Círculo polar
Por Beth Brait Alvim
aos 45 graus
de um salto
arranco lascas do meu couro derretido em ácido
e com os pés em carne viva chuto o lixo das esquinas de
São Paulo
bem alto
até cobrir a torre da catedral e
de longe
saco uma foto do topo da bela dama que
tem o ar de uma senhora medieva
com seu chapéu
de longe
à la Coco Chanel
… o lixo de São Paulo
mas são apenas restos sujeira excreção
apenas o cocô em zoom
os respingos da cultura ocidental
pintarolando as bordas dos pratos brancos dos que
sentam à mesa
e arrebitam o charme de Buñuel na beira dos seus narizes pontiagudos de cristais de neve ácida
e mal escondem seu esgar de cera diante de tudo o que
não brilha
e não é branco
como a lua
então
rio e choro rio e choro rio e choro
e grunho minha solidão nos buracos das bocas de lobo ardendo em febre
e toco gasolina e umas faíscas em um cano de prata até meu coração arder no fogo do inferno
em praça pública
e cavo sete palmos debruçada no cimento coberto de merda e rachaduras de um conserto mal feito de onde saltam pontas de estrelas feito pulgas famintas um estandarte de tangerina uma dançarina de cabaré antigo um ombro direito pisoteado pela Madame Cleci um espadachim seminu que sempre desce a Rua da Consolação o terceirizado nem aí com o serviço largado coçando o saco bem na cara do corre do centro o pipoqueiro do teatro que morreu de corona e os sem teto sem buraco sem cobertor sem prato sem papel higiênico sem água sem dois metros de distância sem vacina sem nada
e eu
corro corro corro
e me afundo na areia revirada da represa imunda e deliro
atrás de ciscos e lascas de conchas de mil anos e me afogo
até esquecer esquecer esquecer
então
esfrego com sal grosso minhas retinas nas pontas dos
meus seios
e rasgo com os dentes embora moles meu útero seco para que a dor de doer sem pele sem mente sem sangue
sem memória sem herdeiros
seja apenas o converter-me em ossos apaziguados
como baba de leite que jaz numa esquina qualquer
até explodir a lua cheia
e perder os sentidos de uma vez no seu
círculo polar
Um poema imagem de São Paulo, do livro Língua febril, 2022, Penalux
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Beth Brait é amor!