
Graciliano e as asperezas da vida
Graciliano Ramos é um dos meus literatos preferidos, mais admirados. Talvez o mais. Fico indeciso entre ele e mais uns dois. Não vou revelar-lhes os nomes. Figuram no panteão dos gênios da literatura brasileira.
Aprecio-lhe o estilo econômico, sem excessos, nem concessões a penduricalhos. Cada palavra e frase ocupam o seu exato lugar, nem mais, nem menos. Uma rigidez calculada, sem perder a clareza e a elegância. Na sua concepção de literato a palavra deve imitar a vida e ser sua expressão genuína. Para esse alagoano de Quebrangulo, a vida é feita de asperezas e a literatura serve para descrevê-la.
“Quem dormia no chão deve lembrar-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze.” (Memórias do Cárcere)
Coincidência ou não, li Vidas Secas, uma de suas maiores obras, quando me recuperava de uma cirurgia num hospital. Tumor maligno na próstata. Recuperação demorada, sofrida. Minha permanência no hospital, prevista para três dias após a operação, estendeu-se por oito dias.
Naquele verão de 2006 li sobre as desventuras do vaqueiro Fabiano e sua família, retirantes, na luta contra a seca e a miséria. Naquele sertão nordestino, relegado ao abandono e à violência, ele resiste até o limite de suas forças.
Quando finalmente recebi alta, grande era minha sensação de alívio. Porém, a alegria durou pouco. Dias depois retornei para curar uma infecção hospitalar. Mais alguns dias internado.
Naqueles dias de recuperação entendi as razões de Graciliano Ramos. A vida nem sempre se desenrola num palco iluminado.
Gilberto Silos
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