Arte Artes Visuais Cultura Popular Entrevistas Joka Faria

Entrevista com Andruchak

Essa entrevista com Andruchak foi feita em 2011 pelo Portal Entrementes.

Andruchak é artista plástico brasileiro, muralista. Sua atuação começa no Paraná e chega a São Paulo quando vem desenvolver seus estudos de mestrado e doutorado pela USP. Lecionou em Universidades como UNITAU, UMC, UNIVAP e UNIP, tendo participado de diversas exposições no Brasil e exterior. Criou o estilo Geometricista na arte da pintura. Em 2009 muda-se para Natal – RN para assumir a cadeira de Professor Doutor Adjunto e em seguida Vice-Chefe do Departamento de Artes da UFRN, a maior Universidade do Rio Grande do Norte e a segunda maior do Nordeste. Em toda sua carreira, Andruchak orgulha-se de seus murais em todo o país e continua a produzi-los.

De onde você veio ? (Cidade? Estado?)

Sou Paranaense, nascido numa cidadezinha chamada Capanema, embora tenha crescido em Cascavel, também no Paraná. Cheguei em São Paulo com o objetivo de estudar. Fiz mestrado na Poli-USP e Doutorado na ECA.

Qual a influencia da cultura pop no seu trabalho?
Como chegou a este colorido pop? (Já visto aqui em SJCampos); Como surgem?

Sempre gostei de cores alegres e isso foi sendo incorporado à minha arte.

Explique sua técnica.

Minha técnica varia entre o acrílico sobre suporte, seja ele qual for (tela, parede, madeira) ou utilizo cimento e por vezes argamassa para dar relevo à obra. Nesta técnica utilizo o estilo geometricista que é uma aproximação dos modelos matemáticos da geometria para a construção das formas. Além disso adiciono contornos multicoloridos e preencho as cores com pinceladas soltas e manchas criando um contraponto entre o certo e o irregular. Outro ponto importante são as descontinuidades e os arabescos que incorporam um elemento de liberdade particular ao trabalho.

Como se deu essa revolução na sua arte em relação ao local da pintura, os traços, temas, tamanho, etc que foge a  todos os padrões?

A questão dos traços, foram muitos estudos para se chegar ao estilo atual.

O tamanho, com pintura mural aconteceu meio que por acaso: numa das minhas viagens, eu acabava de sair da estação de trem em Amsterdã …

quando vi aquela enorme parede branca de um hotel, que mais parecia uma grande tela. Era uma parede diferente das demais que quase sempre se mostravam com adornos arquitetônicos e impressionantes. Aquela era lisa, parecia estar esperando algo. Naquele momento pensei em como ficaria uma grande pintura ali. Não tive coragem de propor sem antes verificar se eu teria mesmo a habilidade para tal proeza. De volta ao Brasil, experienciei minha primeira obra fora do padrão tradicional. Fiz um mural de 3x8m entitulada O rio. Uma obra composta de quarto telas menores formando uma construção maior. Começava ali uma nova etapa de minha arte.

Sofreu alguma influência de grandes mestres? Quais?

 Sempre gostei muito de Picasso, Miró, Aldemir Martins, Di Cavalcante, Portinari, Newton Navarro, entre outros. Mas sempre busquei desenvolver uma arte que fosse Andruchak. Nesta busca passei por 4 fases. Por volta de 1999 e 2000 comecei a tentar estruturar uma arte baseada em estudos geométricos. Em 2005 estudei mais de 2.000 artistas tentando não esbarrar em nenhum deles. Cheguei então ao atual GEOMETRICISMO, uma arte única, repleta de pontos específicos da minha construção imagética. Sofri a influência de todos e ao mesmo tempo a de nenhum.

Você se considera um novo Michelangelo do Séc. XXI?

Já ouvi a comparação com Picasso, com Di Cavalcante e até com Rivera, por conta do muralismo. Agora vejo você lembrar Michelângelo. Seria muita pretenção de minha parte fazer uma comparação com qualquer que seja o artista do passado e uma egolatria comparar com mestres da atualidade. A idéia não é a de achar comparações com eles. Meu trabalho já está espalhado por diversas partes do mundo e a cada dia parece ganhar mais espaço. Isso é o que importa. Tenho vendido muito bem e isso me deixa muito seguro. O que eu poderia afirmar é que me considero um Andruchak do século XXI.

O que é o Projeto Andruchak Arte Brasil e como surgiu?

Este é um projeto que surgiu como uma proposta de extensão no Departamento de Artes da UFRN onde eu produziria meus murais permitindo a integração e participação de alunos e pessoas das comunidades nesta minha arte. Seria uma forma em que os interessados sentiriam um pouco na pele o que é produzir um mural, seja em relevo ou uma pintura em acrílico. No início foi um pouco difícil pois todo artista tem um certo ciúme de sua obra. Permitir que outros interferissem, mesmo que de forma coordenada, não foi fácil. Mas depois percebi o lado cultural e o carinho dos participantes e tudo passou a funcionar melhor.
É um projeto que está espalhando arte e cultura Brasil afora.

O que é a Caravana da Cidadania Cultural?

A Caravana é uma das formas que o Ministério da Cultura encontrou para se aproximar da população, especialmente daqueles que participam da construção do país. É feito sob a coordenação de uma pessoa fantástica que é o Teotônio Roque.  São visitas que o ministro e seus assessores fazem aos estados, para ouvir e tentar resolver questões culturais. Fui convidado a fazer um mural a cada visita do MinC, a fim de registrar a estada do Ministério na região. O tema da obra é sempre inspirada na cultura local. Um trabalho muito interessante.

Como é a relação das artes e da política?

Essa pergunta já é um tanto ampla. Política nada mais é do que a organização de uma casa, de uma cidade ou de um país. Vejo o MinC muitíssimo interessado em alavancar nosso Brasil. Estou acreditando muito nesta nova fase que estamos entrando. Penso que as políticas públicas estejam cumprindo seu papel social e cultural de fomentar a arte e o crescimento de todos, mas precisamos o apoio e a participação das comunidades para que a coisa continue andando e chegue realmente onde desejamos.

Temos uma geração de artistas alienados politicamente? Como mudar este jogo?

Percebo uma certa competitividade de alguns artistas em relação a outros que conseguem um certo destaque. Normalmente são artistas que também desejam crescer, mas que acreditam que o sucesso de outros possa atrapalhar. Acho isso um erro gigantesco. Se um artista ganha destaque e passa a vender suas obras, isso acaba criando uma cultura de aquisição de obras de arte que poderá ser aproveitada pelos demais. Isso significa que deveríamos torcer para que nossos colegas artistas tenham cada vez mais sucesso pois isso irá culminar em nosso sucesso também. Mas nem todo mundo consegue ver este lado da moeda e acaba se prejudicando sem perceber. Perde de crescer, mostrar seu talento, ou descobrir a verdadeira vocação.

E o nordeste, como influencia hoje, sua arte?

Fixei minha base aqui em Natal no início de 2009, embora esteja fazendo meus murais em todo o Brasil. Notei que neste período passei a valorizar ainda mais as fronteiras estaduais e nacionais. Meus temas tem uma inspiração no sol do nordeste e nas praias que vivencio diariamente. Não tem como não se inspirar nestas dunas e paisagens fantásticas. É um povo muito hospitaleiro e feliz. Sem dúvida esta cultura acaba impregnada em minhas obras.

Como é sentir o Brasil fora de São Paulo?

Percebe-se o quanto ele é grande, imenso e rico.

Como vê o governo Lula ai no Nordeste?

O governo atual tem disponibilizado muitos recursos para estas regiões. O crescimento por aqui é fantástico. E tem muito artista de porte por estes lados. Fico triste com as notícias e escândalos financeiros no governo e em certos partidos, mas penso que aos poucos o povo acabará vencendo.

E as universidades públicas, como elas contribuem para o desenvolvimento do pais?

O ensino na universidade pública é muito forte e de uma qualidade impressionante. Não é à toa que todo mundo sonha com uma vaga. Os profissionais que aqui são formados ocupam os melhores cargos e são destaque onde quer que venha atuar. Espero que as vagas continuem a crescer para que cada vez mais pessoas tenha a oportunidade de mostra seu talento e ajudar a deixar nossa nação num patamar tão elevado quanto possamos colocar.

Andruchak no colinas

Como é São José dos Campos e o Vale do Paraíba visto de longe?

São José dos Campos tem diversas indústrias, tem nossa fábrica de aviões, tem o INPE, tem a Avibrás, etc. Muita gente por aqui sabe disso e respeita. Em Natal tem a Barreira do Inferno que tem uma ligação muito forte com o CTA. O Joseense, ou pelo menos uma parte, é que não sabe, ou ainda não se apercebeu que SJC é a menina dos olhos do país. Quando isso acontecer, SJC será uma outra cidade, pois ele terá muito mais orgulho e disseminará para as demais regiões, passando a ter o reconhecimento que merece. Eu mesmo sou um apaixonado por esta cidade, tanto que não vendi minha casa atelier, esperando uma possibilidade de voltar.

Considerações finais…

O Brasil é um celeiro de arte. Este é o nosso momento e não podemos deixar de aproveitar.

Com uma simples busca por “andruchak” na web é possível ver  e acompanhar seus trabalhos e sua trajetória. Ou visite os links:
www.flickr.com/andruchak

www.flickr.com/artebrasil

www.andruchak.com.br

 

Elizabeth de Souza

João Carlos Faria

Post Comment