36ª Bienal de Arte de São Paulo

36ª Bienal de Arte de São Paulo

A 36ª Bienal de Arte de São Paulo tem como título: “Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática”.
Essa mostra maravilhosa, que tive o prazer de apreciar, inspira-se no poema da poeta afro-brasileira Conceição Evaristo, “Da calma e do silêncio”.

Conceição Evaristo – Da calma e do silêncio

Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.

Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.

Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.

(Conceição Evaristo, Poemas da recordação e outros movimentos)

Ao ler o poema, é possível compreender a essência da Bienal, que explora este querer estar em silêncio e na inércia que é como se arranca a verdadeira essência de todas as coisas viventes.

A Bienal propõe uma reflexão sobre a humanidade em suas ações e pensamentos, usando como símbolo as águas com suas variadas correntezas que vão e vêm, criando espaços de encontros como as relações humanas. Tudo isso é inspirado na cultura, nas paisagens e na mitologia brasileira. A mostra sugere que a humanidade pode se unir em sua diversidade por meio de negociações e discussões, valorizando o poder do verbo.

A exposição se organiza em três eixos principais, refletindo as estrofes do poema:

– Num primeiro momento, o foco é a valorização dos detalhes do ambiente onde os seres convivem em sua vasta diversidade. A proposta é explorar esse ambiente através do silêncio e da poesia, uma forma de escutar as sutilezas do mundo e fazer uma conexão direta com tudo que está ao redor, em cima e embaixo.

– Num segundo momento, a mostra nos convida a ver nosso reflexo em outros seres, sejam animais, vegetais ou outros humanos, visando uma convivência harmônica.

– Num terceiro momento, a Bienal, por meio da arte, reflete sobre a sociedade, abordando temas como a escravidão e o colonialismo, e como esse passado moldou o presente. É um olhar sobre como a sociedade convive com as diferenças e semelhanças, buscando uma coexistência amigável como meio de sobrevivência.

A exposição está dividida em Capítulos, uma escolha de linguagem moderna e atraente que achei muito criativa dentro do que vivenciamos hoje,  bem atualizada:

Capítulo 1 – Frequências de chegadas e pertencimentos – As obras deste capítulo estão relacionadas com a terra, o solo e as raízes que os seres tem com ela. Uma alusão de que do pó viemos e ao pó retornaremos.

Capítulo 2 – Gramáticas de insurgências – As obras deste capítulo mostram que não é possível a derrota diante de contextos fortes e violentos. E para isso, é utilizada variadas linguagens: sonoras, espirituais, educacionais, sociais, econômicas, etc como métodos para o enfrentamento.

Capítulo 3 – Sobre ritmos espaciais e narrações – Neste capitulo a arte mostra os encontros dos seres nos variados espaços/tempos com seus ritmos e como se comportam nesse contexto. A forma como se trabalha, como se mora, como se divertem, enfim como desenrola as atividades e seus ritmos, os do próprio corpo como os ritmos de tudo que está em volta.

Capítulo 4 – Fluxos de cuidado e cosmologias plurais – Neste capítulo a arte mostra as interações entre as espécies. As obras se manifestam, discutem, criticam e comentam as relações entre humanos e animais, clima, terra, água, e toda a biosfera.

Capítulo 5 – Cadências de transformação“Este capítulo reúne obras que abordam transformações tecnológicas, materiais e imateriais, sociopolíticas e ecológicas, culturais e psicológicas, químicas e quânticas, explorando como os humanos provocam essas mudanças e são, consciente ou inconscientemente, afetados por elas”. (escrito no painel).

Capítulo 6 – A intratável beleza do mundo – Neste capítulo, as obras revelam toda a beleza que se encontra no cotidiano e no mundo. A beleza representada nas realidades dos artistas e da arte, que são reais e abstratas. E nem sempre estão dentro de um padrão. Em tudo há beleza.

Acredito que a Bienal, em sua ideia original baseada na escuta e no silêncio, priorizou o áudio (em todas as obras havia um fone de ouvido para escutar). No entanto, senti falta de legendas escritas (em papel) abaixo de cada obra para melhor orientar o visitante.

Informações Adicionais

36ª Bienal de Arte de São Paulo
Onde: Pavilhão Ciccillo Matarazzo, localizado no Parque Ibirapuera, em São Paulo.
Quando: De 6 de setembro de 2025 a 11 de janeiro de 2026.
Curador-geral: Prof. Dr. Bonaventure Soh Bejeng Ndikung.
Visitação: Gratuita.

Elizabeth de Souza

270925

Vejam alguns vídeos que fiz da Bienal – vou colocar outros depois.

Estão no Youtube e no Tik Tok do Entrementes:

https://www.tiktok.com/@portalentrementes

https://www.youtube.com/@Entrementesss/shorts

 

 

 

 

 

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Sobre Elizabeth Souza 433 Artigos
Elizabeth de Souza é coordenadora e editora do Portal Entrementes....

1 Comentário

  1. Foi muito bacana visitar essa Bienal acompanhada por uma pessoa com gosto tão apurado e com sofisticada compreensão das expressões artísticas como você Beth.
    Parabéns pelo conteúdo!

Obrigada pelo seu comentário!