Frio

Por Milton T. Mendonça

O dia corria calmo. O inverno deixava seu rastro como sempre fazia, criando em nós, os mortais mais frágeis do universo, aquela sensação de que não iríamos conseguir sobreviver. Bom, pelo menos era a sensação que eu tinha enquanto caminhava pela rua úmida, com as mãos semicongeladas enfiadas no bolso da jaqueta que roubara no ponto do ônibus. Não foi bem um roubo, tenho que esclarecer: Pedi emprestada ao sujeito depois de vê-lo maltratando a garota. Percebi imediatamente que era um idiota. Olhei sua jaqueta e considerei uma afronta um cara daquela espécie ter algo tão bonito e confortável enquanto eu que nunca fizera mal a uma mosca, ali passando frio.  Puxei o revolver que trazia escondido embaixo da camisa, para entregar ao Eurípedes a pedido do Boia e enfiei meio desajeitado nas fuças do canalha. Foi gostoso ver a expressão da garota. Seus lindos olhos verdes soltaram faísca e sorriram, apesar do rosto vermelho pela tapa que recebera do malandro.

Levantei a gola forrada com lã branca e macia e senti o calor esparramando pelo pescoço. Bochornal – pensei, e correndo atravessei a rua parando frente ao bar.  Empurrei a porta, entrei e caminhei resoluto para o aparador, àquela hora, apinhado de gente. Encostei-me na ponta perto do banheiro e tentei chamar a atenção do individuo que atendia a gentama. Tirei a chave do bolso e chacoalhei fazendo barulho de guizo. Ele me olhou com aqueles olhos de cobra, mas não se interessou. Voltei a chacoalhar o molho de chave com mais força, fazendo sinal com a mão pedindo um trago de aguardente com grapa e o olhei com cara de poucos amigos.

Com má vontade se aproximou com o copo pela metade. Peguei sem olhá-lo nos rosto e entornei de um só golpe. O líquido desceu queimando minhas entranhas amargando minha boca apesar da grapa. Pedi mais uma e mantive-a nas mãos enquanto perscrutava o ambiente sórdido.

Sentia-me sozinho. Uma grande tristeza abateu sobre mim. Observei as pessoas que falavam aos gritos já meio alto pela bebida forte e me senti estranho naquele lugar. Ao fundo um homem beijava de maneira indecente a mulher que ria despudoradamente. Fiquei enjoado. Por um momento senti muita raiva. Queria sair dali, mas não tinha para onde ir. Aquele era meu mundo. Eu fazia parte de tudo aquilo.

Lembrei-me do desemprego que me fustigava havia vários meses. A imagem de Tedesco rindo enquanto pegava minhas coisas no armário da empresa encheu meu peito de ódio, cegando momentaneamente minha visão. Fora ele, eu sabia, que tinha me caluniado para o chefe. Senti gana de matá-lo. Recordei Catarina e suas lamurias e revi a despedida com mágoa. O ódio voltou com mais força ao lembrar o diretor com aquela lengalenga só para dizer que não poderia mais continuar no curso – o pagamento dos alunos serve para criar um ambiente digno – dissera ele.

Alguém abrira a porta e o ar gelado correu a sala apinhada chegando morno onde eu estava. Tomei a grapa e pedi outra – dupla – dissera. E com bastante aguardente.

Olhei o espelho na parede e vi um homem desconhecido. Os cabelos outrora brilhantes se tornaram opacos. Olheiras imensas de cansaço envelheciam os olhos, deixando meu rosto miserável.  A angústia percorreu meu corpo se alojando no estômago – me sentia perdido. Furioso. Não sei bem o que aconteceu só me lembro de sentir uma grande alegria ao ver os corpos caírem ensangüentados enquanto apertava o gatilho. Lembro-me que acertei todos que me queriam mal. Catarina foi a primeira a cair, aquela traidora.

– Mas ela não estava lá. Você não conhecia ninguém naquele bar.

– Como não doutor?  O bar é na rua de minha casa.

– Não! Você estava do outro lado da cidade… Entrou lá para fugir do frio.

– Não é possível doutor! Preciso sair daqui…

– Você está preso, meu velho. Vai ficar por aqui os próximos trinta anos.

– Não!

Pulou da cadeira e saiu correndo em direção à escada.

– Pare se não atiro! – O delegado gritou atrás dele.

Voltou à cabeça e sorriu. A liberdade estava a um passo.

 

Imagem: http://www.gazetadopovo.com.br/

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