A escrita de Ricardo Balieiro

A escrita de Ricardo Balieiro

Ricardo Balieiro, poeta, escritor e professor, nos manda aqui alguns de seus textos recentes. Uma prosa que reflete a atualidade, pois refletir nos faz agir…(Joka Faria).

“Nasci na cidade de São José dos Campos, SP, em 1976. Sou filho do Sô Zé e da Dona Horacina, que vieram de Minas para cá com oito filhos, quando meu pai teve que abandonar sua vida lá na roça para tentar a sorte como mão de obra barata em uma multinacional. Tenho a dádiva de ser pai do Alan, do Jorge e companheiro da Denise. Fui aprendiz de mecânico, auxiliar de produção, atendente de telemarketing, carteiro, educador de creche-escola e técnico em projetos culturais. Fui membro da saudosa Comissão Municipal de Literatura; participei do movimento Celebração do Renascimento da Poesia; trabalhei na
edição e na publicação do jornal literário Litter e do fanzine Poesia Industrial; Colaborei em projetos da Cia. Cultural Bola de Meia e publiquei a prosa poética Carta aos Amigos e as Mudanças, uma antologia de poemas. Sou professor,poeta e penso que cultivar poesia ilumina o caminho.” (Ricardo Balieiro)

FOCOULTIANA Nº 18 – GENEALÓGICA

cadê o progresso?
cadê a evolução?
nunca se sabe deles
é tudo uma longa disputa
mais imponente que eloquente
mais mordaz que audaz
e aí está!
a fala do vencedor
pra quem quiser

e pra quem não quiser

ouvir
o silêncio dos excluídos
no limbo da história
eis o fato:
feito
imperfeito
ou desfeito
o que se diz
e o que não se diz
todos os gestos
os atos
as escolhas
o silencioso verbo das omissões
o rataplã explosivo das opressões
eis a estrutura
eis os processos
o que cessa
o que se inicia
dos gametas às gavetas
dos ossos aos negócios
das fissuras às faturas
saldos e dividendos
do poder

escreviver raicais
consagrar
o eterno aquiagora

ricardo balieiro

(alguns raicais)

manhã de sol!
eu indo pro trabalho
desperdiçar a vida

______________

passarinho canta
onde?
aqui
ali
acolá
na manhã inteira

_____________
sol no meu rosto
faz-me olhar o c
h
ã
o

caminho
com as formigas!
_____________

num haicai do livro
um mosquito pousa e zoom
o raicai aos olhos
_______________

a flor de plástico
recebe a abelha
– péssima anfitriã

Prosa

Mal menor

Três bandos tomarão a cidade. Disputarão palmo a palmo o controle de cada metro cúbico dela, seja pela astúcia, seja pela violência.

Temos uma certeza: um deles invadirá a sua casa, fará uma devassa em sua vida. Isso é certo. Não adianta orar pra seu deus, não adianta apelar para a justiça, não adianta oferecer favores, prazeres sexuais ou suborno. Não adianta recorrer aos amigos influentes. Não adianta nada, já está determinado.

Um longo percurso histórico e cultural, incluindo questões socioeconômicas, impõe agora essa difícil situação. Escarafunchar esse percurso é enfrentar graves conflitos, caminhar na insegurança, lidar com sofrimento e confusão. É provável que algo pudesse ter sido diferente, mas não se muda a história como quem troca uma camisa. Quem sabe no futuro se construa uma consciência coletiva e saberes capazes de interpretar a história e movimentar a cultura de modo a construir um outro cenário? No futuro, pois agora é hora é de assumir essa consequência inevitável: três bandos tomarão a cidade.

Por ironia do destino, circunstância do acaso ou por uma conjuntura perversa, você poderá escolher qual bando assediará o seu lar. Eles são previsíveis e sabe-se pelo histórico de cada um o que pensam e como agem.

Se você escolher o primeiro bando, saiba que quando acordar pela manhã, eles já terão tomado sua casa. Alguns descansarão no seu sofá com o controle remoto da TV na mão, outros vasculharão seu celular e outros ainda terão ocupado a sua cozinha e prepararão um farto café da manhã, para eles mesmos, esgotarão seus mantimentos. Se você tiver algum dinheiro ou joia de valor em casa, esqueça, eles levarão. Comunicarão solenemente que terão acesso contínuo a todos os seus dados bancários e recorrerão a eles para movimentar sua conta sempre que julgarem necessário. Quando decidirem que é hora de irem embora, se despedirão rispidamente, avisando que voltarão qualquer dia e, pode acreditar, eles vão voltar.

Quem optou pelo segundo bando, ao anoitecer saberá com detalhes o que aconteceu com os infelizes que escolheram o primeiro bando. Dormirá satisfeito pela escolha que fizeram, pois até então não terá sofrido nada. No dia seguinte o noticiário trará um massacre de notícias sobre a crise. Logo verá a ruína do vizinho e de dois primos. Terá seu salário reduzido. Pagará mais pela luz, água, internet, gasolina. Verá mais caras as taxas de banco, terá que pagar a escola das crianças e rezar para ninguém ficar doente em sua família. A mesa não será farta com a comida tão cara. Você vai respirar aliviado, já que ainda teria o que comer, onde dormir, quando muitos já não o terão, contudo, sentirá o ar rarefeito pelo medo do futuro. Então, cada dia verá algo sumir de sua casa: uma cadeira, um sofá, uma TV, assim por diante, sempre no lugar do bem “desaparecido” encontrará uma placa escrito: “Penhorado”. Até que a casa estará vazia e a vida só dívidas. Trabalhará como um escravo para pagar dívidas que só aumentarão. Chegará o dia em que eles finalmente mostrarão a face. Te expulsarão de sua própria casa já hipotecada. Você tentará resistir, então eles te apontarão uma arma na cara e você terá que sair. Você não conseguirá pagar aluguel em outro lugar, tentará voltar e ocupar o lugar que era o seu lar. Eles não permitirão, estarão no direito deles, te levarão para a cadeia e logo te colocarão em liberdade. Sim, a lei te dará a liberdade. Na rua, sempre achará alguma coisa pra comer, cachaça, um banco de praça ou átrio de igreja pra dormir. Com sorte, poderá vigiar carros, vender balas, algo assim. Pelo mérito do trabalho, com a graça de Deus, você ou um de seus filhos – quem sabe? – poderá prosperar.

Já os que escolheram o terceiro bando, assim como aqueles que se abstiveram da escolha, serão interrompidos no almoço de domingo. Arrombarão a porta, aos gritos, com armas em punho. Vão te socar pra valer antes de te amarrarem. Estuprarão sua esposa e sua filha caçula, mijarão sobre elas, rindo, em sua presença. Defecarão em sua cama, em sua geladeira, espalharão fezes em todos os utensílios de cozinha. Defecarão em sua boca. Diante te seus olhos, espancarão seu filho mais velho até a morte, lentamente. Não te abandonarão depois disso. Você e sua família serão torturados por dias a fio. Sua filha mais velha servirá como escrava. A seu filho caçula será servido um banquete todos os dias. Ele será tratado como um rei e será convencido de que tudo seria em prol de um bem maior. Os castigos diminuirão paulatinamente. Então te libertarão. Antes de saírem, o seu filho caçula ao lado deles, te farão uma oferta: “Junte-se a nós e terá nossa proteção. Você ainda poderá libertar outras famílias, como fizemos com a sua. Mas se ficar contra nós, voltaremos para reeducar você e sua família. ”

Platão ensinou que não há problema em não gostar de política, apenas saiba que assim você será dominado pelos que gostam muito de política. Muito tempo depois, Maquiavel escreveu que política é a arte de escolher o mal menor. E hoje ainda estamos nessa situação.

Assim será. Pense nisso antes de escolher.


FÁBRICA DE LUTAS

(Ricardo Balieiro)

Eu tinha então 15 anos quando fui trabalhar como estagiário em mecânica de usinagem numa grande multinacional. Era minha primeira experiência no mercado de trabalho. Isso foi nos anos 1990, quando a União Soviética já não existia mais, o muro de Berlim já tinha caído e o neoliberalismo avançava em sua supremacia, agora sem a sombra, ou melhor, sem o antagonismo do comunismo. No Brasil, estávamos nesse cenário entrando na era do plano real. Todo esse contexto político, hoje sei, enredava no nosso cotidiano fabril.

Você se lembra de seu primeiro emprego? E de seu primeiro dia de emprego? Não é fácil, não é verdade? Somos tomados pela insegurança e a total inexperiência nos faz sentir idiotas. Eu estava assim. Além disso, eu sabia que tudo que meu pai queria era que eu trabalhasse naquela empresa e eu estar ali tão jovem me dava uma sensação de satisfação, de orgulho e de dever cumprido, mas também muito medo de não dar conta. Eu tinha clareza de que para me adaptar ali eu precisaria da solidariedade dos funcionários experientes, um bando de adultos que não precisavam de mim. Eu era tímido, mas procurava ser solícito; tentava mostrar iniciativa, mas não podia esconder minhas limitações técnicas. Quanto aos mecânicos, a reação deles era muito diversa: tinha quem ficava de cara feia pra eu manter distância; outros que fingiam que eu não existia; tinha quem me mandava ir ao banco; outros me inventavam serviços inúteis para me manter ocupado – desses últimos, alguns faziam o que faziam para que eu aprendesse alguma coisa, outros era pra tirar sarro mesmo; tinha aqueles que sempre inventavam motivo para me dar uma bronca; aqueles que ficavam fazendo piadinhas, a maioria delas de cunho sexual e machista. Mas teve um que assumiu, por si mesmo, a posição de meu tutor. Vou chama-lo aqui de Joaquim.

Joaquim era alto, forte e tinha cerca de 40 anos. Era casado e tinha três filhas. Era brincalhão, comunicativo, mas muito sério com o serviço. Sempre foi respeitoso e gentil comigo, sem deixar de ser exigente na qualidade dos trabalhos que ele me passava. Acho que foi um bom professor pra mim. Outra característica marcante dele é que ele morria de medo de chefe e odiava o sindicato. Eu confesso que também tinha medo dos chefes e isso era complicado porque para um estagiário de 15 anos havia muitos deles, mas, por outro lado, eu me sentia atraído pelo sindicato. Eu tinha lembranças esparsas das Diretas Já, da Assembleia Constituinte e das eleições de 1989; fazia pouco tempo que acontecera o fora Collor, evento muito explorado pela mídia; eu tinha um irmão mais velho que fazia parte do sindicato; no mais, eu já era roqueiro numa época que ser roqueiro no Brasil era ser de esquerda, pelo menos que eu soubesse. É possível que isso influenciasse em meu apreço pelo sindicato.

Quando tinha assembleia, eu sempre parava para ouvi-los, lia os folhetos, refletia sobre o que estava sendo dito, observava as movimentações. Adorava tudo aquilo. Já o Joaquim passava correndo, resmungava alguma coisa desaforada e quando lhe entregavam o panfleto não pegava e ainda perguntava irônico: é dinheiro? Naquele momento, meu tutor nem pensava em cuidar de mim, felizmente. Ficava óbvio que tudo o que o homem queria era sair logo dali, não ser confundido com um simpatizante do sindicato e assumir seu posto de trabalho. Imagino que isso tudo era um grande estresse pra ele, mas é claro que eu nem ligava pro Joaquim naquela hora. Quando nos encontrávamos na oficina, ele estava emburrado comigo, falando áspero, apenas o necessário e, em algum momento, bronqueava:

– Vai na onda desses caras pra você vê!

Ou então:

– Você acha que é isso que seu pai espera? – Isso era golpe baixo, porque eu sabia que meu pai pensava e agia igualzinho ao meu tutor voluntário.

Ele não era de fazer sermão, ainda bem. Mas sempre emendava uma frase de efeito a fim de me alertar do perigo e para me repreender por ouvir o sindicato. Depois de um tempo esquecia e tudo voltava ao normal, pelo menos até a próxima assembleia.

Preciso relatar, contudo, que o meu amigo e meu pai não eram casos isolados ali. Na verdade eram maioria. Até havia quem defendia a luta sindical e tentava convencer os colegas, mas compunham vozes dissonantes. Era comum ouvir nas rodas histórias de greves malsucedidas, de gente que perdeu o emprego e o sindicado não ajudou, de gente que sofreu assédio durante uma campanha salarial, penou e não conseguiu aumento. O negócio é trabalhar, pois sindicato não resolve nada, diziam. Outros destilavam raiva pela estabilidade do sindicalista: “O cara não trabalha!” Outros ainda tinham pretensões: quem sabe um cargo de encarregado? É legítimo querer melhorar de vida, mas muitos desses últimos não eram confiáveis, trabalhavam contra tudo que o sindicato propunha. Na mesma proporção em que negavam as possibilidades de ganhos coletivos para os trabalhadores através da luta sindical, preservavam um ambiente tóxico de competição e trairagem.

Lembrei-me agora que quando eu era criança, no início dos anos 80, outro irmão mais velho estava para se casar. Tinha um ótimo emprego numa multinacional e meses antes do casamento pediu para ser mandado embora porque queria encontrar um trabalho melhor. Garanto que ele não era nenhum aventureiro, pelo contrário. É que a realidade econômica do país, numa cidade industrial como a nossa, permitia esses riscos. Em um mês estava empregado em outra multinacional e ganhando mais.

Já nos anos 90, em que pese o recente controle da inflação, o desemprego era grande devido à crescente desindustrialização do país e também por já estar implementado um modelo de produção industrial altamente automatizado, o qual não demandava mais um exército de proletários para produzir. Assim, muitos postos de trabalho vagavam. Outro grande problema para o trabalhador da época era o crescente processo de terceirização da mão de obra, precarizando drasticamente os direitos e rendimentos trabalhistas. No setor onde eu trabalhava, um mecânico de usinagem tinha um bom salário para a média da renda nacional. A empresa então demitia os mecânicos efetivos e contratava uma empreiteira. O problema é que o novo trabalhador, empregado da empreiteira, ganhava três vezes menos que o antigo. Às vezes era um ex-funcionário que voltava para o posto, agora terceirizado, sentindo-se vítima de injustiça e humilhação. Isso era regra nas empresas.

Esses fatores tinham consequências no comportamento e no aspecto psicológico dos trabalhadores. Primeiramente pairava um grande medo de perder o emprego. Não seria fácil encontrar outro, ainda mais em uma multinacional. Eles sabiam que teriam que trabalhar ganhando absurdamente menos em uma empreiteira, ou pior, poderiam ficar desempregados. Por isso eu compreendia Joaquim, meu pai e os outros.

O sindicalismo brasileiro se estabeleceu no ambiente fabril, cresceu, se fortaleceu e dele surgiu o maior partido de esquerda do Brasil, o qual hoje já faz parte do establishment político. Se naquela conjuntura o sindicalismo já dava sinais de enfraquecimento, hoje o quadro é ainda mais complicado. Cada vez é mais difícil o contrato em grandes fábricas e quem está admitido, em geral, não está disposto a correr riscos, está empenhado em manter o emprego, essa é a sua luta, ele é conservador e individualista. O sindicato ali continua com sua importância, mas com influência cada vez menor e, no cenário descrito, com poucas chances de crescer a ponto de se tornar uma grande força de transformação. A situação não é fácil e, sem romantismo, a regra é a derrota. Sempre foi. Admito isso sem nunca desconsiderar que, por outro lado, tudo o que o trabalhador conquistou foi através da luta, sem nunca negar que esse é o único caminho possível.

Agora existe uma massa muito maior de trabalhadores fora desse mercado, buscando meios de sobreviver. Boa parte desses, trabalhando muito, na precariedade, enriquecendo alguém e acreditando que são empresários de si mesmos. Se não têm a tão sonhada prosperidade, têm ao menos a esperança. É possível que os sindicatos ainda não tenham aprendido a lidar com esses grupos, mas penso que é pra esses trabalhadores que devemos nos voltar. Intuo que nenhuma luta popular surgirá ou, muito menos, ganhará forma, força e relevância se não for ao lado dessas pessoas. São desses coletivos que surgirão novos líderes.

 


Do espírito laico

(Ricardo Balieiro)

Não me oriento pela crença porque ela é sempre a expressão dos desejos e medos do crente. Não que eu seja descrente, pois para descrer seria preciso antes que eu tivesse crido. Desacreditar seria então um investimento no outro lado da moeda, o que no caso, seria cansativo e inútil. O empenho na negação da crença, está no mesmo patamar dela e dela se alimenta. Imagine um jogo. Os adversários estão no mesmo campo, compartilham o mesmo ato. Estou fora desse jogo.

Isso não me impede de admitir que viver é sagrado. Essa consagração, esse arrebatamento do espírito, se dá através da maneira em que atuamos no mundo, do modo como convivemos. Essa convivência acontece aqui e agora num ambiente coletivo e plural. Não há outro modo. Eu sei que sou insignificante para a existência do planeta que é insignificante na imensidão da galáxia que é insignificante no infinito do universo, que é tão amplo que minha consciência sequer consegue significar. Somos então um amontoado de existências insignificantes? É bem provável. No entanto, um milagre acontece: sobra-nos um ínfimo espaço-tempo para manifestarmos essa vil existência, uma oportunidade para dar a ela um sentido. Percebemo-nos parte de algo imenso e, dentre inúmeras formas de ser, coexistimos. Enfim, temos uma vida a partilhar e, para tanto, preciso do outro e o outro precisa de mim. Qualquer desequilíbrio nessa equação diminui as possibilidades de vida. Por isso não faz sentido sobrepujar e oprimir o outro nem ser agente da degradação do meio ambiente. Não importa que nós nos saibamos finitos, no aquiagora encontramos nossa essência¹ que não é outra coisa senão a potencialidade máxima de nossas possibilidades de manifestar nossa existência e esta, mesmo sendo única, só se realiza em relação ao todo do qual somos parte, entrelaçada com as outras partes dessa totalidade.

O pensamento científico não é a única possibilidade de pensar. Ainda que, provavelmente, seja o que responda mais satisfatoriamente às questões problemáticas de nossa existência. Suas respostas são palpáveis, muitas vezes inequívocas e somente por seus próprios métodos podem ser superadas. Mas ele não responde a tudo o tempo inteiro e seus métodos não são acessíveis a todos. Ficam lacunas a serem preenchidas por outras formas de pensamento. Não falo apenas de questões objetivas para as quais a ciência ainda não tem respostas; nem de fatos comprovados cientificamente que sejam desconhecidos por determinado indivíduo ou comunidade. Nesses casos, é claro que o ser humano buscará compreensão a partir de mitos, de símbolos, de abstrações criativas que podem ser muito produtivas no âmbito cognitivo, emocional e social, principalmente quando não inseridas de forma automática em uma tradição instituída e hierarquizada. Mas falo também em relação a aspectos mais subjetivos do sujeito consigo mesmo, com os outros, com seu habitat, com sua cultura, com a própria vida, com a morte, com a inquietação de um mistério. Por um lado, sempre há o desencanto com as probabilidades limitadas dadas pela ciência; por outro, o deslumbramento das infinitas possibilidades dispostas por um milagre, ainda que este possa ser uma ilusão, talvez se apresente como um último suspiro, única acolhida quando nada mais restar.

Tudo que escrevi até aqui neste texto foi apenas um preâmbulo para explicitar meu lugar de fala. Agora posso mencionar honestamente o tema que me move aqui: o espaço social da prática religiosa, sem atribuir nenhum juízo de valor em si a essa prática.

Não pretendo aqui tratar das religiões instituídas em forma de poder político, embora estas sejam importantes. Diria até que ao lado da guerra, são as duas formas de poder fundamentais para a formação das sociedades humanas, porque são capazes de impor através da força ou de manipular através da fé, promovendo a servidão e a escravidão, elementos indispensáveis para se estabelecer uma ordem social hierarquizada. É o que a história mostra. Contudo, não é essa instituição que me interessa aqui, mas sim a religião no sentido da relação do ser humano com o transcendente, com o sagrado e o sublime. Pode-se argumentar com razão que essas manifestações de religião e de poder aparecem entrelaçadas uma na outra, porém, é do aspecto mais subjetivo e espontâneo que quero tratar, não das relações de poder que se estabelecem politicamente nas instituições religiosas.

Proponho uma reflexão laica sobre as práticas religiosas observando cinco princípios, os quais considero essenciais para convívio social sadio e muito produtivos, seja no aspecto político, filosófico ou – por que não? – espiritual.

1) Religião é uma necessidade subjetiva do sujeito, pode ser uma forma de conhecimento ou de alienação;

2) Liberdade de culto e de crença é um direito inalienável do cidadão, pode ser um ato libertário ou uma forma de opressão;

3) É preciso combater veementemente a intolerância religiosa;

4) É preciso garantir plenamente que o Estado e todas as instituições não religiosas, públicas ou privadas, sejam incondicionalmente laicos.

5) Nenhuma instituição religiosa pode ser favorecida pelo Estado, seja por isenção fiscal, repasse de verbas ou participação no poder, o que não impede que o homem religioso participe da política

Penso que esses cinco pontos precisam ser considerados quando tratamos de religião, sejamos ateus, tenhamos essa ou aquela crença, não importa. Se não for assim, a religião será sempre, como tantas vezes o foi ao longo da história, uma forma opressora de poder e de manipulação, conservando a ignorância e a servidão, promovendo guerras e a escravidão. Impor o ateísmo, proibindo qualquer manifestação religiosa seria igualmente um ato brutal de opressão. O que importa cultivar é o respeito às diferenças de pensamento, a garantia da liberdade de nos expressarmos. Se conseguirmos atuar sinceramente nesse sentido, poderemos tratar da religião de maneira civilizada e debatê-la como um elemento da cultura, abordando seus aspectos cognitivos, psíquicos, espirituais, sociais, políticos, filosóficos… concordando e discordando, aprendendo com o outro; ao invés de discriminar, doutrinar e simplesmente obedecer – poderíamos respeitar, compreender e autoconhecer. O que cada um acredita é uma questão subjetiva, de foro íntimo, mas precisamos desse exercício dialógico para convivermos e para desenvolver nossa essência humana.

¹ Esse conceito de essência humana é de Karl Marx, desenvolvido brilhantemente por Agnes Heller e em seu Cotidiano e História.

 


Gratidão

(Ricardo Balieiro)

Sou grato por esta vida, ainda que eu não saiba o propósito de nada, nem o que fazer dela. Sou grato por estar aqui, recebendo o milagre da vida enquanto em todo lugar há quem morra de fome ou de tiro.

Sou grato por ter uma casa pra morar, com tanta gente desabrigada ou amontoada em barracos. Grato pela bênção do saneamento básico, enquanto milhões não têm nem banheiro, que dirá água tratada ou rede esgoto.

Obrigado pela roupa que visto. Ainda que oriunda de trabalho escravo, com ela me protejo e me expresso. Há quem morra de frio e outros cujos andrajos carregam apenas doença e imundície.

Dentre milhões de desocupados, sou grato por meu trabalho. Ainda que não goste dele, que eu acumule estresse e somatize algumas doenças, equilibrado entre crises de ansiedade e de depressão, ainda assim, acordo todas as manhãs com meu despertador e tenho pra onde ir. Ainda que o dinheiro não dê até o final do mês, há quem não tenha o que comer.

Grato por meu carro que entre engarrafamentos me transporta pela cidade, espalhando dióxido de carbono pela atmosfera. Grato por não ser um ambientalista preocupado com o aquecimento global e vendo sempre o lado negativo das coisas. O importante é que, entre buzinadas e xingamentos que escuto e que emito, chego vivo ao meu destino. Sou abençoado, porque milhões de pessoas morrem pelo caminho.

Grato pela minha saúde em meio às doenças que se espalham. Grato por ser um cidadão bem informado, limpo, que sabe se alimentar e que paga um convênio médico. Grato por não ser como esses sanguessugas na fila do SUS, se aproveitando da bondade do governo.

Grato por morar num país livre e democrático, onde todos podem escolher seus representantes, ainda que frequentemente eles nos roubem, nos oprimam e nos excluam, temos o poder do voto. Grato por estar num país onde temos a liberdade para competir, produzir nossa riqueza e formar nossa propriedade, de acordo com nosso trabalho e nossa fé. Ainda que a maioria não alcance riquezas nem posses, tem-se sempre o exemplo de algum grande homem de sucesso pra provar que é possível e então sou grato pela esperança.

Sou grato por ser um homem normal, uma pessoa de bem, livre de preconceitos e de perseguições. Grato por ser um homem direito e por não precisar daqueles defensores de direitos humanos que defendem os bandidos. Ainda que índios reclamem de que suas terras estão sendo invadidas; negros reclamem dos resquícios da escravidão e do racismo; pobres reclamem da desigualdade e miseráveis da exclusão; ambientalistas reclamem que a humanidade está destruindo o planeta; que homossexuais reclamem da homofobia e mulheres do machismo… Eu não reclamo, reconheço o mérito de cada um. Sou positivo, tenho fé e trabalho. Sou grato por entender que cada um tem o seu lugar na sociedade e que é preciso apenas ocupá-lo com gratidão.

Devemos agradecer todos os dias por estarmos vivos e retribuir esse milagre com amor e trabalho. Assim o sucesso virá, um dia.

Namastê.


 

Derrotado

(Ricardo Balieiro)

Não era sempre que a Vitória estava de bom humor na sala. Na verdade quase nunca. Eu ficava ali a ouvir aquela sua ladainha de reclamações e seus desaforos atravessados. Por mim tudo bem, às vezes até achava graça no seu jeito peculiar e sincero. Sinceridade é raridade na era dos sorrisos de instagram. Ser autêntico, mesmo que não se esteja calçado em valores nobres, é um ato de coragem, ainda que expresse certa burrice. Essa constatação é dura, mas não depreciativa. O burro tem seu charme. Quando ele empaca não mede as consequências, não liga para as pancadas que recebe e nem pensa nas benesses que perderá. Ele para. Dignamente, para. Um ato de desobediência civil, solene, uma questão de honra, de princípios. Repare: os inteligentes não fariam isso, perceberiam antes que é mais fácil fingir. Afinal, uma mentirinha não é nada.

Acabo de perceber que estou divagando e isso geralmente dá errado. Então, antes de voltar ao fio da meada, preciso me explicar. Não quero dizer que a Vitória seja burra. Aliás, acho difícil afirmar que alguém seja plenamente burro ou inteligente. Primeiro porque uma pessoa, qualquer pessoa, mostra-se brilhante em algumas situações e tola em outras. A vida é um feixe de habilidades que vamos decifrando, algumas com êxito, outras não. Segundo porque tomamos nossas decisões em determinadas circunstâncias, através de um ponto de vista específico e por elas somos julgados em outras circunstâncias, por um ponto de vista diferente. Sendo assim, a burrice pode muito bem estar no juízo criado, por que não?

O fato é que não era fácil atingir aquela menina. Não importa qual era a proposta ou a estratégia. Era comum ecoar uma voz na sala:

– Não vou fazer! Não faço! – e pra ela, não era não.

Outra situação corriqueira:

– Já fiz. Tá tudo errado, mas não ligo. Nem vem que eu não vou fazer de novo.

E eu ficava ali, com cara de paisagem.

Outro dia ela parecia bem-disposta:

– Professor, tá certo?

– O raciocínio está. Você não quer conferir o cálculo? – eu falava pisando em ovos, o mais gentilmente possível.

– Ah, não vou mais fazer essa bosta!

Essa cena não era rara. Às vezes eu insistia e a resposta era na lata, curta e grossa:

– Vai se foder! Já falei que não vou fazer.

Mas que personalidade forte!

Voltando à questão da burrice, lembrei que uma das qualidades sempre atribuídas ao burro é a paciência. Já mencionei sua heroica desobediência civil, porém não dei o devido crédito à excepcionalidade desse momento. Até chegar esse instante apoteótico em que a Terra para e tudo gira ao seu redor, foram quilômetros percorridos, toneladas carregadas no seu costado, pancadas e mais pancadas em seu lombo. E ele sempre lá, compenetrado e magnânimo em sua missão de servir.

Burrices à parte, aquele era um dia raro. Vitória estava de bom humor. Pensei em aproveitar. Talvez ela estudasse até logaritmos. Ela, sorrindo, disse bom dia e perguntou o que era pra fazer. Dirigiu-se tranquilamente para o seu lugar e, por alguns minutos, permaneceu ali compenetrada, folheando seu livro, escrevendo, apagando, reescrevendo… até perceber uma notificação em seu celular. De vez em quando isso acontecia. Eram namoricos, negócios escusos ou encrencas de família. Imediatamente, seu semblante mudou. O lápis na boca, o olhar vazio pela janela. Eu sabia que ela permaneceria assim até ser interrompida por algum colega engraçadinho e que o infeliz intrometido ouviria um sonoro palavrão.

Então eu via Vitória absorta, olhando pela janela. E eu mesmo me percebia absorto tentando ver se ela abria uma fresta por onde eu pudesse adentrar no terreno árido de sua mente e pudesse protegê-la e guiá-la, como afinal se faz com as crianças.

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