Como pensar a cultura como negócio sem perder a alma artística?

Como pensar a cultura como negócio sem perder a alma artística?

Em mais de uma década atuando na produção de grandes espetáculos, aprendi que o setor cultural brasileiro pulsa em uma tensão constante: de um lado, o sonho, a força criativa que nos move e transforma; do outro, a estrutura, a necessidade pragmática de garantir que a cortina possa, de fato, se abrir na noite seguinte. Muitas vezes, esses dois mundos são vistos como opostos, como se a lógica de um negócio fosse, por natureza, a inimiga da alma artística.

Essa dicotomia me levou a uma pergunta que norteia meu trabalho diariamente: é possível pensar cultura como negócio sem vender a alma? É possível construir um empreendimento cultural com propósito e, ao mesmo tempo, com os pés no chão e os olhos no futuro?

A minha resposta é um sonoro e convicto sim. Mais do que isso, afirmo que a sustentabilidade financeira, quando bem planejada, não apenas protege a essência criativa, mas a potencializa.

Engana-se quem acredita que a arte se perde quando a organização empresarial começa. Pelo contrário. Em nossos processos criativos, quando trazemos um profissional internacional para desenhar a cenografia de um musical, por exemplo, a primeira pergunta que me fazem é quase sempre a mesma: “Qual é o orçamento?”.

O orçamento é um desafio que nós, produtores, devemos lidar. Crie aquilo que você acredita ser o melhor para o espetáculo, o que sua criatividade mandar. Se precisarmos ajustar a rota, encontraremos o caminho.

Isso só é possível graças a dois elementos-chave: tempo e planejamento. Um projeto cultural de grande porte não nasce em meses, ele é gestado ao longo de anos. A negociação dos direitos de Matilda, por exemplo, durou uma década. Primeiro foi preciso alinhar a estratégia internacional da propriedade intelectual com a disponibilidade de pauta em palcos nacionais, depois fizemos todo o processo para alinhar profissionais da equipe criativa e, por fim, garantir o patrocínio. Trabalhos como esse são complexos e levam anos para sair do papel.

Esse tempo de maturação permite que as ideias criativas floresçam sem as amarras de uma urgência limitante, enquanto, em paralelo, a estrutura de negócio se fortalece para transformar essa visão em realidade. A arte precisa de espaço para respirar, e um bom plano de negócios é o que garante esse oxigênio.

Expandindo o olhar
Pensar cultura como negócio é dar à criatividade o mesmo respeito, a mesma diligência e a mesma estrutura que se concede a qualquer outro setor produtivo. Isso significa olhar para o projeto de forma integral. A experiência do público não começa quando as luzes do palco se acendem, ela se inicia no momento em que ele busca o nome do teatro no aplicativo de mobilidade, na forma como é recebido na porta, no conforto da poltrona.

É por isso que expandir nossa atuação para a gestão de equipamentos culturais foi um caminho natural. Controlar a experiência 360°, da curadoria ao serviço de bar, garante a qualidade que desejamos entregar e, ao mesmo tempo, diversifica nossas frentes de receita, mitigando os riscos inerentes ao nosso setor.

Nesse ecossistema, as políticas públicas de fomento são ferramentas estratégicas, e não uma muleta. Mecanismos como a Lei Rouanet são essenciais, não apenas para a viabilidade financeira das produções, mas para sua missão social. Os custos para montar um espetáculo com padrão técnico internacional, empregando centenas de profissionais – em Matilda, foram 263 empregos diretos e mais de 1.500 indiretos – são altos e simplesmente não se pagam apenas com a venda de ingressos.

Mais importante, o fomento é a principal ponte para a democratização do acesso. Por lei, projetos incentivados destinam parte significativa de seus ingressos a preços populares e à distribuição gratuita. Em Matilda, em apenas cinco meses de temporada, mais de 40 mil pessoas foram impactadas por essa iniciativa, muitas delas tendo seu primeiro contato com o teatro. Isso não é assistencialismo, é formação de público e construção de cidadania. É a prova de que um negócio cultural pode gerar lucro e, simultaneamente, um profundo impacto social.

Avaliar o sucesso, portanto, vai muito além da ocupação da sala. Medimos a taxa de reincidência do público, aplicamos pesquisas de satisfação e acompanhamos de perto a jornada de cada espectador. Cada dado, cada sorriso, cada aplauso se torna um indicador que alimenta a nossa próxima decisão.

Sonhar e viver
Cultura e negócio não são antagonistas. São faces da mesma moeda. Uma depende da outra para gerar valor, relevância e continuidade. O desafio do empreendedor cultural é se tornar um maestro que rege essas duas forças com a mesma maestria.

Para quem deseja trilhar este caminho, meu conselho é um só: siga seu coração, mas sempre guiado pelo cérebro. A emoção é o que move o propósito artístico, mas a razão deve ser a tomadora de decisões. É preciso ter coragem para sonhar grande e estrutura para tornar esse sonho real. Somente assim conseguiremos construir um legado que não apenas encha os teatros, mas que fortaleça a cultura brasileira como a potência econômica e transformadora que ela merece ser.


Sobre Vinicius Munhoz
Vinicius Munhoz é produtor de referência no mercado de entretenimento ao vivo, reconhecido por sua habilidade em unir excelência artística e técnica em produções de padrão internacional. Atuando há mais de 12 anos como produtor de grandes espetáculos, liderou títulos de destaque no teatro musical brasileiro, como Wicked (2023), Evita Open Air (2022), Charlie e a Fábrica de Chocolate (2020/2021), School of Rock (2019), Billy Elliot (2019), Annie (2018) e A Noviça Rebelde (2018), além de ter produzido Homem de La Mancha (2014-2016).

Para mais informações, entrevistas e personagens:
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