Jefferson Tenório – SESC TAUBATÉ- Lançamento do seu último Livro: De onde eles vem, com mediação de Cristiane Cobra, animadora cultural do SESC Taubaté.
(15/julho/2025/ 19:30 horas.)

Transcrevo aqui parte da sua fala, extremamente necessária. Então, se deliciem com ela (Teresa Bendini)
“Não é sobre as Cotas, mas sobre fazer um livro utilizando as Cotas como um pano de fundo. E falar mais, narrar na verdade, a luta pela permanência na Universidade. Porque falar sobre o processo de Cotas, eu acho que já foi escrito e muito bem pelo Paulo Scott escritor que escreveu um livro chamado Marrom e Amarelo e que fala justamente sobre o processo das Cotas e faz uma discussão profunda sobre Colorismo no Brasil. Eu queria era fazer uma avaliação dessa política pública que mudou a cara da Universidade, mas que precisa ser aperfeiçoada. A ideia era trazer esse personagem central, que é o Joaquim, esse rapaz de vinte e poucos anos, que entra na Universidade pública pelo Sistema de Cotas e que enfrenta a burocracia, a desconfiança de colegas e professores, enfrenta a falta de dinheiro, a falta de perspectiva, tem que lidar com a avó que está num processo de Alzheimer. Então ele enfrenta barreiras que impedem sua permanência na Universidade. Para muitas pessoas, talvez isso seja motivo pequeno para ser tratado num livro, mas a gente sabe que para a população periférica e negra, manter-se na Universidade é uma grande questão. Chegar na Universidade já é uma questão e permanecer nela e conseguir o diploma é realmente uma luta diária. Então eu achei importante escrever um livro sobre isso. Não é um livro onde o leitor vá encontrar um grande herói, mas a ideia era tentar humanizar esse rapaz negro que nem sempre está disposto a lutar. É um pouco também uma ideia de que “estamos um pouco cansados da luta”, mesmo assim o Joaquim tenta do jeito dele. O Livro é ambientado no início dos anos 2000, 2008, talvez 2010, quando essas discussões no Brasil começam aparecer, começam a falar sobre antirracismo, discussões sobre gênero, eu digo começam no sentido de se popularizar. Discute-se a burocracia como uma forma de exclusão, ela decide se o aluno entra ou não na Universidade. Ela é um poder. No livro, se o Joaquim (personagem central do livro) não tiver um determinado documento ele não vai entrar na Universidade. Mas ele já é um leitor e já tem instrumentos suficientes para pelo menos desconfiar dos argumentos burocráticos da secretária que tenta emperrar sua entrada. Na verdade, eu criei o personagem que eu mesmo gostaria de ter sido em termos de leitor. E o Joaquim desde cedo quer conviver com os livros. Ele quis isso para vida dele. Eu, (o autor), só fui decidir isso aos trinta e poucos anos. Faz pouco tempo que eu me tornei um leitor. Eu tenho quarenta e oito hoje, mas faz pouco tempo. Não é algo que eu desde sempre quis na minha vida. E o Joaquim já é essa pessoa que já entra sendo leitor e que gosta dessa convivência com os livros. É alguém que se apaixona por essa imagem do leitor que segura o livro e que frequenta uma história e que sai dessa vida prática e entra num outro mundo. O leitor é aquele que frequenta os sonhos sem precisar dormir, mesmo que o sonho seja o nosso primeiro gênero literário, como dizia o Jorge Luíz Borges, ou seja, todas as noites a gente frequenta os sonhos, mesmo as pessoas que não sabem lidar muito bem com a falta de sentido ou com o absurdo, mas todas as noites quando a gente dorme, temos que lidar com a falta de sentido e com o absurdo. E o leitor é essa pessoa que frequenta esses outros mundos essas outras histórias. E o Joaquim quer isso para a vida dele. Eu mesmo vou me tornar leitor, ou seja, começo a gostar de literatura aos 24 anos. Antes disso os livros que tinham em casa eram livros que serviam mais como decoração. Por outro lado, eu gostava muito de música, era um bom ouvinte de música. Aos domingos minha mãe colocava na vitrola os pagodes, Zeca Pagodinho e outros, dependendo do humor dela ela colocava música clássica que eu não fazia ideia do que era, Ney Matogrosso e aí eu fui me educando musicalmente. Só depois, na adolescência eu começo a escrever letras de música, tentei me tornar happer, comecei escutar hip-hop, Racionais e foi tão importante para mim os Racionais MCs. E o Joaquim é essa pessoa que escuta Racionais e chega na Universidade e faz uma análise sobre os poemas do James Joyce. Ele é esse ser estranho, que a Universidade não consegue entender muito bem.
Sobre finitude
“Literatura é para nos lembrar que estamos vivos e que um dia vamos morrer”. Como eu considero esse meu livro, um livro existencialista, a questão da morte aparece bastante. E é um existencialismo materialista, ou seja, quer tratar a existência como contingência. Se você está vivo, obviamente vai morrer, mas enquanto isso não acontece (que é um pouco a filosofia do Sartre), o que fazer com nossa liberdade? A angústia faz parte da liberdade, a liberdade precisa da angústia para que a gente se sinta livre e o Joaquim tem essa angústia que ele não consegue nomear. O livro “A Náusea” do Sartre é essa angústia que não se nomeia, então o Sartre a chama de Náusea. O Joaquim vai fazendo esse percurso existencial para que ele consiga fazer justamente aquilo que o existencialismo prega, que é tomar as rédeas da própria vida, tendo a capacidade de se auto inventar. Se autocriar sem ser tutelado por ninguém. O Joaquim faz uma jornada de autoconhecimento, mas para que ela seja possível, ele tem que dar um passo atras e olhar para suas origens. É muito comum entre jovens periféricos ao entrar na Universidade se distanciar das suas origens, mas isso é saudável, isso é comum acontecer. Freud chama isso de “o estranho familiar”. Ele diz que sair do seio familiar é dar partida para o amadurecimento, quando o jovem vai de encontro ao diferente. Se tudo se resolvesse na família não se conseguiria chegar na autonomia, se distanciar do seio familiar e ir para o diferente e isso fez com que o Joaquim se obrigasse a encontrar estratégias de lucidez. E aí entra a questão do encantamento, que é se encantar com o real ainda que o real pareça ser trágico.
É uma estratégia de sobrevivência encontrar o belo em meio ao que é terrível. Ele percebe que a beleza está em tudo, então ele volta às suas origens, à sua religião. Ele se pergunta: Será que é possível encarar nossas contradições, lidar com elas? Será que a religião, a literatura e a filosofia podem conviver dentro da gente? Será que elas não entram em contradição? Mas a contradição é uma conquista, diz o poeta americano Whitman em seu livro “Folhas da Relva”, ele diz que a contradição nos possibilita a proeza de nos fazer apaziguar as diferenças dentro de nós”.

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Beth adorei a postagem, gratidão.