Entrevista com Nicodemos Sena

Entrevista com Nicodemos Sena, por Teresa Bendini

Nicodemos Sena e Teresa Bendini

Conheci o entrevistado em minhas andanças literárias. Nossa amizade foi se fortalecendo, principalmente por ocasião da eleição do presidente Jair Bolsonaro (2019), que repudiamos. Nessa ocasião, o autor e editor Nicodemos Sena, fundou um espaço literário e cultural em minha cidade, (Espaço Selvagem), onde as manifestações contrárias a ascensão do fascismo no executivo brasileiro, podiam livremente acontecer. Ele é o editor responsável pela editora Letra Selvagem publicando autores talentosos do Brasil e da América Latina. Publicou em 2019 o meu livro “Krenak, o menino dos braços compridos”.
Em 2024 tornou-se o curador da FLIART, feira literária na rodoviária de Taubaté, que ocorre sempre em agosto e que já está em sua segunda edição.
Nicodemos Sena, nascido no meio da selva, às margens do rio “Marózinho” e criado em Santarém (PA) é autor de cinco livros, sendo quatro romances e um de poesia. “A noite dos pássaros”, “A mulher, o homem e o cão”, “À espera do nunca mais”, esse que é uma saga Amazônica, “Choro por ti Belterra”, e “Ladrões no Celeiro: Avante Companheiros!”, livro de poemas compostos no calor da hora, por ocasião da prisão ilegítima do presidente Lula em 2018. Seu último livro: “Lá seremos felizes” lançado em fevereiro de 2025, se insere na vasta literatura Amazônica, que visa escancarar a identidade de um Brasil, de fato, real, porém pouco conhecido.


Teresa – Fale um pouco do ser amazônico que te habita. Ele sofreu modificações? Pergunto isso, principalmente pelo fato de já ser um habitante da região sudeste há vários anos. Como se faz essa identidade composta por experiências tão diversas?

Nicodemos SenaNasci no oco da selva em 1958, vindo com 8 anos de idade para a pequeníssima cidade de Santarém. Em 1977, por falta de universidade em Santarém, tive que vir para São Paulo para cursar Jornalismo, um sonho que entrou na minha vida muito cedo. Estudei, casei-me, trabalhei, tive filhos em São Paulo, mas sempre retorno a Santarém e à comunidade onde nasci, no alto do rio Maró, onde ainda tenho parentes. Impossível não revisitar a minha terra, pois, espiritual e culturalmente, ainda vivo na Amazônia e a Amazônia vive em mim. Isto fica bem claro na opção que eu fiz, ao decidir ser escritor, de revelar ao Brasil e ao resto do mundo as coisas e as gentes da Amazônia, a luta do humano para continuar existindo, apesar das rudezas do ambiente natural e das chagas sociais causadas pelo poder político capitalista, que desde sempre, mas principalmente a partir do golpe militar de 1964, devasta a natureza física e humana da Amazônia.

Teresa – Como você define a Amazônia que está em todos os seus romances?

Nicodemos SenaDefino-a como uma “cunhã-porang-porang” (moça muito bonita) que foi deflorada em tenra idade e continua sendo maltratada, vilipendiada e escravizada pelo invasor. Pois, na verdade, o Grão-Pará (primitivo nome do que se passou a chamar Amazônia), que tinha uma administração e um governo próprios, foi vítima de uma anexação violenta por parte do Brasil. O solo e os rios da Amazônia estão manchados pelo sangue derramado nos sucessivos genocídios que acontecem até hoje. De 1935 a 1941, durante a Revolução dos Cabanos (homens e mulheres que moram em cabanas), cerca de 30 mil pessoas (metade da população da Amazônia) foram assassinadas pelas forças militares do Brasil, em boa parte composta por mercenários. A verdade é que a Amazônia sempre foi uma colônia do Brasil. Garimpeiros, madeireiros, empresários do agronegócio, oriundos do Sul-Sudeste do Brasil, vão lá por causa da terra barata e das imensas riquezas naturais, sem qualquer consideração ao meio ambiente ou as populações amazônicas, vítimas da cobiça nacional e internacional.

Teresa – Por que sente um carinho especial pelo romance lançado em 2009, A mulher, o homem e o cão “?

Nicodemos SenaEscrevi esse texto em apenas 6 meses, o que é um tempo curto para se escrever um romance. Os outros levaram mais tempo. O “A Espera do Nunca Mais”, por exemplo, me consumiu 10 anos de árduo e diuturno trabalho. Porém, foi do “A Mulher, o Homem e o Cão” que saí mais exausto. Isto porque ele é a transcriação de um sonho, ou melhor, de um profundo e agoniante pesadelo, uma imersão no inconsciente humano naquela fase da vida em que todos nós, homens ou mulheres, nos movemos no espaço sem limites nem fronteiras que caracteriza a infância e a loucura, onde passado, presente e futuro se misturam para nos mostrar que somos apenas alminhas perdidas e confusas no flanco do enigma, que é esta “selvagem selvaggia”, como diria Dante Alighieri. “A Mulher, o Homem e o Cão” é o meu livro mais “selvagem”, mais “louco”, e, paradoxalmente, também o mais “realista”. Pois me propus revelar, sem as fastidiosas descrições de lugares e ambientes do Romance Realista, e sem substantivar as três personagens, as quais se metamorfoseiam em outras tantas, a agônica realidade, verdadeira tragédia, de uma região saqueada e seus povos oprimidos. A história da Mulher, que é minha avó Guida (de quem, escondido atras da porta, eu ouvia essa história), e do seu marido Carmelo, que viveram num lugar ermo da selva Amazônica nos Anos 1950, onde vim a nascer, na mais plena solidão, tendo como companhia um Cão camaleônico, que se convertia em homens e animais para conversar com ela, pode ser a história de milhares de seres viventes descarnados de todas as riquezas e preconceitos que a sociedade capitalista, dita “civilizada”, de matriz europeia, construiu no novo mundo. “A Mulher, o Homem e o Cão”, com sua estrutura de pesadelo, sem divisões em capítulos, é um mergulho nas águas mais profundas dos arquétipos que nutrem de sonhos e pesadelos a espécie humana.

Teresa – Sobre a mulher na literatura da Amazônia, me parece quase invisível essa figura. Por quê?

Nicodemos SenaA mulher, na História da sociedade patriarcal na qual vivemos, mesmo sendo o útero de onde viemos, embora sendo a geradora de quase tudo, é colocada em segundo plano. Vejo um perfeito paralelo entre o feminino da mulher amazônica e a própria Amazônia. Com seus mais de 4 mil rios fabulosos, habitat de centenas de espécies de peixes, répteis, quelônios, e suas florestas catedralescas, que abrigam milhares de espécies vegetais e animais, a Amazônia tem sido o grande celeiro onde a sociedade industrial e consumista do Brasil vem buscar as matérias-primas que alimentam sua voracidade. Apesar disso, a Mãe Amazônia, que é mais da metade do território brasileiro, continua quase completamente desconhecida dos brasileiros, tão invisibilizada quanto as mulheres na maior parte da Terra. Também na literatura escrita na e sobre a Amazônia, a mulher quase sempre é elemento subalterno, conforme os estereótipos do universo masculino. Quando muito, com raras exceções, a mulher é tratada com aquela “benevolência” utilizada pelo macho que se arroga o poder de nomear as coisas do mundo. Em meus romances tento romper com o protecionismo masculino, dando voz e protagonismo a personagens femininas, como, por exemplo, a pequena e intrépida Diana no “A Espera do Nunca Mais”, Potira, no “A Noite é dos Pássaros”, ou mesmo a Mulher em “A Mulher o Homem e o Cão”.

Teresa – Sobre o título do seu último romance, “Lá seremos Felizes”, o que teria a dizer? Onde é esse LÁ, que me parece tão longínquo?

Nicodemos SenaEsse Lá, que parece longínquo, é o Lá mais próximo que está em cada um de nós, pois está dentro de nós; é a região onírica da nossa infância, para onde todo homem ou mulher almeja um dia retornar para voltar a ser feliz. O personagem do “Lá, seremos felizes”, por meio do qual o narrador em terceira pessoa narra a história, é um jovem órfão que deixa o lugar onde nasceu e vai para uma terra longínqua e estranha em busca de um “futuro” sonhando, no entanto, em retornar ao lugar de suas mais caras lembranças, onde, apesar dos pesares, amou e foi feliz. Filho da selva, padece da nostalgia de retornar à selva de sua infância, da qual, na verdade, jamais saiu.

Teresa – Por último fale um pouco da FLIART (Feira Literária e da Amizade na Rodoviária de Taubaté), evento que se deu em agosto último, (15 a 24, das 9h às 20 horas) e já em sua segunda edição, sob sua curadoria.

Nicodemos Sena A importância da FLIART foi de colocar o livro em destaque, como um instrumento civilizatório por excelência. Muitos dizem que o livro está em crise e que vai acabar, mas ele existirá enquanto existir civilização humana. O que muda são os suportes dos quais a expressão humana é registrada.
A realização da FLIART também nos faz pensar sobre a concepção da vida em trânsito. O homem em trânsito, o nomadismo, a vida é também uma viagem, sempre estamos em movimento, desde os primórdios, primeiro a pé, depois a cavalo, depois veio a charrete, a bicicleta, lembrando que a roda se tornou um marco da civilização, enfim, esse “transitar” (deixar-se levar) também ocorre nas páginas de um livro e essa ideia está na essência de todos os textos literários. Então a rodoviária comunga com essa proposta. Lembrei da frase do escritor espanhol Antônio Machado: “Caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar”, creio que viajar nas páginas de um livro que também nos faz estar em trânsito é a base do conhecimento.
Outra coisa que eu preciso enfatizar é que os ícones são construídos e desaparecem, os partidos políticos nascem e morrem, mas a Cultura sobrevive. Ela está presente no nosso dia a dia. Essa feira, FLIART, (Feira Literária da Amizade na Rodoviária de Taubaté), que eu saiba é pioneira, não tenho notícias de uma feira desse porte, realizada em rodoviárias de outras cidades, então, essa parceria, (já em sua segunda edição), tem provado pelo seu sucesso e repercussão, que foi extremamente acertada.

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4 Comentários

  1. Maravilha de Entrevista!
    Parabéns Teresa por essa colaboração com o Portal Entrementes e muito obrigada ao Nicodemos Sena por dar essa entrevista.

  2. Querida Beth, agradeço à Entrementes por estar sempre aberta para Cultura e Arte. E também aproveito para dizer que sua matéria sobre a “nova ordem mundial ” está um primor, parabéns.

  3. Parabéns pela entrevista! Foi um encontro inspirador entre duas vozes que escrevem e compartilham suas visões com tanta sensibilidade. Que venham muitas outras conversas como essa, cheias de trocas, afeto e saberes.

Obrigada pelo seu comentário!