Por que a fantasia nacional ainda é invisível?

Por que a fantasia nacional ainda é invisível?

Por: Roberto T. G. Rodrigues

Se você pedir para alguém listar dez livros de fantasia que leu ou deseja ler, é provável que nove — ou até os dez — sejam estrangeiros. Tolkien, Martin, Rowling, Sanderson, Bardugo, Gaiman. O Brasil consome fantasia, mas quase sempre importada. A fantasia nacional, por outro lado, segue lutando por espaço.

Isso acontece não por falta de talento, nem de público. O que falta é visibilidade. Falta estrutura para que os autores brasileiros do gênero sejam encontrados, lidos e debatidos com o mesmo entusiasmo reservado aos grandes nomes internacionais.

Ao longo da minha trajetória como escritor e leitor, conheci dezenas de autores brasileiros com obras originais, profundas e tão bem escritas quanto as grandes referências estrangeiras. São livros extremamente imersivos, tão envolventes quanto os de fora, mas que, mesmo assim, raramente chegam às vitrines das grandes livrarias, aos clubes de leitura ou às listas de mais vendidos.

Parte do problema está na percepção do que é “literatura de verdade”. Ainda existe uma resistência — institucional e crítica — a aceitar gêneros como fantasia, ficção científica ou RPG como campos literários sérios, capazes de provocar reflexão, tocar emoções e dialogar com o presente.

Outra parte está no mercado. A distribuição é limitada. Os espaços de divulgação são escassos. As editoras independentes fazem o que podem, mas concorrem com campanhas milionárias, traduções rápidas e best-sellers embalados por séries e filmes.

Ainda assim, há um movimento acontecendo. Participei da primeira edição da FLIF – Festival Literário de Fantasia, em São Paulo, e saí de lá impressionado com a qualidade, a diversidade e a força da produção nacional. São escritores que vêm do RPG, dos quadrinhos, da ficção especulativa, da espiritualidade. São vozes plurais, entrelaçadas com mitologia, crítica social e uma emoção genuína.

E o público está aí, aberto. Nas redes sociais, os leitores pedem histórias que os representem, que falem com o seu contexto. Querem personagens diversos, mundos alternativos que escapem do feudalismo europeu, tramas que abordem ancestralidade, poder, identidade. A fantasia, afinal, não precisa fugir da realidade — ela pode ressignificá-la.

Por isso, mais do que publicar livros, autores nacionais de fantasia precisam ser vistos como criadores de cultura. E precisamos, como leitores, críticos e formadores de opinião, abrir espaço para esse gênero feito por mãos brasileiras. Fantasia é imaginação, mas também é território político, simbólico e afetivo.

A fantasia internacional nos inspira. A nacional nos representa. E chegou a hora de valorizar essa representatividade.

Arquivo pessoal
Roberto T. G. Rodrigues é escritor, mestre de RPG e criador do universo de A Era de Ouro da Magia

Sobre o autor
Roberto T. G. Rodrigues é escritor, mestre de RPG e criador do universo de A Era de Ouro da Magia. Nascido no Rio de Janeiro e criado no Rio Grande do Sul, mescla vivências lúdicas e literárias em tramas que falam de humanidade, escolhas e conflitos morais. É autor de Golandar, o Paladino, de Emma, a Curandeira e de Fenda Esquecida.

 

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