Bebê reborn e maternidade na visão de uma mãe PhD em Administração

Bebê reborn e maternidade na visão de uma mãe PhD em Administração

Roberta Basílio, PhD em Administração, comenta sobre o fenômeno comportamental “maternidade de bebê reborn”

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Afinal pode uma mulher se divertir brincando de boneca? O comportamento inusitado das mães de bebês realísticos tem causado polêmicas e dividindo opiniões, inclusive entre o público feminino. Bora refletir as camadas que envolvem esse fenômeno e possíveis riscos comportamentais?

Primeiro, percebemos que esse comportamento tem extrapolado os limites de brincadeira. Vi alguns conteúdos inusitados, como a postagem na qual uma advogada relata que uma mãe de reborn, buscava regulamentar a “guarda desse bebê”. Agora pense: quantos processos o poder judiciário (já sobrecarregado) tem de lidar sobre pensão alimentícia e guarda judicial de crianças reais que não têm seus direitos supridos adequadamente devido aos conflitos familiares entre seus cuidadores? Agora também vai ter que lidar com “guarda de reborn”?

Então, pode uma pessoa adulta brincar com uma boneca realística? Pode! Porém, o risco comportamental vem, quando essas mulheres levam essa brincadeira a sério demais e que podem gerar consequências prejudiciais ao bem-estar social (coletivo).

A crítica sob a ótica do machismo estrutural

Ninguém questiona homens (adultos) jogando vídeo game, que inclusive virou modalidade de competição chamada e-sports. Também não são questionados por andar de skate, jogar bola, empinar pipa, entre outras práticas.

O fato é que as mulheres foram ensinadas a brincar de boneca quando crianças como forma de socializá-la para o futuro papel que ela deveria desempenhar na sociedade, simplesmente por ser mulher. O que envolve: cuidar, estar a serviço do outro, priorizar as necessidades dos outros em detrimento das suas, pelo amor incondicional à família e aos filhos. Mas e quem cuida de quem cuida né?

Nesse caso, o homem deveria desempenhar o papel de provedor, então ele sai para trabalhar, tem momentos de diversão. Mas na juventude, ele é socializado para dedicar tempo aos seus interesses, como lazer e diversão. Enquanto isso, a menina deveria brincar de casinha e boneca.

Porém, depois de adulta isso perde o sentido. Afinal, ela já deveria estar desempenhando esse papel de cuidadora. E se ela estiver “brincando de ser mãe”, significa que está com tempo livre e que está a serviço da sua própria diversão. Talvez seja esse o incômodo que vem causando críticas da sociedade.

Dando uma olhada nas redes sociais, também vi comentários (inclusive de outras mulheres) do tipo: “elas precisam de tratamento”, “isso e falta do que fazer”, que são comentários que reproduzem o machismo, inclusive, por outras mulheres.

A crítica entre mulheres – Uma questão de gênero

Por outro lado, são diversos e complexos os sentimentos que essa prática instiga em outras mulheres que são mães de bebês reais, que são serem humanos e literalmente suas vidas dependem dos seus cuidados para sobrevivência. Estas crianças têm dependência física e emocional, que devem ser cumpridas, independente do humor e condições dessas mães. Não dá para guardar numa caixa quando estiver cansada.

Eu, enquanto mãe de um bebê (real) recém-nascido, gostaria do privilégio de (quando estou sozinha) poder colocá-lo no berço pelo menos por uns instantes, para poder suprir as minhas necessidades biológicas, como tomar um banho de qualidade, poder dormir o suficiente, comer com tranquilidade, entre outras necessidades que têm ficado em segundo plano. Afinal, a prioridade é o bebê (um ser humano que depende de uma pessoa adulta para sobreviver).

O privilégio de um recorte de raça e classe

Mergulhando na profundidade do tema (momento advogada do diabo), esse comportamento traz uma lógica de reprodução de privilégios, pois historicamente, mulheres negras foram ensinadas a brincar com bonecas brancas, como uma espécie de treino para cuidar de outras crianças brancas. E ainda, mulheres negras faziam a parte “difícil” da maternidade, para entregar os bebês limpos, alimentados e prontos para as mães brancas apenas desempenhar o papel social da maternidade, a diversão etc. Para refletir, quantas babás negras deixaram de cuidar dos seus próprios filhos, para dedicar-se ao cuidado dos filhos das famílias brancas? E ainda hoje, isso acontece (privilégio racial). Além disso, a prática requer um investimento razoável, já que é um produto artesanal e que por isso, fica inacessível ao público de baixo poder aquisitivo (privilégio de classe).

Partindo da superfície do assunto, podemos dizer que existe uma discriminação, até certo ponto, pela desvalorização e pelo julgamento do comportamento dessas mulheres, visto que homens em situação semelhante não são julgados por jogarem vídeo game ou por se divertirem com atividades, que eram brincadeira de criança.

Entretanto, o problema desse comportamento é quando essas mulheres levam essa brincadeira a sério demais a ponto de querer se igualar às mães de bebês reais a ponto de sentir-se no direito de usar uma vaga de gestante ou de pessoas com bebês de colo. De certa forma, diferente de jogar videogame, esse comportamento acaba por banalizar o fenômeno complexo que é a maternidade.

Portanto, em termos práticos, as mães e cuidadores de reborn (realísticos) precisam de maior atenção e ponderação considerando os limites entre o direito individual (de poder brincar) e o bem-estar coletivo para a brincadeira não virar Risco Comportamental.

Roberta Basílio, sócia do IPRC

 

David Alves
david@freshpr.com.br
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