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CONTEXTURAS (excerto do conto “Obscuro”)- lançamento em Lisboa

Em intenção dos nossos leitores e amigos brasileiros, publicamos aqui um excerto do livro de fusão de telas e contos, da autoria da pintora Armanda Alves (quadros) e Luísa Fresta (narrativas).

Com carinho, para vocês

“OBSCURO

A mulher sentou-se na mesa de sempre, com o seu chapéu de feltro de abas largas e uma fita de cetim. Envergava um sobretudo e uns sapatos pretos de verniz com laçarote à frente e um pequeno tacão em forma de cubo. O vestido de malha era sóbrio e justo, sem qualquer decote, e terminava pela altura do joelho por um minúsculo folho castanho doirado, tal como os fartos cabelos longos. Usava nesse dia collants de rede que faziam sobressair a perna bem torneada, que mal se adivinhava, dado o comprimento do casaco que nesse dia trazia entreaberto. Não fora pelo atrevimento do espesso batom, a sua aparência seria quase austera e de uma inquestionável elegância, raiando o despojamento dos trajes académicos.

Eduardo saudou-a com um beijo amigável e deixou-a acomodar-se uns instantes. Depois sugeriu-lhe uma bebida colorida com a suavidade habitual.

– Faz muito tempo que a senhora não aparece. Está tudo bem? Que bom que a senhora veio.

Ana sorriu sem esforço: o pernambucano era de uma doçura rara e adivinhava-lhe os pensamentos.

– Posso servir já ou está esperando alguém?

Estava à espera de uma amiga de longa data com quem não convivia há tempos.

– Espere mais um pouco, Eduardo, pode ser? Entretanto, vá preparando aqueles pastéis de camarão deliciosos. Ainda fazem?

– Se não fizessem eu inventava para a senhora! – concluiu o moço, e desapareceu atrás de uma nuvem de garrafas multicores.

Os pequenos abajours a pilhas continuavam a fazer parte da decoração, e aquela luz favorecia o rosto de Ana. Era uma belíssima mulher, mas sentia-se, não raras vezes, refém da idade, que teimava em manifestar-se de forma cada vez mais contundente: uma minúscula ruga aqui, uma variz incipiente ali ou um derrame junto ao tornozelo eram o suficiente para fazer perigar a jocosidade natural da professora.

Recordou os momentos passados ali com a amiga e confidente. Há exatamente um ano tinham estado a contabilizar danos pessoais e a projetar futuros improváveis. Ana tinha desenvolvido, desde então, uma carreira de modista, marceneira e designer, paralela à sua atividade de docente, que consistia em reciclar peças que as pessoas já não usavam. Um vestido velho era transformado num avental, uma toalha rendia dez panos do pó, uma cortina fora de moda convertia-se numa bela toalha de mesa personalizada. Gavetas de armários desmanchados eram agora vasos, e portas de roupeiros sem uso convertiam-se em cabeceiras de cama. Parte das receitas desse micro-negócio eram investidas num pequeno atelier onde formava jovens artesãos que, por sua vez, perpetuavam e ramificavam o negócio nos seus bairros.

Maria chegou pouco depois, lépida e vestida com esmero. A sua imagem de marca era a simplicidade: a maquilhagem consistia num lápis azul brilhante que lhe realçava o contorno dos olhos e um gloss incolor. As duas amigas abraçaram-se com genuíno afeto e desdobraram-se em mútuos elogios.

Maria trabalhava agora como relações públicas numa pequena clínica de geriatria, especializada em apoio domiciliário. Para trás, deixava um passado obscuro e devastador de violência doméstica e maus tratos de todos os géneros. O marido abandónico e ausente que se tinha imposto, sobretudo pela supremacia financeira, era agora apenas uma lembrança longínqua enclausurada no jazigo da família. Com a herança, Maria tinha-se dedicado a mudar de vida e trabalhava de maneira verdadeiramente prazerosa, formando equipa com um médico e quatro enfermeiros e proporcionando estágios a auxiliares de geriatria que se iam revezando no apoio básico aos acamados.

As duas mulheres cultivavam uma sólida amizade que se fez mais exuberante diante das bebidas generosamente servidas pelo Eduardo.  Trocaram histórias e pequenos nadas, falaram de amigos e conhecidos, de detalhes dos seus dias.

Ana tinha refeito a sua vida sentimental com um homem muito divertido e generoso, depois de vários meses de perseguição de um antigo caso sem escrúpulos, do qual se libertou a custo. Tinha aprendido a ignorar soberbamente os missed calls desse fantasma, uma vez que as suas chamadas já constavam da lista negra permanente. Aprendera também a vigiar a própria sombra, mas as ameaças veladas e as insistências brutais e imprevisíveis só acalmaram quando passou a assumir publicamente o relacionamento com o seu atual companheiro, presente e protetor. Maria trazia um jornal enrolado, com diversos pequenos artigos sobre as atividades da clínica e testemunhos de alguns dos doentes que se deixavam fotografar.

– Conheces este? – perguntou à amiga. – este senhor de barba grisalha, está muito mudado, bem mais magro.

– Não pode ser. Tens a certeza? – exclamou a loira, e parou para reavaliar a expressão alheada do homem da fotografia, que exibia uns ombros descarnados. – Mas, o que é que ele tem? – continuou, já refeita do espanto. Não experimentava então qualquer sensação de solidariedade nem compaixão. Apenas uma leve curiosidade.(…)”.

2 Comments

  1. Luisa, que bacana!
    Se pudesse, iria no lançamento…Como adquirir o livro?
    Abração e boa sorte!
    Beth

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