Reflexo do outro!
Por Raul Tartarotti

Há espelhos por toda parte. Não falo apenas daqueles de moldura dourada pendurados em paredes, ou dos compactos que vivem no fundo das bolsas. Falo dos outros: as vitrines reluzentes das lojas, as janelas dos carros parados no sinal, até a tela escura do celular quando desligamos. Todos nos devolvem, implacáveis, a imagem que tanto nos preocupa.
A vaidade é uma moradora antiga da alma humana. Ela não chega de repente; Primeiro, é o cabelo rebelde na adolescência. Depois, a roupa que não disfarça o que julgamos imperfeito. Mais tarde, o sorriso que praticamos no elevador, a pose no Instagram, o relógio que diz mais que horas, o carro que parece gritar: “Olhem para mim!”.
Curioso como nos tornamos jardineiros obsessivos da própria imagem. Regamos o ego com elogios, podamos as rugas com filtros, adubamos o status com símbolos. E no meio do jardim, erguemos estátuas de nós mesmos — às vezes de mármore, às vezes de areia.
Mas a vaidade tem camadas, como uma cebola que faz chorar quando descascada. Há quem se enfeite de humildade (“Ah, isso? Comprei na feira…”), ou de intelectualidade (cita Nietzsche no grupo do WhatsApp só para arrancar um “uau!”). Existe até a vaidade da negação: “Eu? Vaidoso? Jamais!”, diz o sujeito, enquanto ajusta o colarinho pela quinta vez.
O poeta já dizia: “O pecado do mundo é o pecado do orgulho”. Mas a vaidade é a prima pobre do orgulho. É mais frívola, mais tátil, mais dependente do olhar alheio. O vaidoso quer ser fotografado, comentado, invejado. Quer, no fundo, que o mundo funcione como um espelho que nunca devolve uma imagem feia ou desinteressante.
Porque por trás de cada gesto vaidoso, mora um desejo antigo: o de ser visto, aceito, amado. A vaidade é a casca, por vezes brilhante, por vezes ridícula, de uma semente de insegurança. Ao fim das contas, talvez Narciso não se afogasse no rio por amar a própria imagem, mas por não entender que aquilo era apenas água, fluida, passageira, incapaz de abraçá-lo de volta.
A verdade é que carregamos conosco um pequeno Narciso e está tudo bem. Desde que lembremos: o espelho reflete, mas não respira. O eco do nosso valor não vem de fora, vem de um lugar mais quieto, onde os aplausos não chegam.
E você? Já se olhou no espelho hoje, ou no reflexo do outro?
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