hobbin Hood seria comunista? Socialista?
Pois é. Mas agora estava em perigo. Sentia. Seria o fim? Definitivo? O coração estava apertado. Ou estaria dormindo? Um sonho? Era sempre assim. Todo o dia. Nunca sabia se ia acabar, ou acordaria num sobressalto. Morrer é uma coisa muito injusta, ele pensava. Mas não acordava. Preso. Estava preso. O corpo não obedecia. Só o cérebro funcionava.
A morte seria aquilo? Pensar sobra a vida eternamente sem poder participar mais dela?
Seria isso? Ou melhor… Estaria no inferno? Não sentia dor. Apenas o coração apertado. Pesado. Angústia de não poder interferir em mais nada.
Tentou gritar. Mas não havia voz. Apenas uma sucessão de letras. Tentou de novo… e novamente aquela mesma sucessão de letras… a a a a agggg hhhhh!!! Seus olhos esbugalharam-se. Enormes. Brilhantes. Ele não era Ele. Pensou. Ele era o outro. O outro dele. Forçou a cabeça ferozmente para a frente. Ploft! La estava. Fora. Dentro. Então era isso…
Ele era uma palavra. Escrita. Na página. Do outro lado. “vivo”. E morto. O outro. Ou o Ele. Real.
Seriam um só. Ou seria apenas personagem dele? Como saberia? O corpo de carne constituído permanecia estático. Cabeça largada, olhos fechados. Boca aberta. Braços abandonados ao longo do corpo. Morto? Nessa vida? Morto?
Não havia mais nada além da linha sobre o espaço branco da folha. Então era isso. Interrompido. Morto também. Ambos. Criador e criatura.
Mas lembrava de suas palavras anteriores. Vida possível. Mas afinal de quem seriam as palavras, as frases. Dele ou dele? Quem era personagem de quem?
Vida possível. Vida possível. Ele então que era a palavra Ele. Dentro do seu mundo possível, com dentes, e garras, e pernas, e braços, agora constituído, rasgando dimensões literárias, fantasiosas, ficticias, se pôs concreto sobre a folha. Minúsculo, invisível em sua significância real. Mas ali estava. Poeira, molécula… coisa qualquer… e mergulhou.
Boca adentro da morte que esperava. Afogar-se. Desesperar-se com outra vida. Com outra possibilidade.
Cabelos arrepiando, elétricos. Olhos que pareciam ter voltado de funduras nunca antes visitadas.
Um salto da cadeira. Uma mão na caneta. Uma lágrima no olho. Uma palavra no papel… logo mais uma…. e em seguida um mundo que se criava…..

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