Desamor em cinco atos

Desamor em cinco atos

Sábado à noite. Teatro Municipal de São Paulo. Apresentação da ópera  Romeu e Julieta, de Charles Gounod, em cinco atos, baseada na peça homônima de William Shakespeare.

Ele chega timidamente e pergunta se a poltrona já estava ocupada. Ela, com um sorriso discreto responde que não. Começa o espetáculo. Um está acomodado ao lado do outro, desacompanhados. Vez por outra seus olhares se encontram e eles sorriem.

Termina o espetáculo. Caminham juntos em direção à saída do teatro. Ele pergunta se ela gostou. Nas escadarias externas o convite para saborear um cappuccino na cafeteria da Barão de Itapetininga. Ali rola um clima e no embalo a troca de telefones. Marcam encontro para a próxima semana. Começa o namoro.

No início tudo bem. Aquele romantismo padrão. Depois de alguns meses as diferenças se evidenciaram. Ele, um pouco imaturo, enfrentando um sentimento de baixa autoestima. Ela, dois anos mais velha, atormentada por uma insegurança decorrente de traumas familiares. Temperamento irritadiço.

O romantismo inicial começou a dar lugar a desentendimentos. Era questão de tempo para a casa cair, e isso aconteceu cinco meses após o encontro na ópera.

Retornavam de uma visita e almoço a um casal de amigos dela. Na viagem de ônibus de Santana até o ponto final, no Largo do Paissandu, ela permaneceu muda, carrancuda.

Desceram do ônibus e seguiram a pé. Na escadaria externa do Teatro Municipal resolveram parar. Ela passou a repreendê-lo pelas piadinhas de mau gosto,  algumas até obscenas, que ele fez durante o almoço. Ele se irritou e deu o troco. Como tréplica ouviu-a escancarar-lhe a imaturidade.  O ressentimento era recíproco. Foi a gota d´água. Ponto final na relação. Exatamente no mesmo local onde cinco meses antes tudo começara.

Romeu e Julieta sobreviveram. Cada um seguiu sua vida. Nessa tragédia quem morreu foi o amor. Um desamor em cinco atos.

Cai o pano.

 

Por Gilberto Silos

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Sobre Gilberto Silos 243 Artigos
Gilberto Silos, natural de São José do Rio Pardo - SP, é autodidata, poeta e escritor. Participou de algumas antologias e foi colunista de alguns jornais de São José dos Campos, cidade onde reside. Comentarista da Rádio TV Imprensa. Ativista ambiental e em defesa dos direitos da criança e do idoso. Apaixonado por música, literatura, cinema e esoterismo. Tem filhas e netos. Já plantou muitas árvores, mas está devendo o livro.

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