Ne Zha 2 estreia no Brasil e reforça avanço da animação fora de Hollywood

Ne Zha 2 estreia no Brasil e reforça avanço da animação fora de Hollywood

Com bilheteria bilionária, a produção chinesa lidera um movimento global que inclui o Brasil, a Europa e iniciativas de representatividade como o afro-anime Mfinda.

Genius! é a mais nova produção do Estúdio
Divulgação | Noches Produções

Detentora da maior bilheteria da história para uma animação, a produção chinesa Ne Zha 2 estreou oficialmente no Brasil na quinta-feira, 25 de setembro. O longa, que arrecadou cerca de US$ 2 bilhões, conquistou o posto de quinto filme mais assistido de todos os tempos segundo o site Maoyan e marca um novo capítulo na consolidação da animação como produto global, capaz de movimentar bilhões e desafiar o domínio dos estúdios hollywoodianos.

Mais do que um sucesso de público, Ne Zha 2 sinaliza uma mudança de eixo no mercado. “A qualidade técnica alcançada pelo filme rivaliza com grandes estúdios ocidentais e mostra como a indústria chinesa conseguiu criar blockbusters de forma independente”, analisa Carlos Vizeu, diretor e CCO da Noches Produções. Para ele, a obra demonstra que o investimento em tecnologia de ponta e em narrativas com identidade própria pode sustentar franquias multibilionárias por anos, sem depender de fórmulas já consolidadas em Hollywood.

Esse movimento está em sintonia com uma transformação mais ampla. De acordo com a consultoria Mordor Intelligence, o setor global de animação e efeitos visuais, hoje avaliado em US$179,78 bilhões, deve ultrapassar US$311 bilhões até 2029, impulsionado pela expansão de novas tecnologias e pelo interesse crescente em conteúdos diversos.

O Brasil também começa a se inserir nesse cenário, deixando de ser apenas consumidor para atuar como produtor. A Noches Produções, estúdio de Niterói, lançou recentemente o piloto de Genius!, primeiro anime brasileiro desenvolvido integralmente com técnicas japonesas. A estreia, realizada na Niterói Expo Geek, atraiu a atenção de veículos especializados e teve grande receptividade entre fãs de cultura pop. O estúdio também é responsável por Nina e os Guardiões, animação estrelada por Larissa Manoela exibida no Nat Geo Kids e hoje disponível no Prime Video.

Enquanto a animação brasileira ainda é fortemente associada ao público infantil, a Noches busca ampliar horizontes. “O Brasil não precisa apenas produzir animação infantil. Existe um público jovem e adulto ávido por esse tipo de conteúdo, mas sem opções nacionais”, afirma Mab Castro, sócia da produtora. Segundo ela, o grande desafio é romper com a visão de que a animação é um produto exclusivo para crianças, o que ainda limita investimentos no setor.

Para Vizeu, essa movimentação mostra que há espaço para novas propostas. “O público jovem e adulto, que sempre consumiu animes japoneses e coreanos, demonstra interesse em histórias produzidas no Brasil. O desafio está em estruturar modelos de financiamento que viabilizem esse tipo de conteúdo fora do segmento infantil, ainda predominante no país”, avalia.

O avanço não é exclusivo da Ásia e da América Latina. Na Europa, a Letônia surpreendeu o mercado com Flow, de Gints Zilbalodis, vencedor do Oscar, do Globo de Ouro e do César francês, além de prêmios no Festival de Annecy. O longa se tornou a maior bilheteria da história do país, com mais de 300 mil ingressos vendidos, e foi inteiramente produzido no software gratuito Blender, consolidando-se como um marco para o cinema independente. Para Carlos Vizeu, o caso mostra como a democratização da tecnologia pode nivelar o jogo entre produções independentes e grandes estúdios, recolocando talento e criatividade como diferenciais centrais.

Essa abertura para novas linguagens também se reflete em iniciativas como Mfinda, anunciado como o primeiro afro-anime da história. A coprodução entre Japão, Congo e a JuVee Productions, de Viola Davis, ambientada no Congo dos anos 1970, reforça a diversidade de olhares na animação contemporânea. A obra, que mescla elementos ancestrais e espirituais, já desperta grande expectativa e simboliza o avanço da representatividade negra em um mercado cada vez mais plural.

‘Ne Zha 2’
Divulgação

Com técnicas mais acessíveis, estúdios independentes em expansão e um público cada vez mais aberto a novas vozes narrativas, a animação internacional vive um momento de virada. A ascensão de títulos como Ne Zha 2, Genius! e Flow indica que o gênero se consolidou como território aberto à experimentação, à diversidade cultural e ao diálogo entre diferentes indústrias criativas.

LaPresse Comunicação

Luana Clara de Souza
luana@lapresse.com.br
(21) 99568-4545

 

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Elizabeth de Souza é coordenadora e editora do Portal Entrementes....

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