Pernas curtas demais
Valquíria era o que muitos chamam de um amor de pessoa. Irradiava simpatia até pelos poros. Mente imaginativa, não raro manifestava esse dom na forma de invencionices. Invencionices muitas vezes transformadas em mentiras. Mentiras em que ela mesma acabava por acreditar como sendo verdades. Coisinhas até relevadas pelos amigos. Afinal, quem não mente de vez em quando, sobretudo por uma boa causa?
Além disso, ela se julgava muito esperta, safa demais, capaz de se sair bem de qualquer situação mais extrema. Sabia usar seu repertório de mentiras e o fazia com a maior naturalidade. A esse respeito, Machado de Assis escreveu em Dom Casmurro que “a mentira é às vezes tão involuntária como a respiração.”
Os pais de Valquíria tinham formação acadêmica, e dos filhos exigiam uma boa graduação universitária, não importando qual curso. O importante era o “canudo na mão, pois entendiam sua importância como instrumento capaz de abrir portas no futuro, além de ser uma garantia de ascensão social”. Assim pensavam e não abriam mão dessa exigência.
Valquíria, porém, não dava a mínima importância aos estudos. Mas, para não bater de frente com a vontade intransigente dos pais, decidiu estudar ciências contábeis e atuariais. Formou-se aos trancos e barrancos numa dessas faculdades espalhadas por esse mundo afora.
Sempre pressionada pela família, resolveu procurar trabalho.
Numa entrevista para emprego, depois de preenchido o formulário, fez outra das suas. Mencionou com riqueza de detalhes, habilidades, cargos, projetos e empresas onde nunca trabalhara. O gerente de RH, impressionado com tudo aquilo, não vacilou em contratá-la.
Dois meses depois, a diretoria da empresa convocou uma reunião com os acionistas para apresentar-lhes o balanço do exercício anterior. Como o contabilista-chefe adoecera, Valquíria foi designada para fazer a apresentação, pois tratava-se de algo pertinente à sua área.
Foi um desastre, um vexame total. Mal começou e foi logo gaguejando, sem saber do que estava falando. Não demorou muito para sobrevir-lhe uma crise de choro. E, pateticamente, teve de confessar a todos o seu desconhecimento daquela matéria, que teoricamente deveria ter aprendido na faculdade. Os diretores entenderam então como a sua contratação foi uma farsa.
Na semana seguinte ela e o gerente de RH foram demitidos.
Mais uma vez comprovou-se que “a mentira tem pernas curtas”. No caso de Valquíria, curtas demais.
Por Gilberto Silos
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