O mistério de Elisa – Capítulo 7

Por Milton T. Mendonça

O mistério de Elisa – 7º Capítulo

Teóphilo olhou-a demoradamente antes de responder:

– A única coisa que sabemos Margot e eu é que você é uma das nossas. Algo está acontecendo, mas não fomos informados. Durante muito tempo divagamos sobre nossa missão…

– Missão? Que missão?!

– Nos últimos vinte e cinco anos fomos responsáveis por você. Não se lembra de Margot na sua adolescência?

– Claro! Éramos amigas no segundo grau.

– Na verdade uma parte da missão era lhe ministrar uma droga criada por nossos cientistas… Lembra-se como Margot sempre trazia lanches especiais para a escola e fazia questão que comesse com ela?

Elisa lembrou-se dos lanches deliciosos que Margot trazia consigo. Sempre se encontravam nos intervalos das aulas para comê-los e se escondiam das outras garotas. Riam muito por causa disso.

– Lembro-me bem dessa época. Achava prazerosos aqueles momentos de camaradagem com Margot. Então quer dizer… Ela me traiu?!

– Não! Nós sempre gostamos muito de você. Sempre a protegemos…

– E as drogas? Para que serviam?

– Nunca ficou muito claro para nós…

– Lembro-me que Margot ficou muito preocupada quando seu cabelo vermelho escureceu. Lembra-se de seu cabelo vermelho?

– Lembro-me claro! Achei muito bom estava cansada das piadas dos meninos. Margot é que ficou preocupada… Agora que falou, achei estranho seu comportamento na época, mas pensei ser coisa de menina…

O zumbido inesperado pegou-os tenso e Teóphilo levantou-se de um pulo antes de antendê-lo rispidamente:

– Diga!

A face séria do general surgiu na tela. Rugas cortavam sua testa e olhos.

– Estamos com problemas – iniciou devagar – não conseguimos entrar na cidade. Descobriram nossos aliados e estão todos mortos.

– Como? Margot está morta?

– Não! Os aliados de dentro da cidade. Margot está com duas naves de transporte do lado de fora tentando entrar.

– O que podemos fazer para ajudar general?

– Precisamos de alguém para abrir o tubo… Temos um plano talvez funcione.

– Diga-me general…

– Estamos mandando uma nave para buscá-los. Precisamos que vá a um lugar discreto…

– Conheço um lugar general. Vou passar as coordenadas.

Teóphilo digitou vários números e a seta correu o mapa que surgiu tomando todo espaço da tela que se estendeu dobrando de tamanho. O rosto de seu interlocutor se fixou no ângulo superior direito reduzida em dois quartos.

– Estamos a caminho general.

Desligou e se virou para Elisa que o observava atônita.

– Morreram todos da cidade? E João?

– Não acredito que algo de mal lhe aconteceu, Ele não é nosso aliado. É apenas um visitante… Precisamos ir Elisa!

– Para onde vamos?

– Conheço um lugar próximo ao rio Paraíba que poderemos usar. Sempre o uso quando preciso ir à cidade subterrânea.

Enquanto falava fez uma chamada rápida e pediu um taxi quando atenderam do outro lado.

O taxi os deixou frente à passarela ao término do viaduto. Desceram o declive e correram pelo calçamento até o campo de futebol mais adiante. A manhã estava cinzenta por causa da chuva fina que se iniciara logo após o amanhecer. O gramado bem cuidado estava encharcado e o frio fazia Elisa tremer dos pés à cabeça. Subitamente algumas luzes surgiram no alto e foi descendo ligeira e silenciosamente, pousou próximo ao casal e abriu a porta. Entraram no conforto do veículo e se sentaram atrás do piloto.

– Margot! – Teóphilo exclamou – Não conseguiu entrar na cidade?

– O tubo está travado… Impossível entrar sem ajuda.

– João corre perigo Margot? – Elisa perguntou de supetão.

– Não acreditamos nisso Elisa. Ele é apenas um visitante inofensivo. Provavelmente está se divertindo com o MPN.

– MPN? O que significa?

– Módulo de propagação neural. É nossa agencia de turismo – Margot sorriu se virando para Elisa.

– Você não foi convidada a conhecer nossa história? -Teóphilo perguntou – É nossa maneira de impressionar os visitantes.

– Estive lá – Elisa respondeu jocosa – Mas não precisava disto para me impressionar. Já estava muito impressionada desde a caverna.

A nave subiu velozmente deixando a atmosfera terrestre em segundos. Elisa estava atônita. Percebera o momento que saira da atmosfera e pode ver a terra se afastando ligeira. Estava em choque ao sair da poltrona pelas mãos de Margot que a levantou gentilmente e empurrou para a escada alguns segundos depois. Pulou para o chão sentindo o piso vitrificado sob os pés. A menor gravidade a deixou leve e bem humorada. Olhou para os lados, mas a única coisa visível era centenas de naves de todos os tamanhos e formas pousadas sobre os apoios de metal. As paredes sólidas nada demonstravam que pudesse perceber que estava na lua.

Seguiram pelo mesmo trajeto que fora feito horas antes por Margot e seu acompanhante. Cruzaram corredores, passaram pelo globo transparente e findaram na sala onde o general rodeado por analistas que examinavam seu plano, esperava impaciente.

– Finalmente chegaram! – O general exclamou exasperado.

– O que está acontecendo general… Todos estão mortos?

– Sim! O patife descobriu-os todos.

– Sinto muito general, mas é a guerra. Quais são os planos?

– O plano senadora. Temos apenas um plano e terá que dar certo…

– Vamos a ele então general – A senadora articulou ríspida.

– Aproximem-se! Senhores exponham o plano para a senadora.

O plano foi explicado mostrando que a situação estava muito difícil. A única pessoa disponível para resolver o problema era João um completo desconhecido e ignorante tanto da tecnologia quanto da cidade subterrânea. Não bastasse o risco implícito nessa escolha ainda teriam que depender do fator sorte e tê-lo usando o MPN no momento que entrassem em contato. Somente assim poderia se criar o link entre ele e Elisa sem serem descobertos pelos inimigos. E esperar que João confiasse nela e executasse a tarefa que seria solicitado, apesar da ousadia.

Elisa deitou-se no divã e esperou que Margot lhe colocasse o aparelho. Antes de fechar os olhos perguntou:

– Tem certeza que vou me conectar com João? E se não der certo?

– Não se preocupe Elisa – o homem que observava respondeu – vocês estiveram juntos lá embaixo e usaram o sistema ao mesmo tempo. Com certeza sobraram resíduos suficientes em seu cérebro para criar uma assinatura que permitirá conectá-los. Somente não seria possível se houvesse passado vinte e quatro horas, mas acreditamos que ainda haja tempo. Se sentir um calafrio após ligarmos o aparelho abra os olhos que saberemos e cortaremos a conexão. Fique tranqüila e relaxe. Tudo está sob controle.

– Elisa – Margot sussurrou ao seu ouvido – não a deixarei sozinha. Entrarei assim que você se conectar.

Elisa fechou os olhos e sentiu seu corpo flutuar como uma pena soprada pelo vento no escuro vazio de um abismo. A porta se abriu com um rangido no fim do túnel circular que surgira como mágica atraindo seus olhos ansiosos por um pouco de claridade. A atração foi imediata e seu corpo flutuou lentamente puxado pela força magnética da luz que brilhava como uma supernova. Quando deu por si estava sentada no mesmo divã onde estivera algumas horas antes na cidade subterrânea. Ao lado João permanecia deitado com os olhos fechados. Um brilho chamou sua atenção e quando se virou Margot olhava-a sorrindo em pé próximo ao seu divã. Estava confusa. Não conseguia se lembrar o que estava fazendo ali.

– Onde estamos – perguntou ansiosa.

– Estamos no hiper-espaço. Está se sentindo bem?

– Estou leve… Não sinto meu corpo.

– É assim mesmo… Já vamos nos conectar com João. Está preparada?

– Ah sim! Agora me lembro… Estou bem… Estou bem.

Elisa viu seu corpo se esticar e o pé ser puxado para dentro do ouvido de João desaparecendo em seu interior e levando consigo o resto do corpo. A sala desapareceu e a vertigem de cair em um precipício sem fim deixou-a apavorada. Os segundos se passaram lentamente criando um vácuo monótono em câmara lenta. Ouviu barulhos de metal se chocando contra metal, gritos de desespero misturados a choros de mulheres. Ficou alerta.

Percebeu ao longe uma fresta de luz. Fixou-a hipnotizada com a claridade e a viu crescer absorvendo tudo a sua passagem. A luz engoliu-a e quando abriu os olhos estava sentada no piso de mosaico de um grande salão com paredes de mármore.

Olhou a sua volta e enxergou João debruçado na janela observando algo lá fora que o fascinava. Levantou-se e caminhou em sua direção curiosa. Ao tentar pular um obstáculo baixou os olhos e percebeu centenas de corpos de mulheres e crianças mortas espalhadas por todo lado dispostos como se dormissem.

Chegou à janela e no platô abaixo outra centena de pessoas, agora homens, deitados, a maioria com a cabeça ao lado do corpo, organizado numa tentativa desesperada de manter a dignidade dos valentes guerreiros que optaram pela morte em vez da rendição e a tortura. O ultimo combatente com o corpo transpassado pela espada estava caído próximo a borda do platô, dando a nítida impressão que se jogara sobre ela no intuito de praticar suicídio após se incumbir da missão de assassinar seus irmãos.

Ao longe o deserto estava salpicado de soldados romanos que marchavam em direção ao planalto empurrando enormes catapultas, pontes móveis e aríetes com cabeça de ferro no formato de carneiro selvagem. Percebia-se que o cerco estava prestes a terminar.

– É Massada – João articulou ao perceber sua presença

– Massada em Israel?

– Sim. Estamos presenciando o grande cerco de Massada – Falou com um tom de júbilo na voz.

– Olha lá em cima – João ordenou – Vê a nave de nossos amigos?

Elisa mirou o céu e pode ver a nave estacionada bem em cima do platô observando – talvez filmando – a invasão da cidade.

– Precisamos de sua ajuda! – Elisa falou indignada.

– Minha ajuda?

– Sim. É um caso de vida ou morte.

Antes que pudesse responder uma leve distorção fez desaparecer as imagens de guerra e em seu lugar surgiu a biblioteca, o mesmo local de onde tinham iniciado a aventura. Olharam em volta atônitos. Sobre a mesa o holograma da cidade subterrânea e, a seu lado, Margot esperava sorrindo gentilmente. Estavam sozinhos. Todas as outras pessoas haviam desaparecido.

Assim que os viu Margot se aproximou e inquiriu Elisa:

– Ele vai nos ajudar?

Elisa se voltou em direção a João e o olhou-o perscrutadora.

– O que vocês querem que eu faça? – Ele perguntou levantando os ombros.

– Precisamos que abra a passagem para podermos entrar na cidade. Você é nossa única esperança todos nossos aliados estão mortos.

– Não entendo… O que está acontecendo?

Elisa explicou a situação de uma maneira sucinta sem esquecer, no entanto, de mencionar a possibilidade de uma guerra onde a raça humana poderia ser a maior prejudicada. Depois de esclarecer alguns pontos que ficara obscuro João perguntou sem preâmbulo:

– Como posso ajudar se não conheço a cidade?

– Posso lhe ensinar… Sei que conseguirá! – Margot respondeu excitada.

– Bom… Posso tentar…

– Venha cá – Margot chamou-o e se aproximou do holograma da cidade.

Com um feixe de luz cortou o holograma deixando a mostra duas metades da cidade. Localizou sua posição e, a partir daí foi explicando o caminho que deveria seguir e o que fazer quando chegasse à sala de instrumentação. Depois de várias explicações técnicas a respeito dos movimentos que deveriam ser feitos para abrir o tubo, convidou-os a acompanhá-la em uma excursão até o objetivo.

Saíram do aposento e caminharam pelo corredor até a entrada do elevador. Margot pediu que ele apertasse o botão e esperou a porta se abrir. Desceram ao segundo subsolo onde encontraram um grande entroncamento que servia de conexão a vários corredores cada um com uma cor diferente, e um espaço reservado, no centro, com vários veículos elétricos estacionados.

Entraram em um deles e Seguiram a linha amarela em uma velocidade constante. Após quase quarenta minutos no corredor surgiu um anel viário onde tinham a opção de entrar em um dos corredores de cores variadas, o que fizeram entrando no magenta que os levou para cima numa espiral alucinante. Antes de chegarem ao topo trocaram o corredor magenta pelo carmesim seguindo-o até o seu destino. A mesma sala na qual foram deixados pelo elevador que saira da caverna, na superfície do planeta, assim que chegaram à cidade subterrânea.

Entraram pela porta destrancada e se depararam com vários trabalhadores que executavam tarefas relacionadas à suas funções. Todos ligados de alguma maneira aos instrumentos altamente sofisticados que estavam espalhados no enorme recinto refrigerado.

Foram ao console a direita da entrada e Margot pediu que João apertasse o botão do tamanho de um punho, na cor vermelha, localizado no centro do painel, digitasse no teclado luminoso alguns dados que chamaram outros. Digitou o último símbolo aparecendo alguns caracteres e a tela logo acima fixa à parede reproduziu duas imagens uma em cada metade de sua extensão mostrando a montanha e os dois lados do tubo dando acesso aos veículos em trânsito.

– Não se esqueça de desligar o monitor – Margot apontou a tela dando ênfase à palavra desligar. O que ele fez apertando a tecla que piscava ininterruptamente.

Saíram da sala refazendo o caminho de volta à biblioteca.

Um apito estridente encheu o ambiente fazendo tremular as paredes rompendo a frágil ilusão remetendo as mulheres de volta a realidade. Elisa abriu os olhos e levantou-se ligeira se sentando e observando em volta assustada. Tudo estava tranqüilo. O general retirava o aparelho da cabeça de Margot após ter retirado da sua. Theófilo havia desaparecido.

– Acha que conseguiremos senadora?- O general perguntou ansioso.

– É possível general. Preciso me juntar aos outros e aguardar os acontecimentos.

Na cidade subterrânea João abriu os olhos. Não acreditava ter consentido com aquela loucura. Estava chocado com sua imprudência. Retirou a meia lua prateada da cabeça deixando-a em cima do móvel. A sala continuava silenciosa. Algumas pessoas estavam deitadas em seu leito viajando pelo hiper-espaço em alguma aventura inimaginável.

Levantou-se e caminhou pela sala desentorpecendo as pernas. Próxima a porta de entrada a bibliotecária controlava o entra e sai de uma maneira displicente enquanto assistia algo na tela à sua frente. João se aproximou.

– Oi! – exclamou com um sorriso – Estou pensando em ir ao meu alojamento, mas não sei qual o caminho tomar, você poderia me ajudar?

– Você é o visitante da superfície não é?

– Sou eu mesmo… Pode me ajudar?

– Espere um momento – respondeu demonstrando uma intranqüilidade que o desnorteou.

Tocou a tela com o indicador e iniciou um diálogo com alguém na sua língua gutural. Após desligar olhou João de cima a baixo e com um muxoxo falou ríspida:

– Estão mandando alguém para acompanhá-lo.

A espera o angustiava. João não sabia como resolver o problema, ele não era um homem de ação, mas de pensamento. Precisava de uma idéia e ir ao alojamento, que estava próximo do objetivo, poderia ajudar. Circulou pelo salão observando os adereços na parede para não deixar que a moça percebesse seu nervosismo. As telas, todas de imagens tridimensionais da superfície com o sol em destaque impressionou-o sobremaneira. Os habitantes da cidade amavam o sol. Toda a decoração da ampla sala era voltada para o sol. Onde deveriam estar janelas, monitores passavam filmes de montanhas ensolaradas de um lado e o oceano com surfistas cortando as ondas em um dia claro repleto de banhistas do outro.

Enquanto admirava o sol apresentado de variadas maneiras metade de seu cérebro procurava desesperadamente uma saída para o problema que o esperava. A lógica martelava sua massa craniana como o martelo do ferreiro sobre a bigorna.

Pelo canto dos olhos percebeu o sinal, virou-se e encarou a bibliotecária que o chamou abanando as mãos. Junto dela o homem esperava. O momento chegara. Caminhou tentando mostrar uma firmeza que não sentia – não seria humilhado – pensou raivoso.

– Senadora – o general a interpelou – Devemos enviar outras naves com mais guerreiros – a senhora não concorda? Não devemos repetir o mesmo erro que cometemos com os doadores. A ação rápida é a melhor oportunidade de acabar com essa querela.

– É possível que apareça a oportunidade… Se conseguirmos entrar a surpresa pode ser uma grande vantagem.

– O exercito está de prontidão. Quando a senhora entrar… Precisamos de trinta e oito minutos para alcançar o objetivo. Mantenha o tubo aberto.

– Certo general!

Seguiram para o hangar atravessando o extenso corredor. A nave a esperava pronta para partir. Despediram-se animados e antes de subir a bordo Margot anunciou:

– Estamos prestes a escrever mais um capítulo de nossa história general. E tem a minha palavra que não o decepcionarei.

O general ficou observando a nave flutuar e sair vagarosamente do hangar atravessar a bolha que mantinha atmosfera do interior intacta e zunir como um flash desaparecendo de seu campo de visão.

-Este é Kodaira – a bibliotecária apontou para o guerreiro a sua frente – ele o acompanhará até seu alojamento.

O soldado com o uniforme colante ao corpo totalmente monocromático e a cabeça coberta com o capacete que o deixava irreconhecível aprumou-se e tocou o ombro esquerdo. Sem uma palavra girou sobre os calcanhares e saiu da biblioteca.

Seguiu pelo corredor subindo o lance de escada com passos firmes após a primeira curva. João o seguia e quando percebeu que não pegariam o elevador temeu ter sido descoberto. Parou trêmulo sem saber o que fazer. Sentia-se perdido. O soldado voltou-se ao perceber sua hesitação e tocou os lábios com o dedo indicador pedindo com gesto veemente que o seguisse em silêncio.

João assustou-se sem compreender suas intenções seguindo-o em temeroso silêncio. Alcançaram o espaçoporto subiram na nave e planaram para fora do telhado do edifício. Neste momento o soldado retirou o capacete e com um sorriso cheio de significado olhou-o nos olhos.

– Qual é o plano?

– Como?! Que plano?

– Não se preocupe estou aqui para ajudá-lo. Sou o ultimo aliado vivo. Estou diretamente ligado ao nosso líder. Sou seu ajudante de ordem. Ele me pediu para vir ajudá-lo

– Não sei do que está falando…

– Temos que agir rápido. Essa nave é o único lugar que podemos conversar sem sermos ouvidos. Não tema! Precisamos ser rápidos.

João Pensou por um momento sem tirar os olhos de seu interlocutor. Seu semblante não mostrava sinais de falsidade – se é que a neurolinguistica podia ser usada com esse homem tão estranho – Seus olhos sem cor o incomodavam. Seu rosto extremamente branco o deixava confuso. Seu cabelo vermelho – pintados – o incomodava. Seus lábios pálidos e seus dentes transparentes o incomodavam.

Continuou olhando-o perscrutador. A nave seguia planando em direção a seu objetivo – não tinha saída, precisava acreditar. Se estivesse errado seria morto e a terra correria um grande perigo. Não tinha saída…

– Como você sabe que tenho um plano? – Perguntou seco.

– Nosso líder está monitorando a cidade. Ele percebeu uma anomalia em sua viagem… Não soube precisar, mas acredita que você foi contactado pela resistência.

– Tenho que abrir o tubo! Exclamou em pânico.

– Certo! Vamos lá…

O guerreiro ligou o transporte e voaram em direção a parede sul da caverna. Passaram pelo aglomerado de edifícios atravessando entre eles. João olhou espantado para dentro dos apartamentos onde casais em atividades domésticas não demonstravam preocupação alguma com os acontecimentos.

Voaram sobre a ponte suspensa, transpuseram o palácio onde pode ver os flamingos e o jardim rapidamente antes de entrarem numa fresta na rocha e pousar a nave no conector de metal saindo para o ladrilho vitrificado.

Kodaira recolocou o capacete e desembarcaram. Seguiram em silêncio na direção do elevador que aguardava com a porta aberta. Desceram no corredor carmesim sem trocar nenhuma palavra entre si, entraram no carro elétrico estacionado junto aos outros no centro do pátio e rumaram para a sala dos instrumentos.

Percorreram toda a extensão necessária para chegar ao destino programado. Sem alarde abriram a porta entrando no ambiente refrigerado. João imediatamente se esgueirou em direção ao painel onde deveria abrir a comporta do tubo. Kodaira encaminhou-se para o centro da sala chamando a atenção dos trabalhadores que o cumprimentaram sem muito entusiasmo.

Enquanto Kodaira cobria sua retaguarda, João manipulou os dispositivos conforme havia aprendido abrindo o tubo encravado na montanha bem longe dalí. O monitor mostrou as duas naves sendo sugadas pela corrente marítima que se formou ao desbloquear a passagem. Esperou impaciente até ver os veículos saindo na outra extremidade, desligou o monitor e se encaminhou para porta.

– O que está fazendo! Quem é você?

O homem segurou-o pelo ombro para que parasse.

João voltou-se em sua direção, mas antes que pudesse abrir a boca ele brilhou por alguns segundos e desapareceu numa réstia de luz.

Olhou assustado em volta e viu Kodaira atirando em direção aos outros dois trabalhadores que brilharam desaparecendo em seguida. Sem nenhum comentário, agilmente, seu companheiro foi até o console e atirou despedaçando o mecanismo impossibilitando o fechamento do tubo. Correu para a saída em seguida sem olhar para trás, subiu no veículo e partiu. João pulou segurando com força a barra fixa no painel segundos antes do veículo saltar para frente, caindo sobre o banco ao lado do seu cúmplice.

Margot olhara o tubo encravado na montanha pela milésima vez. Sua imaginação não a deixava em paz. Em sua mente todo tipo de acontecimento negativo já havia acontecido. João fora capturado. Fora assassinado. Fora torturado e àquela hora os soldados estavam a caminho para surpreendê-la… Ou não acontecera nada. Simplesmente não conseguira tomar iniciativa e continuava viajando no MPN.

Por isso quando sentiu a vibração percorrer seu corpo não acreditou. Aplicou um zoom na montanha para ter certeza que não fora uma alucinação e viu a comporta se abrindo.

Imediatamente acionou os motores da espaçonave e se dirigiu a entrada. Deixou a corrente marítima absorve-la e foi sugada pelo tubo. Saiu do outro lado mergulhando na escuridão e rapidamente acelerou a maquina para não ser atropelada pela outra nave que a seguia.

Tudo estava planejado. Não podiam se comunicar em hipótese alguma. Cada um realizaria sua tarefa e se tudo corresse bem o esquadrão invadiria e terminaria o que eles começaram.

– Nunca mais deixarei isso acontecer novamente – Margot falou alto consigo mesma.

Emergiu próximo ao porto e seguiu a luz do farol que iluminava uma grande área em derredor. Atracou no cais abandonando o transporte seguindo para dentro do prédio transparente. Tudo estava tranqüilo. Além da proibição de viajar nada mais dava a entender que algo estava acontecendo. Mas, esta era uma situação normal. Não era incomum levantarem tal proibição. Nem sempre o oceano estava livre de curiosos.

A outra nave seguiu em frente. Emergiu após vasculhar a superfície do mar com o ultrasom em busca de bisbilhoteiros. Levantou voou suavemente pousando bem no meio da pista atrás de um enorme cargueiro de transporte, em cima da ponte.

A velocidade diminuiu e a curva foi feita sem muito cuidado ingressando no corredor verde que os levou de volta onde tudo começara. Adentraram precipitadamente pela porta escancarada do alojamento cruzaram a sala se desviando da mesa de centro e se postaram a janela de frente para o mar. Kodaira puxou o pequeno tubo do bolso e olhou através dele perscrutando o horizonte.

– O que procura? – João perguntou perturbado.

– Se fomos interceptados precisamos avisá-los… – Indicou com a mão livre o mar a distancia.

A baia estava calma. Ficara observando o horizonte o tempo suficiente para ver a nave de Margot emergir na entrada da enseada. O soldado saiu Imediatamente da inércia e correu de volta ao veiculo elétrico. João o acompanhou se agarrando ao banco antes de se sentar arfando. Voltaram à espaçonave e Kodaira a pôs em movimento saindo pela fresta da montanha. Antes de acionar os motores dois cruzadores de guerra bloquearam seu caminho exigindo que retornassem ao espaçoporto. Em vez de obedecê-los o piloto desligou a força do veículo fazendo-o despencar em direção ao solo. Segundos antes de se espatifarem nas pedras lá embaixo conectou novamente a ignição e a nave disparou em direção ao mar. Passou rapidamente alguns metros acima da ponte no exato momento que a segunda nave saia do pélago e se protegia atrás de um enorme transporte industrial que circulava pela estrutura suspensa.

O tiro acertou a traseira da nave e o impacto derrubou-a no mar. O cruzador que disparara flutuou sobre a água e recolheu os dois tripulantes levando-os para o palácio da assembléia.

Continua no próximo capítulo…

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*