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Isto não vem ao caso agora…

ISTO NÃO VEM AO CASO AGORA…

Mônica nasceu… não em berço esplêndido, pois isto só acontece mesmo em nosso hino… ela nasceu, como a maioria dos brasileiros, e mais ainda, como a maioria de sua raça, num humilde casebre, já caindo aos pedaços, na Rua XV de novembro. Acho que não deve existir uma única cidade nessa Terra Brasilis que não tenha sua “rua 15″… mas isto não vem ao caso agora, pois para o bem de nossa história, vamos nos ater apenas a esta XV de novembro em especial.

A pequena Mônica tinha inúmeros irmãos, pois seus pais, Renato e Urbana, seguiram a infeliz sina que acompanha os humildes como se fosse uma maldição: quanto mais pobre, mais filhos. Eu poderia passar horas discursando sobre quão importante é o planejamento familiar, quão é importante que as famílias de baixa renda e pouca instrução sejam apoiadas pelas autoridades, que lhes seja dado o mínimo de esclarecimento para que coloquem no mundo apenas bocas que possam alimentar, e não bocas que venham a passar fome, mas isto não vem ao caso agora, pois para o bem de nossa história, vamos nos ater apenas a esta família em especial.

Enquanto sua mãe cuidava da prole, seu pai batalhava duro, trabalhando “de terceira”, para colocar comida na mesa de seus entes queridos, pois ele tinha os olhos muito sensíveis e, para o bem de sua saúde, preferia descansar durante o dia e trabalhar assim que o Astro Rei se punha.

Calma, calma, feministas de plantão, a Dona Urbana não era “Do Lar” por imposição do marido… mas ela não tinha instrução alguma, nem o maravilhoso dom da leitura a pobre criatura possuía, o que dificultava a obtenção de um emprego para ajudar seu esposo, e não nos esqueçamos, que seus filhos eram em número tão grande, que seria mesmo impossível ela arranjar um tempinho para trabalhar fora.

A infância de Mônica, como ocorre com a maioria de nós, foi a melhor época de sua vida… passava todo o tempo a brincar despreocupadamente com seus irmãos, que, de tão numerosos, às vezes até tinham seus nomes trocados por nossa amiguinha. Ah, bons tempos da infância… dispor de uma energia quase inesgotável, ter como preocupação apenas qual seria a próxima brincadeira a ser desatinada, não possuir brinquedos caros, mas improvisar os seus próprios, o que nos faz dar ainda mais valor a eles… não ter a menor idéia do que significa “inflação”, “alta do dólar”, “crise européia”, e muitos “eticéteras” mais… aliás, nem o significado dessa tal palavra estranha nós precisávamos saber… para mim, isso era grego. Espere um pouco, já comecei a divagar novamente… estou misturando a minha infância com a de Mônica. A minha até que foi legal, mas isto não vem ao caso agora, pois para o bem de nossa história, vamos nos ater apenas a esta infância em especial.

Se bem que já falei da infância dela… chegou a vez da Era da Rebeldia, quando pensamos que sabemos muito mais que qualquer adulto, mas erramos muito mais que qualquer criança… a adolescência! Ah, meus amigos, essa já foi uma fase bem mais complicada, sabem como é, hormônios pululando, a sair pelos poros, somados a um pai bravo e superprotetor não resultam numa combinação nada harmoniosa. Mas Mônica aproveitava que o pai estava sempre trabalhando – ou cochilando quando em uma de suas raríssimas folgas – e, contando com a cumplicidade da mãe, dava suas escapadinhas ao anoitecer. Ela aproveitava essas baladas para curtir uns namoricos, mas nunca nada sério, ela estava na tal fase do “ficar”.

Mas isto mudou radicalmente quando ela conheceu Eduardo… bem moreno, de costas largas, ele logo chamou a atenção de Mônica, que desatou a jogar seu irresistível charme sobre o felizardo Edu. A conquista era questão de tempo, e acabou sendo mesmo. Tornaram-se inseparáveis, tanto que o pai de Mônica, vendo que realmente se gostavam muito, abençoou o namoro, que se oficializou, ficando mais firme do que nunca. Ah, como bem me lembro do meu primeiro namoro “pra valer”… bons tempos aqueles… mas isto não vem ao caso agora, pois para o bem de nossa história, vamos nos ater apenas a este namoro em especial.

Para demonstrar a todos o quanto já era madura, Mônica começou a procurar um trabalho, e por sorte, logo o encontrou. É lógico que sua sorte teve uma ligeira mãozinha da simpatia de nossa amiguinha… pois ninguém conseguia dizer “não” diante daquele sorriso radiante. Agora ela trabalhava em um enorme depósito, onde Mônica ajudava a separar os alimentos já perecidos. Ela estava tão feliz… era tão bom ajudar a trazer a migalha nossa de cada dia para casa!

Isso me lembra de meu primeiro emprego… hã? Certo, certo, isto não vem ao caso agora, e para o bem de nossa história, vamos nos ater apenas a este primeiro emprego em especial.

Tudo ia às mil maravilhas… o namoro, o emprego, o relacionamento com os pais… mas a vida às vezes nos é cruel…

Desde muito pequena, Mônica sempre ouvira histórias sobre um terrível mal que colocava a sua vida e a dos seus em risco… ela e seus irmãos deveriam estar sempre alertas, pois no mundo existia um monstro terrível e cruel, um assassino impiedoso que os mataria sem piedade, se tivesse a oportunidade. Mônica ouvia sempre com muita atenção as histórias sobre o monstro… sabia tudo sobre ele, que o ser malévolo podia trocar de cor tal como um camaleão, pois todos os que haviam tido a sorte de escapar com vida de suas garras, o descreviam com uma cor diferente. Ele também não possuía cheiro algum, o que dificultava que fosse descoberto quando se aproximava, e além disso, era muito silencioso e sorrateiro. Sua pele possuía frisos e nas costas ele possuía um estranho par de tiras… tiras essas que eram muito resistentes, já que diziam que elas não se soltavam por nada.

Eu queria falar dos meus monstros da infância, mas sei que irão me criticar mesmo, dizendo que não vem ao caso agora… está bem, concordo, e para o bem de nossa história, vamos nos ater apenas a este monstro em especial.

Bem, toda essa história de monstros amedrontava a pequena Mônica quando criança, tanto que ela tinha pesadelos com o ser algumas vezes, mas agora ela já estava crescida, nunca tinha visto monstro algum, e apesar dos constantes avisos dos pais e conhecidos para que sempre tomasse cuidado, ela se perguntava se realmente existiria tal ser abominável…

A resposta veio de forma trágica… Mônica, que mal tinha começado a sua vida adulta, deparou-se com o monstro quando estava absorta em seu trabalho diário… sim, era o mesmo monstro que habitava os seus pesadelos desde pequenina… ele estava ali agora, em sua frente, com toda a sua ameaçadora presença, como que para castigá-la por duvidar que ele realmente existia…

Mônica ficou paralisada de medo, e sequer teve tempo de gritar quando o ser mais temido por todos de sua raça – o terrível monstro de nome “Havaianas” – jogou-se sobre ela, esmagando nossa pobre heroína, sem piedade.

Em apenas um instante, todos os sonhos da pequena barata se foram… reduzidos a nada por uma terrível chinelada. Os sonhos de se casar, de constituir família, de fazer carreira no trabalho, de fazer seus pais se orgulharem dela… tudo se evaporou em apenas um segundo.

E o monstro chamado Havaianas voltou ao seu lugar, sem emitir um único suspiro de remorso, deixando o cadáver de Mônica ali, estirado no chão frio.

Ela nem sequer teve um funeral decente… seu corpinho foi varrido e jogado no lixo, por um ser estranho e gigantesco, que, dizem as lendas, sempre anda em parceria com o terrível Havaianas e é ainda mais horripilante que o assassino.

É meus amigos… assim termina o meu trágico relato… peço desculpas aos que entristeci com minhas palavras… mas isto não teria acontecido se vocês não insistissem tanto para eu me ater sempre a esta história em especial… e isso vem ao caso agora… é ou não é?

DALTO FIDENCIO
e pluribus unum

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