A poesia de Celso de Alencar

A poesia de Celso de Alencar

por João Carlos Faria

Celso de Alencar é um poeta que está aí desde a década de setenta e hoje nas redes sociais. Sua poesia é viva e anda sendo interpretada em vídeos nas redes sociais, além dos saraus. A poesia encontrou-se nas redes sociais e descobriu um público ávido por sua linguagem. As livrarias de rua estão retornando. E poetas como Celso de Alencar, ao contrário do que dizem, leem-se muito mais e descobrem-se talentos em várias plataformas, além do livro impresso. Devemos nos abrir ao novo.

Mas imaginem um sarau à beira da fogueira, com poemas de Celso e canções cantadas por poetisas, quem sabe em São Francisco Xavier. Para mim, encontro a obra de Celso através desses vídeos e chegarei aos seus livros. Pois tudo é trajetória na construção da linguagem; a poesia nos sacoleja. E a poesia está presente em romances como os de Guimarães Rosa. E adentrar a Celso de Alencar, da turma de São Paulo.

A poesia é algo que não cansa. Linguagens, fala, escuta; enquanto escrevo, ouço Poetisa, um novo talento que desponta. Sem arte não vivemos. Já estamos no carnaval, neste domingo, seis de fevereiro de dois mil e vinte e seis. Desfrutem de Celso de Alencar neste Entrementes.

Joka Faria
8 de fevereiro de 2026, domingo.

 

Biografia

Celso de Alencar (Belém, 1949) é poeta, jornalista e declamador paraense, radicado em São Paulo desde 1972. Considerado um dos nomes mais viscerais da geração de 70, sua trajetória é marcada pela resistência cultural e por uma poesia que transita entre o marginal e o existencial.

Trajetória literária
Sua obra é celebrada por figuras como Cláudio Willer, que o define como o “mais enfático poeta contemporâneo brasileiro”, e Jorge Mautner, que o descreve como um “escandalizador e libertador de almas”.

Influências e estilo
Seus poemas exploram temas como a nudez emocional, a vida urbana e a transgressão. O livro Desnudo (2018), publicado pela Editora Primata, exemplifica essa busca pela essência lírica sem artifícios.

Principais marcos
Integra a chamada geração marginal, movimento de poesia que desafiou o rigor acadêmico nos anos 1970. Publicou obras como Tentação (1979), Arco Vermelho e O Primeiro Inferno. Embora radicado em São Paulo, mantém viva a herança amazônica em trabalhos como Poesia do Grão-Pará.

Atualmente, é possível acompanhar sua produção no Instagram e, principalmente, no Facebook.

https://www.facebook.com/celso.dealencar

https://www.instagram.com/celsodealencar/

Alguns poemas de Celso de Alencar

MERDAS

E agora, seus merdas?
Agora que a caixa de pandora
foi partida ao meio
e o grande segredo revelado
o que me dizem?
Agora que as árvores estão tombadas.
Agora que os pintores de faixas de rua
estão em greve contra os baixos salários.
Agora que as águas do Atlântico
chegam com extrema violência à praia
e arrebentam as calçadas e as
barracas dos vendedores de peixe frito
e sorvete de framboesa e morango.
Agora que a maldita mentira se vê exposta
sobre os grandes balcões dos bares
o que me dizem?
Seus merdas.

 

BEM DISTANTE

Um dia meu pai
despediu-se de seu pai.
Viajou para distante
e nunca mais o viu.
Eu, um dia
despedi-me do meu pai
viajei para distante
e nunca mais o vi.
Agora, as minhas filhas
viajaram para bem mais
bem mais distante.
Uma delas para muito longe.
Faz anos que está no céu.
Nunca mais a vi.
As outras, o mar nos separa.
Ainda que distantes
eu ainda as vejo.
Um dia elas dirão
que um dia
se despediram do pai.

 

POEM FOR SONNY PERDUE

Eu Vós peço, Senhor,

antes de excluir de Vossa terra

aqueles que buscam abrigo onde

os veados ainda correm na floresta,

Vós que tendes como ancestrais

povos vindos de lugares longínquos;

consultai, eu Vós peço, os filhos

dos Estados Unidos da América.

Consultai os Apaches, os Creek, os Navajos,

os Cherokees, os Sioux, os Comanches.

Consultai ainda os filhos

dos escravos africanos,

e também, Senhor, os filhos dos emigrantes,

aqueles que como Vós construíram a Terra do Pêssego.

Permiti que todos alcancem o Mississipi,

que todos adentrem as águas

do Altamaha ou as do Chattahoochee e mais:

que todos possam ser altos como os pinheiros.

A vida é um pássaro frágil

e às vezes tem a idade de um castor.

Meu dorso está nu

assim como a minha alma.

À direita meus olhos vêem o Brassmount,

à esquerda, os cemitérios deitados no chão.

Eu Vós peço, não eliminai, Senhor,

o sonho daqueles que a liberdade buscam.

NO FUTURO

Curvam-se os galhos ante os novos
inventos
sucumbem raízes na terra do
futuro

A imensidão verde/deflorada
deita-se no chão para o sono eterno
na procissão voam/caminham as criações
do paraíso etéreo

Os fantasmas negros/queimados
percorrem os claros
e deixam cair lágrimas
no solo maculado

SINFONIA / RURAL

A flauta do pastor
embala ovelhas brancas

Espelha o lar dos ancestrais/feudais
mirifica olhos/extáticos de passantes

Abranda corpos despidos de calma
coroa cabeças/sonhadoras como o sopro
do campônio

Soa finíssimos agudos e esparrama no ar
a nostalgia/alegria da vida no campo

Primataria #2 – Celso de Alencar (entrevista e poemas)

Loading

Seja o primeiro a comentar

Obrigada pelo seu comentário!