Comentários sobre o folclore joseense #5: o cachorro caramelo e a técnica secreta para compor melodias

Lançamos no YouTube o vídeo e a música do Cachorro Caramelo com a banda do Senhor Shitake. Não pretendo explicar o significado da letra, nem comentar sobre o processo de gravação ou de produção do vídeo (apesar de tudo isso ter sido muito interessante, pois foi o clip feito de forma remota). Acho até que as questões semânticas da letra são bem óbvias: não se trata de uma música que homenageia bichinhos de estimação. Se você está interessado nesses detalhes, sugiro ver o bate papo que fizemos com o Rafael Rodrigues no Sindicato da Cultura.

Sinto, contudo, que preciso expor uma técnica composicional que desconfio ser muito utilizada, especialmente pelos músicos satanistas que fizeram pactos com demônios (tais como Robert Johnson, Jimmy Page, Xuxa e Marilyn Manson) mas que não é muito discutida por ser deveras polêmica.

Como escrevi a melodia do cachorro caramelo? Foi muito simples. Decidi fazer uma invocação à procura de espíritos que, em suas vidas pregressas, foram grandes músicos. Para tanto, elaborei uma tábua de Ouija musical, na qual escrevi, além de letras, notas musicais e figuras rítmicas. No lugar de um copo, utilizei uma palheta (sabemos que copos são perigosos, pois espíritos malignos têm o hábito de quebrá-los, e, se não existe almoço grátis, quem dirá louça).

Depois de alguns minutos de invocação, uma entidade musical se manifestou. Perguntei seu nome, e a entidade escreveu “João Lemos”. Parei para pesquisar e vi que não havia nenhum músico famoso com esse nome. Mas a entidade insistia em escrever “João Lemos”, “João Lemos”. Até que tive um insight, e, assim como o Google faz, perguntei: “você quis dizer John Lennon?”, no que a entidade respondeu que sim.

De alguma forma, tinha iniciado uma sessão com o suposto espírito de John Lennon, com tradução para português em tempo real, do mesmo modo como certos escritores picaretas gostam de fazer com livros psicografados por espíritos famosos. Cético que sou, duvidei de cara; afinal, só acredito nos fatos da ciência e no poder do dinheiro. Então pedi provas. Disse a João Lemos: “te desafio a criar uma melodia para essa letra que escrevi sobre o cachorro caramelo. Me ajude a compor uma bela melodia e uma harmonia que lhe convenha, João Lemos, e lhe darei os devidos créditos como espírito psicografado”. Acredito que isso teria sido difícil até mesmo para o John Lennon verdadeiro. Então a entidade começou a soletrar as notas e alturas. A melodia foi se formando. Depois, ele soletrou a harmonia. Fiquei muito surpreso com o resultado. O estilo da música não lembra muito o de John Lennon, mas devo admitir que o tal João Lemos demonstrou ter uma personalidade musical.

Depois de anotar a melodia e a harmonia de João Lemos, gritei PERDEU PREIBÓI, rapidamente realizei um ritual de banimento para afastar o espírito, além de quebrar a tábua Ouija e fazer o sinal da cruz três vezes. Para evitar problemas futuros, estou realizando o ritual do pentagrama menor duas vezes ao dia. Resolvi roubar a música do espírito de João Lemos, e foi assim que escrevi a melodia do cachorro caramelo. Se antes houve a parceria Lennon/McCartney, agora há a parceria Lemos/Meireles (é que meu primeiro sobrenome é Meireles). Se antes houve Blackbird, Yellow Submarine ou Golden Slumbers, agora há o Cachorro Caramelo. E se o João Lemos tiver algum problema com isso, ele que reencarne e venha acertar suas contas. Se bem que, até lá, eu já terei morrido. Aí vai ser o João Lemos que, reencarnado, vai me invocar e roubar minhas melodias.

Pra finalizar, uma previsão que recebi dos discípulos de Walter Mercado em uma ligação telefônica para Porto Rico: o nome de João Lemos na próxima reencarnação será Ednaldo Pereira Neto.

Sobre Bruno Ishisaki 7 Artigos
Cancionista e compositor de música de concerto. Doutor, Mestre e Bacharel em Música pela UNICAMP. Especialista em Composição Musical pela FMCG. Professor substituto do curso de Composição da USP. Autor de conteúdo de artes na Editora FTD. Membro das bandas Senhor Shitake e Os Joseense e do coletivo Tempo-Câmara.

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