A “chuva de molha tolos” está para o orvalho e a cacimba como estes últimos estão para o sereno. Aqui pronunciado deliciosamente “serreno”. Quando os primeiros pingos de chuva começaram a fustigar-me as costas alguém alvitrou que não era chuva, era “serreno”. Depois as gotas tornaram-se mais grossas e passaram a chamá-las de “chuvisco”. As palavras podem ser as mesmas mas estão cheias de coisas e sensações com outra intensidade. É uma questão de percepção. Enquanto vou fazendo mentalmente acrobacias para entender por que razão um simples chuvisco me deixa encharcada até aos olhos explicam-me que, neste caso, podemos afirmar que é de chuva que se trata.
Pergunto se demora a passar. Depende, explicam-me, se for “chuva homem” passa depressa mas se for “chuva mulher”… essa demora a passar!. Rio-me com gosto e não forço o esclarecimento óbvio que no entanto acaba por me chegar. “Mulher quando fala…hehehehehehehe…”. Opto por não me melindrar com piadas que perpetuem as crenças sobre diferenças de género, nem sempre fundamentadas (ok, acabei de fazê-lo!).
Rio sem sombra de rancor nem pudor. Finalmente constato que a natureza tem razão e os homens tentam reduzi-la a palavras. É mesmo “chuva mulher”: não há meio de passar, é barulhenta, insistente e impertinente.
Como eu, por vezes, com a minha chuva de palavras fora de estação.
Luísa Fresta, portuguesa e angolana, viveu a maior parte da sua juventude em Angola, país com o qual mantém laços familiares e culturais; reside em Portugal desde 1993.
Desde 2012 assina crónicas e artigos de opinião em jornais culturais, revistas e blogues de Angola, Portugal e Brasil, essencialmente sobre livros e cinema africano francófono e lusófono. Esporadicamente publicou em sites ou portais culturais de outros países como Moçambique, Cabo Verde e Senegal.
Em 2021 e 2022 traduziu O HOMEM ENCURRALADO e ESPLANADA DO TEMPO, ambos do poeta brasileiro Germano Xavier (edição bilingue português-francês/Penalux). Em 2022 ilustrou o poemário infantojuvenil DOUTRINA DOS PITÓS, do poeta angolano Lopito Feijóo (Editorial Novembro).
Desde 2020 mantém um grupo virtual intitulado ESCOLA FECHADA/ MENTE ABERTA, criado no início da pandemia, destinado a divulgar literatura infantojuvenil e artes plásticas, nomeadamente ilustração, com especial incidência no universo lusófono e francófono. O principal objetivo é consolidar os hábitos de leitura das crianças, estimular a leitura em família e o gosto pelo desenho; e aproximar escritores e ilustradores de leitores e da comunidade escolar.
Tem textos dispersos por antologias, alguns dos quais integraram projetos pro bono, e outros premiados em Portugal e no Brasil, desde 1998; assim como um livro de poesia vencedor do prémio literário Um Bouquet de Rosas Para Ti, em Angola, atribuído pelo Memorial António Agostinho Neto (2018).
Curiosidade: o poema Casa Materna, que dá título ao livro (originalmente designado por Casa ambulante), foi distinguido com o 2º prémio de poesia internacional Conexão Literária (Câmara Municipal de Divinópolis/Brasil) quando a obra já se encontrava em processo de edição.
OBRAS DA AUTORA:
Contexturas (contos, baseados em quadros de Armanda Alves, coautora), Livros de Ontem, 2017;
Março entre meridianos (poesia, 1º prémio “Um Bouquet de Rosas para Ti”), MAAN, 2018;
Março entre meridianos (reedição), Livros de Ontem, 2019;
A Fabulosa Galinha de Angola (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2020;
Sapataria e outros caminhos de pé posto (contos), Editorial Novembro, 2021;
Burro, Sim Senhor! (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2021;
Casa Materna (poesia), Editorial Novembro, 2023;
A Idade da Memória (infantojuvenil, contos inspirados na poesia de Agostinho Neto. Coautora: Domingas Monte; ilustrações: Júlio Pinto), Mayamba Editora, 2023;
No País das Tropelias e Desventuras (Coleção Capitão/ infantojuvenil), Editorial Novembro, 2024.
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