na calada da noite escandalosa
a lua banha meu tronco imperfeito;
devo ser árvore que sopra ar rarefeito,
devo escorrer como tinta no erro açoitado
dessa existência ordinária e sem cabimento
sendo que não quero ser isso ou aquilo
não quero ser visível, infalível, enfadonho
não sou macho, não sou fêmea
não sou seu objeto de desejo;
sou um gato atravessando meu próprio sonho
então não me venha dizer o que virar hoje
me recuso a soltar essa bela sina
no quando, no onde, no tudo, no nada
me perco na crina dos cavalos da Patti;
não se preocupa: sou só o infinito, mas sou uma piada
o amanhã me fez beber filosofia fajuta
o ontem me fará engolir estrelas recém-nascidas
no mais tardar, serei a mais sabida chacina
dessas suas regras sem pé nem cabeça,
dessas palavras sem um pingo de graça
pois vim pra cá com o dom da pirraça,
com relutância em me tornar outra traça
já que meu orgulho não reside
no que carrego entre as pernas
e perdi o medo de não me encaixar em falácias.
//quênia lalita, 2025
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