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Crônica: Um dia como qualquer outro!

Por Milton T. Mendonça

É engraçado como a vida nos leva por caminhos estranhos. Às vezes me sinto como minhas personagens, sinto como se alguém estivesse escrevendo minha história.

Outro dia, coisa de três meses atrás, eu estava sentado em frente ao computador massacrando suas teclas, na tentativa infrutífera de escrever um texto quando de repente me deu uma vontade enorme de esticar as pernas. Sai sem rumo pela cidade quase vazia daquele sábado sonolento, inicio de noite, imaginando onde estariam todas as pessoas que algum tempo antes se acotovelavam para caminhar naquele espaço, àquela hora triste e solitária.

Com a cabeça cheia de maus presságios fui caminhando rápido, de cabeça baixa, dobrando as esquinas aleatoriamente, apenas seguindo o barulho dos meus passos. Ao virar à seguinte, entrei em uma rua sem saída. Parei meio confuso e ao levantar a cabeça, me surpreendeu estar bem em frente a um templo religioso. Sem pensar muito, apenas querendo me confraternizar com outro ser humano e sair daquele estado de espírito no qual me encontrava, entrei e me sentei no último banco. Celebravam naquele momento um culto religioso, que depois vim saber que era em beneficio da vida sentimental daquele punhado de gente que se aglomerava em frente ao altar.

Aos poucos fui sendo envolvido pela musica que era cantada lá na frente e chegava até onde eu estava com uma sonoridade especial pelo efeito da sua arquitetura. Mesmo percebendo a desafinação dos cantores, conseguia sentir uma delicadeza na letra e uma doçura na musica nunca percebida antes em qualquer outro lugar.

Conseguia ouvir a voz forte do pastor aconselhando os pretendentes a formar casais, exortando-os à fidelidade. Percebi que tentava desvendar os mistérios da vida a dois com exemplos de sua própria vida conjugal. Fiquei todo o tempo com os olhos fixos na massa compacta lá na frente e com os ouvidos nas palavras proferidas pelo sacerdote, com medo de perder alguma informação importante, o som precisava percorrer um enorme espaço vazio até me alcançar.

Quando percebi que o culto estava chegando ao final, me levantei e tentei sair sorrateiramente do local, mas não deu. Uma moça simpática me abordou e me ofereceu um frasco de perfume que deveria ser cheio ao longo de sete semanas. O líquido serviria para purificar, entre outros lugares, meu leito.

Voltei para casa me sentindo bem e enfrentei o silencio tenebroso do final de semana com outro ânimo. Aquele momento para mim era muito delicado, estava me sentindo sozinho, acabara de perder minha fantasia. Fingia que tinha alguém, e essa mentira me dava forças para continuar trabalhando nas minhas telas. Não tinha vontade de ter um relacionamento de verdade. Estava cansado das mulheres com suas inseguranças e exigências. Queria ficar sozinho, mas não queria me sentir sozinho. Por isso inventei uma musa que acabou me fazendo passar por situações bem constrangedoras.

Hoje entendo o perigo de se criar esse tipo de quimera. Podemos ser engolidos por ela, situação que quase aconteceu comigo. Precisei de um esforço sobre-humano para afastá-la para longe. Ainda tenho medo das noites chuvosas e frias, sinto-a por perto nessas ocasiões.

No sábado seguinte voltei ao templo com o frasco. Participei timidamente do culto e até arrisquei cantarolar junto com os demais. Fui embora me sentindo bem. Passei uma semana tranqüila, voltei na semana seguinte mais confiante e me sentei um pouco mais à frente.

O desconcertante nessa história é que não tive nenhum controle sobre os acontecimentos. A coisa foi acontecendo de uma maneira natural. Não planejei, não fiquei esperando o sábado chegar com ansiedade. O dia chegava, começava anoitecer, simplesmente me levantava da frente do computador e me dirigia para lá.

Foi no quinto ou sexto sábado, não tenho certeza. Ao me sentar no banco de costume olhei para trás e vi uma morena logo atrás de mim. Puxei conversa, ela respondeu. Eu estava sem bíblia, ela me convidou para sentarmos juntos. Ficamos amigos, estamos namorando.

Eu não sei se estou conseguindo fazer você entender o motivo da minha perplexidade. Quando eu pensava em namorar, sentia uma forte rejeição. Não queria uma mulher me dando ordens e nem atrapalhando minha rotina. Mas minha alma sentia insatisfação por estar sozinho. Sentia solidão. Principalmente nos finais de semana quando a cidade fica vazia. Então, essa mesma alma, ou meu inconsciente, ou seja, lá o que for, arrumou um jeito de resolver isso pra mim.

Mas, uma pergunta insiste em ser respondida: se essa coisa misteriosa resolveu o meu dilema, então não pode ser nem meu inconsciente e nem minha alma. Os dois (se é que são dois, pela definição parece que é tudo uma coisa só) só têm influencia sobre mim mesmo, não tem acesso a outras pessoas…, ou tem?!

Se não foi nenhum dos dois, quem ou o quê me dirigiu e influenciou criando clima e emoção tanto fora quanto dentro de mim mesmo para que tudo acontecesse como aconteceu? Lembrando dos acontecimentos percebo um sincronismo inteligente desencadeando os eventos. Consigo perceber certa pressão sendo exercida no intuito de me fazer obedecer a um comando – será que minha memória está me pregando uma peça?

Estou feliz! Não estou reclamando uma possível falta de livre arbítrio. Estou apenas perplexo! Afinal, queremos acreditar na existência do divino, do sobrenatural. Mas perceber isso de uma maneira tão inequívoca assusta. Isso não dá para negar!

Esta crônica foi publicada no Valeparaibano em 23 de julho de 2009…

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