“Diários de um Robô-Assassino”

Diários de um Robô-Assassino

Nesses tempos de inteligência artificial, estamos meio que numa pausa, observando o desenrolar de novos pensamentos e ações diante dessa Revolução Tecnológica. O mundo está mudando rápido e a nossa contemporaneidade está com uma nova cara. A Arte será ameaçada? A Ciência será beneficiada? A Filosofia será incrementada com novos paradigmas? O Esoterismo será revelado em seus mistérios ocultos? Só os deuses sabem.

Enquanto isso, vamos nos distraindo em redes sociais e vez ou outra a gente escreve algum texto, que sai das nossas entranhas e não do Gemini, Grok ou daquele Chat que muitos usam não como uma ferramenta eficiente, mas para fazer arte ou pensar, credo, que arrepio. Outros assistem séries e “eu poderia ficar assistindo séries até minha bateria acabar”. A bateria do meu celular? Não! A bateria do meu Notbook? Não! Até a bateria da minha máquina humana acabar. Resumindo, eu sou viciada em séries e assisto pelo menos uma minissérie por semana ou uma temporada das séries mais longas. Ultimamente está difícil encontrar séries que valem a pena. Assisto o primeiro episódio de várias e acabo não assistindo o restante por detectar que não vai dar legal. Quando é boa, vou até o fim.

Homens e máquinas tem muito em comum e surgem muitas histórias e poemas evocando máquinas e homens. A Terra gira e nós giramos com ela, de uma forma alucinada, ficando meio giras, como se diz em Portugal.

Hoje comecei a assistir uma série da Apple TV por demais interessante e recomendo a vocês que estão lendo esse texto. A série é “Diários de um Robô-Assassino”, uma comédia de ficção científica muito leve e interessante. Os episódios são curtos, de no máximo 30 minutos e a primeira temporada tem 10 Eps, sendo que o último vai rolar no dia 11/07/25. É muito rápido maratonar e por enquanto, só uma temporada. A série conta a história de um robô que se expressa num diálogo consigo mesmo, contando sobre seus pensamentos e opiniões ao interagir com humanos. Ele é um robô que hackeia sua própria programação e adquire livre arbítrio, tornando-se senciente. E mesmo cumprindo sua missão de proteger seus clientes, tenta se manter independente, analisando com ironia, as emoções humanas. Essa série é baseada na série de livros “The Murderbot Diaries” de Martha Wells onde explora a trajetória de um robô em sua autodescoberta e a sua compreensão das emoções humanas.

O mais interessante é que esse robô simplesmente é um seriático maldito. Ele é muito viciado em séries e a frase que me inspirou: “eu poderia ficar assistindo séries até minha bateria acabar” é dele e por isso me identifiquei com essa máquina.

Elizabeth de Souza
090725

 

 

Coloco abaixo o texto do crítico Caio Coletti do site Omelete:

Esticando sci-fi modesto dos livros, Murderbot mais acerta do que erra

Trazendo leveza para catálogo de ficção do Apple TV+, produção conquista na intimidade

CAIO COLETTI
16.05.2025, ÀS 08H19.

Qualquer leitor de The Murderbot Diaries, série literária de ficção científica assinada por Martha Wells, sabe que grande parte da graça da trama urdida pela escritora está no diálogo interno do protagonista – um andróide de segurança pesadamente armado, que hackeou o seu módulo de controle e reescreveu o código que o obrigava a obedecer às ordens dos humanos que contratam os seus serviços através do conglomerado empresarial que o construiu. Ao invés de voltar suas armas para seus patrões, no entanto, Murderbot escolhe continuar sua rotina de guarda-costas de cientistas, mineradores e outros contratantes sem muita mudança… ele só rouba alguns minutinhos aqui e ali para assistir à sua série favorita, The Rise and Fall of Sanctuary Moon.

O humor dos livros advém do cinismo do personagem, temperado por uma ansiedade social e um desdém resignado pelo trabalho que é inteiramente identificável em pleno século XXI. Wells, por sua vez, demonstra repetidamente que, tal como Murderbot, está pouco interessada em especificar detalhes e se demorar em cantos periféricos de seu universo – o foco inflexível no ponto de vista do protagonista, em primeira pessoa, cria um sci-fi relativamente modesto porque se limita ao que ele consegue ver, perceber e pensar. Ao menos dessa vez, a graça não está em cenas de ação épicas, impérios travados em conflito, estratagemas políticos extrapolados para a escala de câmaras de governo intergaláticas. Murderbot é só mais um de nós, e o trabalho não o deixa em paz.

É esse charme único que Diários de um Robô-Assassino, adaptação dos livros de Wells para o Apple TV+, tenta capturar. E não é uma missão fácil, a abraçada pelos irmãos Paul e Chris Weitz, que atuam como roteiristas de toda a primeira temporada da série, além de dirigir alguns episódios. Conhecidos por assinar juntos hits como American Pie e Um Grande Garoto, os irmãos seguiram trajetórias separadas nos últimos anos – Paul persistiu na rota das comédias dramáticas com Paternidade e Aprendendo com a Vovó, enquanto Chris enveredou pelo blockbuster de gênero com A Saga Crepúsculo: Lua Nova e A Bússola de Ouro. Curioso perceber que Murderbot se localiza no meio termo entre as duas coisas, uma história futurista de ficção científica na qual construir um mundo separado do nosso é importante, e a sensibilidade pulp tem espaço, mas também uma dramédia ácida sobre vicissitudes humanas e a indiferença cruel do mundo corporativo.

Talvez por isso os Weitz acertem o tom da narrativa com tanta precisão. Preservando ao pé da letra algumas das tiradas mais espertas do texto de Wells, eles garantem que o discurso que tornou a criação literária tão interessante para a contemporaneidade se mantenha intacto, mas também se aproveitam do trampolim do audiovisual para se demorar um pouco mais em outras gags, e usá-las para traçar paralelos com a história mais prática que se desenha durante a temporada. Se no papel, por exemplo, a existência de Sanctuary Moon é utilizada como mero marcador das ansiedades do protagonista – sempre citada, pouco explorada -, aqui ela se expande para cenas completas de uma história que vai ganhando status de espelho das situações enfrentadas por Murderbot na “vida real”. 

É um primeiro passo inteligente para um processo criativo que se define pela necessidade de arrastar muito do que acontece no íntimo do personagem principal para a luz do dia – literalizar, mais até do que adaptar. Mas essa literalização também implica na criação de situações nas quais os conflitos dentro da cabeça dos protagonistas possam vir à tona, se traduzir em embates verbais e físicos que podemos observar, ao invés de ler. Daí que a primeira temporada de Murderbot, embora pareça modesta no cenário televisivo contemporâneo com seus 10 episódios de 20 e poucos minutos, na verdade se dedica muito a esticar a trama de Alerta Vermelho, o primeiro volume da saga de Wells. Na TV, se multiplicam as viagens de reconhecimento, tentativas de sabotagem e planos mirabolantes enfrentados pelo grupo de cientistas que Murderbot precisa proteger.

E os Weitz talvez sejam contadores de história habilidosos, mas nem eles são capazes de dispersar completamente o sentimento, pelo menos em alguns episódios do miolo da temporada, de que uma transformação para o pior aconteceu aqui. O que era um sci-fi modesto e concentrado nas preocupações de personagem se tornou uma história esticada para um pouco além de suas capacidades, rasa pela natureza da superfície mais ampla na qual foi aplicada. É um ato de extensão, sem dúvida, que tem seus revezes – mas também seu bônus: em Murderbot, a série, a afeição difusa que o texto de Wells cria pelos personagens que cercam o protagonista é exacerbada, crescendo de uma boa vontade vaga gerada por suas ações minimamente humanas diante do predicamento de Murderbot para uma compreensão mais completa de quem eles são.

Especialmente para quem já experimentou essa história na página, essa troca proposta pelos Weitz pode se provar recompensadora. É delicioso ver um elenco tão íntegro (Noma Dumezweni e David Dastmalchian estão especialmente brilhantes, é claro) dando vida a um grupo que se relaciona com o Murderbot de Alexander Skarsgard de forma apropriadamente hesitante. A dança que os atores da série fazem, de quebrar ideias pré-concebidas através de interações que sempre se apresentam como escolhas entre a generosidade e o egoísmo, é um prazer único desta versão de Murderbot – que essas criações ficcionais tenham espaço para ser frustrantes e inspiracionais, embaraçosas e genuínas, equivocadas e surpreendentes, é uma adição bem-vinda a um mundo que já tinha muito carisma.

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Sobre Elizabeth Souza 433 Artigos
Elizabeth de Souza é coordenadora e editora do Portal Entrementes....

1 Comentário

  1. é muito cabuloso assistir esse tipo de coisa nesse ponto em que nos encontramos da história moderna porque eu acho, SÓ ACHO que a gente tá vivendo o nascimento de uma distopia na qual os robôs tomarão a terra hahaha

Obrigada pelo seu comentário!