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Os cantares da alma?

 

O canário em seus dias de velhice. Já não enxerga nem canta mais, quem sabe ainda alcance o verão.
Só voa em sua imaginação. Sonha com dias de pássaro livre em outra vida. Neste outono o belo canário, no fundo da gaiola respira – inspira-se sem sonhos e utopias, apenas vive.
Nem sabe das mazelas humanas, apenas vive. Não sabe do dia seguinte. Só o momento. Nem chora
por si mesmo.
Canário de inúmeras vidas , mais que de gatos. Já cantou por toda a vida. Na tristeza de uma gaiola,
canário do reino. Mas não sabe onde fica este reino. Em seu imaginar, voa. Este outono não ouvimos seu cantar. E quem sabe seus dias quase derradeiros se estendam até o próximo verão.
Triste dias de canário. Nem águia nem galinha como uma certa fabula de Leonardo Boff.
Eu, em dias de Fernando Pessoa. Eu que tenho em mãos um Carlos Drummond de Andrade “A rosa do povo”. E Pessoa se faz presente. Atravessar estes dias tristes não por causa da semana santa, mas de ver a vida se esvaziar em um canário. Que não merece a eterna gaiola. Caiu de uma árvore em um verão e veio alegrar nosso coração.
Quantas sombras em nossas vidas, sem os cantares da alma.
Vida sombria revela-se com seus inúmeros demônios, nos sonhos dos infelizes. Almas navegantes, tristes sem canção. Só o respirar tenso do canário.
Vida, sempre breve. Sem destino? Macabeia de Clarice Lispector. Macabeia sem futuro, sempre ausente. Cadê o velho cantar do canário? O canário no fundo da gaiola em seus dias de velhice. E o que é a vida? Meu caro Antônio Abujamra, hoje segunda-feira. Amanhã terça-feira e qual o sentido
do não sentido ?
Cade aquele Jesus Cristo criança de Fernando Pessoa?
Quero forças e orações nestes tristes dias de alma vazia. Eu ainda sombra sem alma. E por onde fica esta terra?  pergunta o canário.
Canário sempre presente na vida. Tristes dias de nossa desumanidade. Só nos resta o consolo dos
poetas.
Alma sempre em pranto. Só a lembrança do cantar do canário. Que importa ser ou não ser poeta. A
vida nos revela o destino de Macabeia?
Esperança de chegar a terra sem males. E fazer nascer o cristo em nosso dilacerado coração.

Joka

João Carlos Faria

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