Depoimento: Memórias de Cipriano Boêmia

 Depoimento: Memórias de Cipriano Boêmia

Conheci o Cipriano em 1985, quando eu trabalhava na Avenida Paulista – um prédio de vidro fumê ao lado de dois prédios gêmeos da Caixa Econômica Federal. Na época, eu era um office-boy recém-efetivado pela “Guardinha Mirim” (o CAMP), onde jovens da periferia tinham sua primeira oportunidade de emprego.

Pouco tempo depois, o Cipriano começou a trabalhar no mesmo escritório que eu. Por coincidência ou não, aquele era um ambiente extremamente cultural e politizado. Trabalhávamos na ABEF, uma associação que oferecia entretenimento aos funcionários da Caixa. Nosso setor vendia ingressos de teatro e discos por encomenda, além de produzir jornais internos – desde o esboço inicial até a impressão em máquinas de eletrólitos. Nós distribuíamos esses jornais pelos 24 andares do prédio vizinho e enviávamos malotes para outros estados via Correios.

O operador da máquina de impressão era o Sr. Nivaldo. Ficávamos admirados vendo cada etapa, da folha à tinta. Ele era um homem muito politizado e influenciou profundamente a nós dois, especialmente ao Cipriano. Além disso, o setor alugava filmes para os funcionários. Foi ali que assisti, pela primeira vez, a clássicos como Easy Rider, O Encouraçado Potemkin, Expresso da Meia-Noite e Alien. Nossas sextas-feiras viraram um ritual: escolhíamos um filme e bebíamos vinhos de excelente qualidade, trazidos do Sul por um fornecedor gaúcho muito simpático.

Eu era apenas um adolescente descobrindo o mundo. As conversas e os comentários das pessoas ali, inclusive do Cipriano, moldaram meu caráter e meus princípios. Nosso chefe, o Élvio, era formado em cinema e tinha claras divergências com a diretoria. Ele me tratava muito bem e, apesar de alguns atritos com o Cipriano, havia um respeito mútuo. Quando o Élvio saiu, o Cipriano assumiu a chefia do setor.

O “Escritorinho” Punk

A partir dali, ele mudou radicalmente o visual do escritório. As paredes foram tomadas por fotos do Sex Pistols, GBH, frases anarquistas e um pôster que me marcou pelo impacto (e pelo risco): enquanto madames da alta sociedade entravam ali para tratar de aluguéis de luxo no Rio de Janeiro, davam de cara com a imagem de um jovem defecando, acompanhada da frase: “Enquanto houver burocracia, estaremos numa grande merda”. Lembro-me de uma senhora elegantíssima observando o pôster enquanto oferecia imóveis na Vieira Souto. Rimos muito depois que ela saiu.

O Lado Humano e a Cena

Eu morava em Santo André e o Cipriano morava em uma casa em Diadema. Ele ficava fascinado com as histórias que eu contava sobre os trens de subúrbio, e isso nos aproximou muito; ele era como um irmão mais velho para mim. O Cipriano era um cara doce, inteligente e de um coração enorme, mas carregava aquela aura autodestrutiva de quem parece não querer demorar muito por aqui.

Embora eu nunca tenha adotado o visual, absorvi todo o espírito punk graças a ele. Quase apanhei dele quando mexi nas fitas dos Excomungados, uma das minhas bandas favoritas. Curiosamente, o Mansglio, um skin que trabalhava dois andares acima, era irmão do China (baixista da banda) e foi um dos que influenciaram a transição do Cipriano para o movimento skin.

Histórias de Rua

Tenho muitas memórias: conheci a Vera (vocalista do DZK), vi o nascimento da filha dele, e bebi muito nos barzinhos da Paulista. Fomos a um show punk na Praça da Sé que terminou em confusão, com a polícia dispersando todo mundo à base de cacetete. Andamos muito pelo centro nos fins de semana; seus comentários, ora poéticos, ora com um humor ácido no estilo Monty Python, ficaram guardados com muito carinho.

Outra figura fantástica que trabalhou conosco foi o Rogério de Campos (que mais tarde o levou para a revista General). O Rogério fazia os esboços do jornal e, nas horas vagas, criava a revista de HQ Animal e tocava na banda Crime, que era rock de verdade.

Espero que este relato ajude a conhecer melhor o Cipriano. Ele foi meu amigo e meu irmão por um bom tempo da minha vida.

Claudio Pereira

 

 

 

 

 


Confira o Texto do Entrementes:

https://entrementes.com.br/cipriano-boemia-um-punk-da-periferia/

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Sobre Cláudio Pereira 3 Artigos
Cláudio Pereira conta histórias e escreve sobre as cenas culturais dos anos 80, do Movimento Punk na Grande São Paulo. Nasceu em Santo André e viveu lá até os 20 anos, hoje mora em outro estado. Acredita na Democracia, mas enxerga a política com os óculos da Anarquia.

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