13 de junho – dia do nascimento de Fernando Pessoa
Dedico esse texto a André Geraseev, que nasceu no mesmo dia, parabéns!
O poeta que tem morada em meu coração nasceu no dia 13 de junho de 1888, em Lisboa, Portugal. Foram longos e curtos 138 anos de poesia da mais bela profundidade e sensibilidade que já li em toda a minha vida.
Conheci Fernando Pessoa com Irael Luziano que declamava em praças públicas de Sanja City. Nos tempos que Irael às vezes era detido pela polícia da Rua Humaitá, por estar declamando poemas na Praça – mas ficava apenas algumas horas detido e o soltavam porque ele só praticava poesia e muita arte. Andávamos juntos pela cidade como dois rebeldes, cada um do seu jeito e sentávamos na Praça do Sapo, desfrutando da nossa própria companhia. Ele lia os poemas de Fernando Pessoa e outras leituras muito além da realidade tridimensional e eu ouvia calada, sorvendo cada palavra que se fincaram em mim como espadas afiadas.
Irael declamava o “Guardador de Rebanhos” de um jeito só dele e mais ninguém. E o “Poema em Linha Reta” ficava magistral em sua boca, sua voz e seus gestos. E ele ficava rodeado de uma multidão assombrada com a sua arte de espalhar Fernando Pessoa ao vento.
E foi assim que nunca mais larguei Fernando Pessoa – ando ainda de mãos dadas com o poeta, como meu companheiro de dores e desolação. Ao ler “Tabacaria” eu choro e fico quase cheia de ternura com trechos de “O Guardador de Rebanhos”. Também é meu companheiro de conhecimentos místicos dos quais ansiava e nunca tive essa sensibilidade, minha lógica é cruel. É o meu companheiro das sensações, essas sim, me carregam para o mundo mágico do sentir e do pensar com os sentidos, pelo menos os míseros cinco que tenho – a minha ânsia por ter mais que cinco, ficou lá atrás…lutei tanto para tê-los, mas não obtive sucesso. A sorte que ainda me resta o instinto afiado que paira sobre todos os sentidos e se confunde com uma ínfima intuição reduzida, que reside no princípio da incerteza. Ah, quem dera me desdobrar como Fernando Pessoa e me tornar uma multiplicidade. Uma unidade na multiplicidade ou uma multiplicidade na unidade, tanto faz, acho.
Enfim, “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. E não se preocupem com os meus lamentos, são apenas devaneios poéticos e o poeta é um fingidor.

Fernando Pessoa – Desenho de Almada Negreiro – Museu Calouste Gulbenkian
AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração. (Fernando Pessoa)
Coloco abaixo um poema de cada heterônimo de Fernando Pessoa…
Guardador de Rebanhos – Alberto Caeiro (Um pequeno trecho)
O Meu Olhar
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender …
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar …
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…
POEMA EM LINHA RETA (Álvaro de Campos)
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das
etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. (Ricardo Reis)
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento de mais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento –
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.
Elizabeth de Souza
130626
Para saber mais:
https://www.ebiografia.com/fernando_pessoa/
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Me aventurei numa vibe de criar uns heterônimos.
Mas não mando para ninguém.
Já perdi a senha do Instagram. Uma conta no Google e abri outro blog.
É para mim Fernando Pessoa o grande poeta.
Que os outros não fiquem sabendo.
Graças a um professor na Escola Ana Cândida na década de 80.
Caro Joka Faria, já tive conhecimento dos seus heterônimos kkkkkk
Sim, Fernando Pessoa é um dos melhores poetas de todos os tempos e o meu querido.